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sexta-feira, 9 de novembro de 2018
sábado, 2 de junho de 2018
segunda-feira, 17 de julho de 2017
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Literatura excretada
Um ditador narra num fluxo de consciência alucinada a sua visão de ter deitado cá para fora um país por inteiro.
Deitou cá para fora, assim mesmo, já que o ditador crê que tudo provém do seu corpo, sobretudo do sistema urinário, mas também por via do vómito ou do sémem.
Saem dele as maravilhas que levam o país - Africano, não nomeado, mas de suspeita fácil - para diante, ainda que a sua visão do local não deixe de ser comandada por uma noção de pequena escala, de aldeia fechada na redoma de um globo que agita na mão para ver cair os flocos das suas fantasias que criam vida.
Sem ele e para lá dele, nada daquilo pode existir. Ele é uma alma sacrificada à existência de todos, seja qual for a sua respectiva classe profissional.
A sua bondade é enorme, o seu dom criativo é inigualável. Mas ele não esconde o seu próprio prazer em mandar.
Tudo lhe está submisso, porque tudo lhe provém do falo. Tudo é urinado para fora do seu corpo e para dentro do país.
O ditador desfaz-se a pouco e pouco para que o país se encha. Por isso é que ele está doente, cancro da próstata.
Só que ele só admite desfazer-se por dentro enquanto o que vier cá para fora se lhe submeta. Ou melhor, se submeta ao seu falo, a sua obsessão permanente.
O falo é a extensão da criação e aquilo a partir do qual cria a ilusão de que se convence.
A sua visão do país é uma concepção que só existe na sua mente, um erro feito de arrogância e falta de discernimento. E do falo mais a sua produção!
O país tal como o conheceremos pela mente do ditador é um "falocia", parte falo parte falácia, uma afirmação falsa porque baseadas em todos os pressupostos errados e subjectivos.
A descrição que o ditador faz é um delírio, alimentado por uma aproximação do fim da vida, numa revisão do que ficou para trás que não deixa de ser alimentada a arrogância.
No seu excesso metafórico - se de metáfora se pode falar, quando não há qualquer subtileza na comparação da criação de tudo à constante excreção por via do falo - a descrição do ditador tem uma beleza que nos seduz.
O choque é brutal. A linguagem e a imagética venceram a constatação da violência da realidade ali contada, de um homem que domina tudo e todos pelo falo.
A submissão alheia descrita com arrogância e deleite está transformada numa saborosa cadência de palavras.
A consciência - se é que se pode chamar como tal o tipo de discurso que aqui ocorre - de um homem vil a convencer-nos a estar próximos do poder e a partilhar com ele a excitação das suas acções censuráveis.
O discurso do ditador é um feito, livre de perspectivas alternativas, livre de amarras a um realismo digno de indignação.
A onda em que se torna o discurso torna simples o envolvimento com o mesmo e complica a análise objectiva que dele é necessária ser feita.
Trata-se de uma armadilha, convincente, em que o leitor cede - como o povo, como o próprio ditador - ao chamariz do poder e da sua expressão escatológica, de arrogância fálica.

O Ocaso dos Pirilampos (Adriana Mixinge)
Guerra & Paz
1ª edição - Maio de 2014
200 páginas
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Adriana Mixinge,
Crítica,
Guerra e Paz
domingo, 25 de maio de 2014
Sob o género, outros temas
Quem queira estar atento descobrirá que há mais do que entretenimento despretensioso em Inferno no Vaticano.
A preocupação de Flávio Capuleto não é a criação de um thriller de temática religiosa que possa competir com os bestsellers que por aí pululam.
O seu objectivo com este livro é ponderar e convidar os leitores a fazê-lo. Que o utensílio para tal seja um género literário chamativo é um aproveitamente inteligente do panorama actual das livrarias.
Em torno de ouro mantido escondido pelo Vaticano o autor dá voz a duas correntes opostas sobre o que fazer com esses valores: usá-los para resolver os problemas da "Crise" ou guardá-lo para que a Igreja se mantenha.
A lita entre elas no plano físico, que envolve conspirações e assassinatos, vem companhada pela luta no plano intelectual à medida que o Papa é chamado a uma decisão.
Embora seja difícil acreditar que o Vaticano tenha pisos subterrâneos repletos de ouro, a existência de riquezas secretas - sem existência física - não é difícil de conceber no seio do Istituto per le Opere di Religione.
A discussão tem, por isso, razão de ser como tema mais premente em comparação com organizações que guardam a linhagem de Cristo ou psicopatas com agendas de poder.
Os lobbies em torno de um Papa disposto a mudar alguma coisa na actuação da institutição a que preside constituem matéria mais lógica para um thriller capaz de se explanar para uma preocupação externa ao domínio da ficção.
