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sábado, 16 de junho de 2018
domingo, 30 de junho de 2013
Sob a máscara do herói, a Literatura
Fantomas Contra os Vampiros Multinacionais é um livro de intervenção ideológica, pelo que se pode dizer que ele é, em certa medida, falhado.
Falhado porque a sua validade perante o mundo de agora continua - se não terá mesmo aumentado - como perante o mundo que, em 1975, o Tribunal Russell II (em que Julio Cortázar participou) analisava.
Claro que, para o leitor, isso permite-lhe continuar a encontrar um desafio intelectual no que está a ler, além daquele proporcionado pelo extraordinário formato assumido por Cortázar.
Trata-se de uma novela infiltrada pelas páginas de uma banda desenhada que está no coração da sua narrativa. Uma banda desenhada que, por sua vez, vai parar às mãos de Júlio Cortázar que é autor e personagem.
Quando ele compra uma revista de banda desenhada não imagina que esta falará com e sobre ele a propósito da própria experiência que está a viver e narrar.
A partir desse momento é impossível desenovelar realidade e ficção, narrativa e banda desenhada, autor e personagem. São todos utensílios essenciais à divulgação urgente mas cativante das conclusões técnicas dos relatórios desenvolvidos pelo grupo de trabalho que reflectira sobre as necessidade prementes e os dados históricos mais violentos da América Latina.
Sendo próprio de um autor de elevada capacidade literária, o seu encontro com a banda desenhada tem o dom da elevação do material de entretenimento barato pela importância que esta - e o seu protagonista mascarado - assume lado a lado com a heroicidade dos escritores-protagonistas que se juntam a Julio: Susan Sontag, Alberto Moravia e Octavio Paz.
Os quatro escritores estão ao lado do herói de aventuras defendendo a vida da página impressa, pois até Fantomas é um herói culto como a banda desenhada é uma forma primeira de Cultura para muitos leitores - e uma forma contínua para muitos outros.
A aventura - um dos símbolos máximos da imaginação - é a arma maior contra o tal vampirismo multinacional: um capitalismo canibal que quer desprover as pessoas do conhecimento e da memória para que sejam autómatos mais eficazes.
(Em jeito de aviso, diga-se que tendo o livro tem um manifesto teor esquerdista, não creio que qualquer leitor com outras tendências ideológicas se possa sentir mal com a guerrilha da independência autoral contra a uniformização funcional - que neste caso leva, então, o nome de capitalismo.)
Esta aventura em particular é contra o desaparecimento de livros e a destruição de bibliotecas, num fenómeno com algo de sobrenatural e muito de intencional.
Fantomas combate o fenómeno a solo e pela força enquanto os escritores - os pensadores, em geral, se pensarmos que o livro fala sobre o grupo do Tribunal Russell II onde não estavam exclusivamente escritores - combatem em grupo e pela força da criação, mesmo tortuosa ou acidental.
Julio Cortázar acaba por querer dizer que toda a criação - todo o formato, todo o suporte, toda a forma - pode ser a base
Fazendo intervir por entre a prosa gravuras e fotografias que acabam por ser elementos ilustrativos da narrativa com um sentido crítico - e um efeito cómico - que desafia ainda mais o entendimento restrito do que é a combinação de texto e imagem.
Porque, no final, além da importância da arte de intervenção (que chega a citar Che) aqui criada, creio que um dos fenómenos mais importantes é também esse elogio da banda desenhada de publicação barata e de produção industrial que, afinal de contas, teve uma importância vital na formação do homem e do escritor e se constituía, também, como uma forma de combate às ditaduras que o Tribunal Russell II criticava.
Uma obra que concilia banda desenhada e "grande arte" literária, que combina heróis vendidos nas bancas com escritores preservados em bibliotecas e que funde entretenimento ousado e informação técnica, mesmo que seja menor entre as várias do autor, acaba por ser maior no contexto da cidadania literata.
Esperemos que um dia destes os seus receios sobre a globalização deixem de ser matéria (sempre) actual e se possa ler o livro só pelo prazer da imaginação que envolveu. Sinal de que este combate de Fantomas já estava vencido.

Fantomas Contra os Vampiros Multinacionais (Julio Cortázar)
Editorial Teorema
Sem indicação da edição - Maio de 2003
100 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Julio Cortázar,
Teorema
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Se um escritor austríaco conseguiu ver...
Nilo, como Lágrimas na Chuva, acende a consciência de que já há muito tempo deve ter vindo a haver uma reflexão dos autores europeus sobre a evolução social no seu continente a que não se deu atenção suficiente nem atempada.
Em ambos os casos recorrem a elementos de que se poderão chamar ficção científica, embora Martin Amanhauser se tenha limitado a prever (ainda em 2001) um ano de 2010 em que a tecnologia deu pequenos mas significativos passos para lá do ponto (real) em que está agora.
Tirando esse pequeno falhanço sobre o ponto em que estão os telemóveis, a sua ficção de então parece a realidade de agora.
Uma doença espalha-se, acompanhada de paranói, pela Europa sem que as suas causas sejam bem conhecidas.
A crise económica transforma a Europa numa extensão do deserto, em que a aridez toma conta tanto dos elementos físicos como dos sociais.
Partidos extremistas (sobretudo de direita), antes minoritários, preparam-se para ter poder à medida que a União Europeia abafa a independência dos países.
