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sábado, 31 de março de 2012

Finalmente, brilhantismo

Mesmo sem os dois tomos que completam a trilogia iniciada com O Príncipe da Neblina - que não parecem ser essenciais para entender o percurso como autor - é possível perceber que passos deu Záfon para chegar desse seu primeiro livro até este segundo tomo de histórias em torno do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Sempre com o seu gosto pelas assombrações dos contos góticos, Zafón tentou encontrar um público mais abrangente tentando primeiro exagerar a influência romântica dos mesmos e acabando por quase o substituir pelo melodrama de baixa qualidade.
Ao mesmo tempo, Zafón foi procurando uma plataforma literária que lhe permitisse solidificar os momentos de detectivismo com as vertentes aventurosa e bibliófila bem equilibradas.
O Jogo do Anjo é o livro em que ele consegue a combinação correcta, sem abdicar das várias hipóteses narrativas que lhe proporciona o mais largo espectro de géneros. Quer isto dizer que ele percebeu que o seu género de história funcionaria melhor por diminuir o tom do romance trágico e fazendo prevalecer uma combinação do gótico com um noir desavergonhadamente saído das páginas de velhos folhetins.
Mesmo para o estilo de escrita que ele cultiva, estas formas literárias recuperadas ao século XIX e usadas neste preciso rácio, são as mais indicadas para ele.
O ambiente que ele cria para a Barcelona de antes da segunda Guerra Mundial está povoada de casas amaldiçoadas e ruas mal iluminadas. Fundem-se perfeitamente, assombrando por demasiadas possibilidades à espreita, reais ou imaginárias.
Polícias corruptos e velhos diabos, todos acercando-se de David Martín, um jovem escritor a braços com as agonias dos primeiros passos profissionais.
Os tormentos das obrigações e das motivações do jovem escritor têm origem na sua venda aos diabos reais e ocultistas: editores que só se preocupam com dinheiro e uma figura sombria que não é nomeado como tal mas que deixa todos os sinais de ser o próprio Lúcifer.
Algo mais existe num escritor que se entrega sem descanso ao trabalho, um desígnio que determina a necessidade de criar e, com isso, influenciar o mundo.
Por via das suas criações, cada livro um filho de que não pode abdicar mesmo se nunca deva ver a luz do dia, Davida Martín está a criar o seu próprio tormento.
Barcelona é tão demoníaca quanto ele a recria da sua torre de vigia de onde lhe chama a "cidade dos malditos".
Mas é o seu outro livro, uma base para a criação de uma nova religião, que mais lhe arranca as entranhas, que mais avisa sobre o poder da narrativa.
A exposição da sua alma traz delícias e perigos que só a nobre arte de narrar poderia conter e, por isso, fica-lhe a culpa das desgraças que poderá desencadear neste mundo - a das que, desde logo, desencadeia sobre si mesmo.
Esta exclusiva motivação pela dificuldade (e intensidade) da vida de escritor vem em benefício do livro de Zafón proporcionando uma estrutura bem mais sólida do que as anteriores.
A história é sobre a vida do escritor e o parto dos seus livros e o cerne mantem-se sempre aí. As pequenas derivações ou as variações de tom, são sempre maneiras de integrar as muitas ideias que Zafón mostra, mas que servem à definição da personagem central e à maneira original de reinventar a vocação de escritor.
A importância dos livros, do trabalho de escrita e do próprio Cemitério, sempre influentes e longe de serem curiosidades exóticas para ornar alguma banalidade romanceada.
Não é por isso que Zafón deixa de fora de mais este livro os seus temas predilectos - pessoais, acaba-se por crer - que, no caso essencial da tutelagem emocional e criativa dentro do mundo dos livros, tanto desagua como parte de Martín.
A sugestão é de que Zafón já não procura apenas definir o reencontro com figuras parentais desaparecidas mas está em vias de entender como passar essa responsabilidade adiante.
Se David Martín é uma representação ficcional do próprio Carlos Ruiz Zafón poderá não ser uma especulação completamente correcta, mas que este é o melhor dos seus heróis (evitei deliberadamente a palavra "personagens" pois não há maneira de esquecer Fermín), também porque é dos que acumula mais falhas, persistindo nos seus erros em nome do que lhe nasce naturalmente. E não nos podemos revoltar com essa sua insistência pois é das poucas coisas que sempre o acompanhará.
O Jogo do Anjo é a concretização dessa beleza imperfeita do labor de escritor que o livro traduz numa visão mais saborosa - porque extravagante.
Trata-se de um livro a guardar, independentemente do desapontamento anterior ou das emoções que os tomos seguintes venham a proporcionar. Talvez só o espírito completista se perturbe com tal decisão.