Contribui para ambos esses planos - embora possa haver algo de involuntário nisso - a forma como Flávio Capuleto tinge com imperfeições ambas as facções ao invés de reduzir a concepções de "Bem" e "Mal" aqueles que querem usar o tesouro para a causa social e aqueles que com ele querem preservar o estatuto do Vaticano, respectivamente.
Os primeiros pretendem salvar a Europa do flagelo do desemprego e pagar as dívidas soberanas excessivas. Como que esquecem o resto do mundo e defendem um continente onde o Catolicismo tem cada vez menos expressão mas que permanece o garante da influência política do Vaticano.
Os segundos vêem o mundo em crise e pretendem que a riqueza se mantenha intacta para a Igreja prevalecer como até aí. O poderio económico não é, contudo, em exclusivo para confortos pessoais, também para a preservação cultural da Igreja (que é do Mundo, igualmente) e para a continuação da caridade em larga escala como é feita na actualidade.
Sem vilões declarados o livro mostra o difícil que é atingir o meio termo exacto entre tais ideias.
Esta concepção bipolar da situação que ajuda a assentar na realidade o livro não é o que de mais interessante - literariamente - ele tem.
Esse título vai para uma outra situação de dicotomia: numa trama com tanto de moral a intensa sensualidade do livro é um desafio irreverente.
Não se tratam apenas das cenas mais memoráveis do livros, são os capítulos mais bem escritos - algo de importante quando há prémios literários de "mau sexo" - e à medida que o livro progride ocupam mais espaço do que a própria investigação - que por pouco não é resolvida fora das páginas do livro, demonstrando inequivocamente que não é esta que vem em primeiro plano nos intentos do autor.
Capítulos que constituem um outro "aviso" às instâncias religiosas, de que o corpo tem uma preponderância igual à da alma na vida moderna.

Inferno no Vaticano (Flávio Capuleto)
Guerra & Paz
1ª edição - Janeiro de 2014
280 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Flávio Capuleto,
Guerra e Paz
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Dilemas de sempre de um homem de hoje
Uma confissão prévia: a de que já há muito tempo que tenho apreço por Pedro Bidarra por conta da sua crónica - sempre inteligente e habitualmente literária - no Dinheiro Vivo.
Isso condicionou-me a leitura com um excesso de entusiasmo de que a crítica a Rolando Teixo poderia estar agora enferma, levando-me a ignorar os problemas do livro e a valorizar as suas froças contra quaisquer evidências.
Posso agradecer a Pedro Bidarra facilitar-me a vida tendo criado uma obra que merece elogios e que não tem fraquezas assinaláveis.
Assim, qualquer elogio despropositado no seu exagero passará desapercebido entre os justos elogios de grande medida.
Esta é uma história sobre o tempo presente, um tempo de crise. Mas é também uma obra sobre um tempo eterno, porque a crise interior não muda.
Essa outra crise que a económica tornou mais óbvia é a que tem de responder às perguntas "Quem sou eu afinal?", "Para que sirvo?", "A quem posso confiar-me?" ou "Que deixo eu ao mundo?".
O confronto de um homem com a sua própria insignificância só pode tornar-se mais radical quando o trabalho falha, porque essa tarefa que deve assegurar a sobrevivência foi transformada no elemento essencial para que alguém se define.
Ainda mais grave no caso de Rolando que o seu trabalho seja o de números sem materialização - e alheios! - o que significa que ele nunca terá nada para mostrar, nenhuma materialidade em que se refugiar.
Quando o trabalho falha Rolando encontra conforto apenas nas árvores do muitos jardins de Lisboa, porque as árvores se definem por se erguerem da Terra e dominarem placidamente sobre ela.
As árvores definem-se pelo que são sem mais nem porquê, sem precisarem de se justificar perante os outros.
As árvores não têm medo da pergunta "O que fazes agora?" porque as árvores fazem o mesmo de sempre. As árvores fazem aquilo que são desde o início: seres a caminharem para uma velhice que se confunde com a eternidade e que, assim, marcam pela sua presença gerações atrás de gerações em busca nem que seja apenas de uma sombra.
O mesmo que cada homem deveria estar a fazer, tornar-se uma alma preenchida. Desfrutar da vida e garantir que deixa o mínimo - boas memórias - a pelo menos uma geração: a dos seus filhos.
Rolando enfrenta essa divisão entre o homem que deve ser e o autómato que teve de ser até aí. No caso dele isso significa assumir-se como árvore ou continuar a dizer-se um assalariado quando não o é.
Transforma-se o seu dilema numa fábula. Uma história de renascimentos em jeito de monstruosidade, porque até nessa diferença se é mais humano do que fazendo parte da turba.