Escândalos - sobretudo de índole sexual e, se possível, homossexual - são procurados e fabricados consoante as necessidades de controlar o poder ou distrair o povo.
Fechamos o livro e temos de perguntar como terá sido possível que um escritor austríaco tenha conseguido prever a realidade de 2010 com elevado acerto, nove anos antes, e outros, provavelmente com acesso a mais ou melhor informação, continuem hoje sem perceber a realidade.
Depois há logo outra pergunta que se segue a essa: Porque é que ninguém leu este livro a tempo?
(Deixo esta nota para explicar que o encontrei, pouco mais caro do que sendo dado, numa daquelas feiras de livros em saldo que se montam em qualquer lugar onde desaguem transportes públicos.)
À segunda pergunta posso arriscar uma resposta mais informada. A culpa será de um estilo austríaco cerebral de um modo (quase) severo - lembremos Elfriede Jelinek - para que seja facilmente partilhado pelos países "do Sul da Europa".
Embora o livro não se torne hermético para o leitor, até porque tem arrojos - o parágrafo constitúído pela reprodução de postais, por exemplo - que se desejaria terem ressurgido ao longo de todo o livro, tem uma rigidez de concepção que não se rende aos mecanismos que perdoam ao leitor a sua parte do trabalho.
A abordagem de Amanshauser à história é de tal maneira que todos os elementos estão ao mesmo nível, em vez de tentar explorar aqueles elementos que, de certeza, teriam cativado as pessoas.
Basta pensar em Millennium para perceber que Amanshauser tinha podido alcançado - e antecipado - igual sucesso.
A jovem protagonista, uma fotógrafa radicalmente careca que trocou os elogios à sua arte pelo dinheiro das fotografias para tablóides, que persegue o grande escândalo político do país enquanto o violento ex-namorado da irmã a persegue a ela, poderia ter tido o mesmo carisma e a mesma tendência para protagonizar thrillers que teve Lisbeth Salander.
O objectivo não era esse, quem lê este livro não se arrisca a distrair com esses detalhes, mas acaba a pensar sobre o essencial, o estado da União Europeia.
Mesmo com enorme atraso, a tal ponto que o futuro do livro já é o nosso passado, ler Nilo é ter de abrir a mente aos problemas que estão a nascer dos problemas que ficaram por resolver.

Nilo (Martin Amanshauser)
Teorema
Sem indicação da edição - Janeiro de 2003
204 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Martin Amanshauser,
Teorema
sábado, 29 de agosto de 2009
Literatura popular
Nick Hornby é um escritor de apurado sentido popular, que explora as mais convencionais e reconhecíveis situações com uma casualidade e uma facilidade que falam directamente ao homem comum que se esconde (ou nem tanto) por detrás do leitor exigente.
Esse sentido pop é o que lhe permite conquistar o seu público, pela identificação e por uma certa dose de humor, para depois lhes falar de temas nada menos do que perturbadores.
Temas que passam pelo suicídio, pela inadaptação, pela falta de concretização da vida ou pela destruição do conceito de família.
O apelo de Nick Hornby é então esse, de falar de temas tão comuns – acima de tudo, as relações – de forma tão desavergonhada, tão realista quanto mordaz, tão compreensiva quanto destrutiva.
Isso é algo que parte desde logo da escolha dos seus temas, temas que lhe são queridos a ele como a 80% – valor fabricado neste preciso momento! – da população ocidental. Futebol, música, romantismo. E com certa leveza de vocabulário, com uma predominância da oralidade, com um encadeamento escorreito, vai encobrindo a seriedade de muitos dos subtemas que lá se encontram.
Essa conjugação de factores acaba por ser também aquilo que torna as suas obras em material tão bom e fácil de se ver adaptado ao cinema.
Mas embora Era uma vez um rapaz seja um bom livro, não tem o mesmo encanto que Alta Fidelidade teve quando o li, esse livro que era ele próprio uma forma de canção pop sobre o amor e sobre a música, o que me impede de estar certo de voltar a reencontrar-me com Nick Hornby.
Esse sentido pop é o que lhe permite conquistar o seu público, pela identificação e por uma certa dose de humor, para depois lhes falar de temas nada menos do que perturbadores.
Temas que passam pelo suicídio, pela inadaptação, pela falta de concretização da vida ou pela destruição do conceito de família.
O apelo de Nick Hornby é então esse, de falar de temas tão comuns – acima de tudo, as relações – de forma tão desavergonhada, tão realista quanto mordaz, tão compreensiva quanto destrutiva.
Isso é algo que parte desde logo da escolha dos seus temas, temas que lhe são queridos a ele como a 80% – valor fabricado neste preciso momento! – da população ocidental. Futebol, música, romantismo. E com certa leveza de vocabulário, com uma predominância da oralidade, com um encadeamento escorreito, vai encobrindo a seriedade de muitos dos subtemas que lá se encontram.
Essa conjugação de factores acaba por ser também aquilo que torna as suas obras em material tão bom e fácil de se ver adaptado ao cinema.
Mas embora Era uma vez um rapaz seja um bom livro, não tem o mesmo encanto que Alta Fidelidade teve quando o li, esse livro que era ele próprio uma forma de canção pop sobre o amor e sobre a música, o que me impede de estar certo de voltar a reencontrar-me com Nick Hornby.
Era uma vez um rapaz (Nick Hornby)Teoremasem indicação da Edição - Maio de 2000
296 páginas
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