O Jogo do Anjo (Carlos Ruiz Zafón)
Booket / Planeta Manuscrito
1ª edição - Maio de 2011
576 páginas

sexta-feira, 30 de março de 2012

Outra versão do mesmo livro

Faço batota e cito de O Jogo do Anjo (uma crítica que pertence ao porvir) a fórmula para livros de Ignatius B. Smason: ...que desse a tudo um tom um pouco sinistro e que centrasse a história num livro secreto possuído por um espírito atormentado, com enredos secundários de aparente conteúdo sobrenatural.
Dirão que é um jogo metaliterário de Zafón, mas é ele a confessar a fórmula que lhe serviu para este livro. Fórmula que pertence aos romances de cordel e aos folhetins escabrosos.
Entendo mal que tal fórmula tenha merecido tantos e tão repetidos elogios e despertado tão avassaladoras paixões - ouvi uma vez, da pessoa que me emprestou este livro, que quem não gostar de A Sombra do Vento não poderia ser seu amigo.
Talvez me tenha tornado num leitor cínico mas todos os mistérios vitais deste livro - havendo muitos outros menores - são previsivelmente resolvido ainda ele não se aproxima do meio.
Conhecendo as versões de menor qualidade de exagerados melodramas amorosos e de impossíveis mistérios difusos, sabemos logo quais serão as causas dos tormentos do casal Júlian e Penélope ou a identidade da figura que se move nas sombras atrás do último exemplar d'A Sombra do Vento (o livro dentro do livro).
E conhecendo as de maior qualidade, sabemos de onde andou ele a retirar referências e inspiração, numa recombinação de técnica e estilo que não se comparam aos originais, mesmo se Zafón merece que lhe elogie o domínio da escrita (mas isso já o fizera com os seus livros anteriores) e a criatividade com que vai pontuado a previsibilidade - e, por vezes, elevando a qualidade - da sua narrativa.
Sobretudo na criação do Cemitério dos Livros Esquecidos se vê o grau de inventividade que ele pode alcançar mas também, a partir da sua revelação (e essa é logo no início do livro), se lamento que ele não persiga sempre o melhor do seu imaginário mas acabe a utilizar as fórmulas menores (e gastas) dos géneros que combinou.
Para um livro sobre o amor pelos livros, esse importante ponto de partida que é o Cemitério dos Livros Esquecidos, não tem influência senão como pequena digressão chamativa para uma história que dali parte mas ali não volta.
Tal como o livro de Carax que é praticamente um MacGuffin para uma história - mais uma história, na verdade, quando se lê cronologicamente a obra do escritor - de um rapaz à procura de passar à idade adulta pelo entendimento, tanto dos mistérios das raparigas que inevitavelmente amará como da vida da figura tutelar que lhe chegou pela autoria de um livro que só ele encontrou no interior do labirinto.
Os episódios da vida do rapaz e, depois, os episódios da vida do autor - e desses episódios, infelizmente, são os amorosos que prevalecem - ganham relevância sobre os mistérios dos livros ou do lugar onde as memórias rejeitadas destes acabam por encontrar um refúgio.
Dito tudo isto, não posso deixar de olhar para A Sombra do Vento como a versão  seguinte (eventualmente um pouco mais madura) de Marina.
Uma versão onde o único verdadeiro traço de génio é uma personagem secundária de nome Fermín Romero de Torres que pontua o romance com um humor delicioso e altamente eficaz. Resultante das frases quase absurdas ou apenas irónicas que ele lança a meio dos diálogos - com uma seriedade que não admite reacção - é um humor reforçado pelo seu envolvente linguajar.
Com ele corremos páginas afora resistindo aos erros estruturais de Zafón à medida que acumula personagens e enredos secundários em torno do fio central (que, sem elas, seria pobre).
Sempre que Zafón se perde por caminhos secundários não tem engenho para resolver o retorno ao eixo nevrálgico, usando soluções facilitistas onde revelações úteis surgem artificialmente para que a história, então, avance.
Não há maior caso de Deus ex machina neste livro do que a absurda carta que Nuria deixa a Daniel. Várias dezenas de páginas escritas em grandíloquo estilo literário durante uma noite em que ela já corria perigo de vida e em que ela deveria ter tentado fugir.
A falsidade da carta no seio do livro é de tal ordem que ela se substitui a quase tudo o resto, pelo que teria sido suficiente para evitar tanta delonga até chegar ao confronto em que todas as linhas se cruzam em definitivo.



