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sábado, 28 de julho de 2012

Destino: outro livro

Agatha Christie deve ter escrito Destino: Frankfurt como reacção a um momento do século XX que exigia um outro tipo de ficção criminal.
Um tipo de ficção que se expandisse para lá do ambiente controlado de uma pequena vila inglesa e ocupasse todo o mundo,
Destino: Frankfurt é uma intriga internacional - quase um thriller, direi - repleta de viagens, perseguições, disfarces e ideologias.
É o livro em que Agatha Christie teve de abandonar o cenário que lhe proporcionou os seus melhores trabalhos, aquele mundo em que o crime é apenas uma leve mancha no carácter decente e cavalheiresco do Reino Unido - e sempre rapidamente removida.
Um mundo inocente em que até uma velha solteirona de St. Mary Mead consegue resolver os casos baseando-se apenas nos seus muitos anos de observação da natureza humana (ou coscuvilhice, se preferirem).
Esse mundo era o ideal para o requinte imaginativo que Agatha Christie colocava nos seus crimes. Não só porque recuperaria a sua imaculada existência, mas porque ajudava ao efeito de surpresa do acto criminoso mais feroz.
Num romance de espionagem internacional, a inocência está perdida e o crime torna-se na ferramenta mais comum do trabalho.
A desconfiança assegura que os seus protagonistas sobrevivem e, por mais cerebral que possam ser, a sua intervenção no terreno faz a diferença.
Basta o início do livro para o revelar, quando um cavalheiro inglês acede ao pedido de uma desconhecida para lhe permitir usar a sua identidade para apanhar um voo no qual foge salvando a sua vida. Não só isso como ainda se permite ingerir uma bebida que ela própria lhe confessou ter adulterado com algum sonífero.
Ele ainda se interroga sobre se não foi um risco tal atitude, mas perante uma donzela em apuros, ele é de uma elevação a toda a prova que vai acabar por o colocar na rota de graves perigos.
Perante esta conjugação de factores, o livro em que Agatha Christie abandona a segurança dos seus cenários mais inocentes torna-se, igualmente, naquele em que ela os defende.
Fica claro que Agatha Christie não conseguiu escapar à sua própria natureza e que tentou influenciar o novo género, que ameaçava o seu policial, negando-o.
Muito do livro é um conjunto de conversas (entre o discurso e o debate) onde se discute a violência corrente, alguma política e bastante filosofia de valores.
Destino: Frankfurt seria Hitchcock se este não retirasse as partes chatas à vida. Aprende-se com este livro de Agatha Christie o quanto o Mestre estava correcto na lição que tinha para dar.
Estamos, pois, perante um trabalho de Agatha Christie a evitar em absoluto. Os que aqui ficarem avisados, saltem directamente para o próximo livro à espera de uma oportunidade.


Destino: Frankfurt (Agatha Christie)
Edições Asa
1ª edição - Maio de 2012
272 páginas

terça-feira, 26 de junho de 2012

Pelo gosto de ser (bem) enganado

A passagem a romance não apaga os melhores traçoes de uma obra que, nos seus melhores diálogos, deve ter sido excelente de assistir representada em palco.
A única falha do livro será a opção de não juntar à versão romanceada (por Charles Osborne) o texto da peça (esse sim obra de Agatha Christie) para os seus leitores mais dedicados.
Nada que impeça que se aprecie o livro sem dificuldade, minimalista nas suas descrições e veloz nas suas interacções, ambas as características consequência da origem do texto.
Este não é um policial, é uma revelação das secretas motivações humanas. Uma morte é sempre um bom ponto de partida para separar os que se desfazem dos que se revelam mais afoitos.
Mas o livro é, também, um quebra-cabeça manipulador que dá ao leitor/público uma sensação de conforto para crer que sabe o que se anuncia no porvir... apenas para ser contrariado e alegrar-se com isso.
O conforto é proporcionado por um conjunto de personagens muito bem composto em pouco traços. Personagens da história que estamos a ler e que são ainda melhores personagens das pequenas narrativas individuais que constroem umas para as outras.
Por todo o tipo de motivos que o leitor quererá descobrir, as personagens querem enganar-se mutuamente, acabando por se enganar a si próprias sobre o que devem pensar de quem as rodeia - e ao leitor por acréscimo.
Não sendo uma obra excepcional tem o condão de manter perto de si a memória de outras que o são. (Infelizmente, neste ponto, tenho de recorrer ao Cinema e não ao Teatro, embora sejam obras de uma teatralidade fulgurante.)
Como jogo de manipulação, Uma visita inesperada está perto de Sleuth (o original) embora não vá tão longe na minimização do número de personagens ou no tipo de manipulação que ousa fazer em crescente tensão. Como retrato de grupo em ambiente claustrofóbico está perto de 8 femmes, embora num registo mais sereno ( e mais próprio, eventualmente).
Como tal, acabo com a certeza da próxima afirmação. Quem comprar o livro acabará bem enganado, mas pela trama. Seguir para a compra do pequeno volume devido ao nome de Agatha Christie inscrito na capa não levará ninguém ao engano.


A visita inesperada (Agatha Christie)
Edições Asa
1ª edição - Janeiro de 2012
162 páginas

domingo, 5 de setembro de 2010

Entender o mundo quotidiano

Se o relato de uma viagem prima pelo mundano arrisca-se a parecer ridículo, sobretudo se vem de alguém como Agatha Christie, cujo reconhecimento e talento poderiam fazer esperar algo mais substancial.
Claro que isso seria esquecer algo muito importante que a própria autora diz ao início do livro e que nega o pouco crédito que ela dá a esta crónica inconsequente: é do quotidiano que nasce a percepção do passado.
Considerando que Agatha Christie estava envolvida numa viagem com fins arqueológicos onde amuletos e utensílios ganham em importância a jóias.
A banalidade traduz melhor os costumes do que o excesso - a menos, claro, que toda uma época seja um excesso por norma própria.
Por isso os seus apontamentos sobre as reacções dos muitos trabalhadores com quem lida servem para traçar o perfil da comunidade em que se inserem.
Com tantas nacionalidades, religiões e características diferentes desses trabalhadores, aprendemos a distingui-los pelas suas reacções, aprendemos a ajuizá-los melhor segundo as suas próprias crenças traduzidas nos actos comuns.
Claro que a ideia final não será exacta mas, para um relacionamento superficial como a maioria de nós poderá vir a ter com tais populações, serve para apagar preconceitos e para nos tornar mais atentos àquele canto do mundo.
Esta interpretação sociológica de como funciona o relato não invalida algo que, literariamente, é aqui essencial.
O livro convoca personagens reais que nos interessam, com quem gostamos de ter contacto, que mesmo quando são irritantes ou nocivas são confortáveis para se "ter por perto".
As situações inusitadas divertem-nos e os hábitos locais deixam-nos um pouco incrédulos.
Este é o papel essencial do livro, um relato solto e humorado com a autora a rir-se de si própria e de tudo o que venha ao caso.


















Na Síria (Agatha Christie)
Tinta da China
1ª edição - Julho de 2010
288 páginas