A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón)
Publicações Dom Quixote
2ª edição - Junho de 2005
408 páginas

quinta-feira, 29 de março de 2012

Para satisfazer o mercado e o ego

Ainda que Carlos Ruiz Zafón diga que este é um dos livros que recorda com maior apreço, é o menos interessante de entre os que dele pude ler.
A sua introdução ao livro deixa a sensação de que tenha sido pela resistência do livro a uma década de más edições que ele tanto o aprecia. Um sentimento de pai à espera do ressurgimento do filho pródigo que o seu sucesso com A Sombra do Vento viria, finalmente, a proporcionar.
Deve ser esse o motivo - a par de ser o seu livro "mais pessoal" - pois logo no primeiro parágrafo da introdução o autor diz que o favoritismo dos autores recai sobre obras independentemente da sua qualidade literária.
Essa não abunda neste livro que o esfaimado sucesso levou a ser reeditado para disfarçar o tempo de espera por um novo livro.
Marina não é mais do que uma versão mais cheia d'O Príncipe da Neblina. E à conta disso, uma versão menos interessante.
Os temas são os mesmos: a busca de uma figura tutelar e o heroísmo do primeiro amor, sobretudo. Mas também os detalhes menores da história se repetem, do prenúncio mecânico (relojoeiro) dos perigos orgânicos que se aproximam ou a jovem rapariga envergando o alvo vestido de pureza.
A história tem o mesmo rasto de mistérios obscurecidos pela sombra do sobrenatural: uma aventura detectivesca nas mãos de protagonistas que, pela sua juventude, olham ainda para o inexplicável como brumas de magia.
Trata-se de glorificar o acto de fé dos ingénuos que ainda partem por um bairro desconhecido (já o dizia Dinis Machado em O que diz Molero) e encontrar uma aventura sem medida.
O mesmo terror gótico os assombrará mas tal só existe como forma de brindar os jovens com as peripécias que prometem a morte a quem tem ainda tanto que viver. Bem ao contrário d'O Príncipe da Neblina onde o terror impregnava a essência de uma história feita da aventura de pura amizade - um amor em sentido lato - entre dois rapazes.
Falta a Marina a agilidade desse outro livro que levava o leitor de susto em susto crendo que esses sustos teriam consequências concretas sobre as personagens.
Aqui a história parece demasiado cheia por um núcleo que não é mais do que uma derivação por terrenos de fascínio acrescido quando comparados ao arco narrativo que liga o início ao fim do livro e que não precisa.
Núcleo fechado, quase independente, sem desfecho que toque o arco narrativo que revela o verdadeiro tema do livro.
Um arco narrativo que não é mais do que a história simples de um amor cândido mas condenado. Uma tragédia de apaixonados escrita melhor por outros.
O miolo fantástico do livro parece estar lá porque é esse o terreno de eleição de Zafón e ele não sabia que mais fazer com as suas personagens entre a descoberta e a perda dos seus personagens. Como se duas matrioshkas desemparelhadas coubessem, por acaso, uma dentro da outra.
Marina é uma releitura do que estava para trás com um aviso do que está por vir (e de que falarei na crítica que se segue, a A Sombra do Vento).
Só se entende que tenha honras editoriais por preencher o vazio de vendas e o desejo do autor ver a sua obra recuperada com qualidade e cuidado.


Marina (Carlos Ruiz Zafón)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2010
264 páginas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Um bom livro juvenil

Lancei-me à tarefa de conhecer o máximo da obra de Zafón por via do seu primeiro livro, sabendo de antemão que se tratava de uma novela dirigida a um público juvenil.
O seu grande benefício está precisamente em ter sido escrita (1993) quando os leitores ainda podiam ser tratados como jovens e não como os jovens adultos de hoje em dia que obrigam a que os livros tenham um retrato do mundo que conhecem pelo meio da literatura.
Tendo sido escrito para os jovens, consegue romper a barreira que os separa do público adulto e mais exigente, que aqui reconhecerá um conto gótico classicista deslocado para um período em que o grande avanço tecnológico é um projector de cinema caseiro.
Motivo de serenidade, portanto, que não haja mensagens de telemóvel ou chats de internet a tomarem o lugar da boa construção narrativa - e a gerar a rejeição dos leitores amadurecidos que quererão experimentar este livro por conta dos mais recentes do autor.
O herói não tem mais do que 13 anos e o seu arqui-inimigo é o ser que dá nome ao livro, de grandes e misteriosos poderes.
A luta desigual vive de mais do que o desequilíbrio das capacidades e das chances de cada um triunfar. Vive de mais do que o confronto do entendimento puro e pueril do Bem com a matreirice antiga do Mal.
Vive, sobretudo, da capacidade de vitória e derrota que o mais novo dos oponentes revela no espaço do desconhecido que lhe sobra entre o que descobre e o que nem imagina sobre o inimigo.
Zafón alimenta a história dos medos naturais do rapaz recém-chegado a uma aldeia, vindo da cidade para escapar à guerra.
Elementos habituais - e sempre eficazes - para esses medos são a atmosfera tensa da nova casa há muito entaipada, os perigos fantasmagóricos que aguardam nos destroços de um antigo barco afundado, a vida sugerida pelas estátuas que ocupam o espaço central de um jardim de que ninguém cuida ou um misterioso faroleiro com conhecimentos da velha maldição cigana que está finalmente em marcha.
Perante isto, os perigos de se perder no jardim ou se afogar por entre os escombros são tanto realistas como carregados do sobrenatural que o indefinido mas poderoso vilão insufla naqueles objectos inanimados que tentam se voltam contra ele.
Max enfrenta tais terrores em nome do grande amigo que fez naquele Verão e da promessa que fez ao faroleiro (um mestre que o toma sob protecção); e que esse amigo serve de cavaleiro andante à irmã de Max, entendemos que as voltas que Zafón dá em torno desta pequena estrutura de relações é de uma nostalgia dos feitos - reais ou imaginados, amorosos ou aventureiros - que muitos adultos alcançaram, em tempo de férias, quando tinham a idade dos protagonistas.
Uma nostalgia que sublinha o prazer pronto a ser desvendado pelos adultos leitores para lá das aventuras que mexem com os mais novos que não saberão nada de tal sentimento.
Também etravés da escrita de elevado cuidado, Zafón vai mexer com essa nostalgia. Neste caso, nostalgia pela possibilidade de saborear a linguagem no processo de encarnar as personagens que disputam à imaginação própria o divertimento (quando não deslumbramento) que ela ainda saberá criar.
Conclui-se que a ligação ao livro serve tanto as camadas juvenis e adultas, sendo uma boa entrada na leitura ou uma boa recordação de como outrora tal se fez.
Quanto aos jovens adultos, parecem (tristemente) condenados a ficar de fora dos que podem apreciar este livro.


O Príncipe da Neblina (Carlos Ruiz Zafón)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Setembro de 2011
208 páginas