Por essa expressão do humano no extraordinário - aquilo que hoje talvez se adjective de surreal quando surge na literatura adulta - que vem desde o mais primitivo conto de fadas, o livro tem o poder de se instalar no coração do leitor, abafando aquela visão imediata de se tratar de uma leitura sobre a realidade lá fora.
Aqui a realidade quase não se faz sentir. O homem e os seus jardins vão fechando o círculo sobre a própria essência da existência.
O leitor envolve-se com Rolando nesse refúgio de interrogação pessoal e torna-se cúmplice do homem em conflito - se não se torna ou não é já esse homem!
Rolando Teixo não é um livro à procura de surpreender com um final radical. Não está dependente de truques para vincar espanto para permanecer na mente do leitor.
O seu final está evidente ao longo do livro, chamando o leitor a ver as pistas e a deixar que esta impossibilidade da realidade se instale antecipadamente como retrato dos dilemas de vida mais comuns e mais exigentes.
Resguardo-me, perante a confissão com que abri este texto e perante um afecto fácil que o livro criou usando como protagonista um bancário (profissão de sempre do meu pai), e evito ser eu a dizer que este é já o volume de "Grande Ficção" que a colecção nos promete.
Direi antes que estamos mesmo à porta do feito de encontrar a obra maior em formato breve que confirmará a realização desta colecção como um momento de genialidade no panorama editorial português.
Entretanto já coloquei o livro a passar de mão em mão, confiante do efeito poderoso que terá nos leitores neste preciso momento e ficando eu na expectativa de, quando o livro voltar a mim, poder já dizer com o distanciamento necessário que Rolando Teixo é um texto perdurável.

Rolando Teixo (Pedro Bidarra)
Guerra & Paz
1ª edição - Junho de 2013
152 páginas
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Crítica,
Guerra e Paz,
Pedro Bidarra
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Deliciosa descida aos infernos
No século XIX não havia necessidade destas etiquetas, mas este livro inserir-se-ia naquele que o cinema e a banda desenhada já tornaram numa tradição: a da dupla cómica.
Dois companheiros de viagem o mais antagónicos possível. Um é um bufão que usa todos os pretextos para levar o soldado a ceder à tentação. O outro é o justo que continua a acreditar numa bondade que lhe vão provando não existir (excepto em si mesmo).
A dupla eterna e clássica do humor, nascida logo quando se criou a divisão da consciência entre o diabo e o anjo cada um sentado no seu ombro.
Que a dupla percorra o caminho em conjunto aumenta a eficácia do texto, acentua a ironia dos versos contada de forma quase inocente.
E prova que já há séculos atrás haviam inventado as regras do humor que chega até aos dias de hoje, mas fazendo-o com qualidade para perdurar.
Sobretudo pela sapiência empregue nos versos, momentos cómicos de especial envergadura que nunca deixam de ser exactos no seu diagnóstico dos males particulares de cada tema.
A sua precisão é agora a mesma que era então, pois os seus alvos ou merecerão sempre a nossa desconfiança - advogados, políticos... - ou são mesmo eternos - os sete pecados capitais.
O texto é um aviso sobre o destino humano mas não deixaria de lado a hipótese que esta fosse uma invecção à rebeldia - afinal não importa quem se seja ou que se faça, no Inferno se acabará, portanto que se aproveitem as melhores hipóteses que a Terra tem.
Esta viagem pelas condenações do mundo poderia ser descrito como Gil Vicente servindo de guia ao Inferno de Dante.
Um delicioso livro, cujo humor é levado mais adiante pelas ilustrações de Lucy Pepper que acompanham o texto e têm um estilo que fazem lembrar o trabalho de Roland Fiddy.
Poderão bem ser a forma moderna que melhor acompanha o humor de António José da Silva, pois assim que surgem a abrir cada folheto do livro
Tudo isto escrito, creio que a melhor maneira de dar consciência de como este livro merece ser lido é deixar um exemplo dos epigramas que António José da Silva escreveu.
Escolho aquele que versa sobre os advogados, por nenhuma razão em particular senão o facto de ser muito bom:
Folheai sem descansar
os textos com desprazeres
pois vossos maus procederes
vos fizeram condenar.
Padecei a infernal ira,
pois fazíeis com maldade
ou da mentira verdade,
ou da verdade mentira.

O Diabinho da Mão Furada (António José da Silva)
Guerra & Paz
1ª edição - Novembro de 2010
144 páginas
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António José da Silva,
Crítica,
Guerra e Paz
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Mais perto
Muito embora o tema do livro de Ana Zanatti esteja um pouco para lá do que eu consideraria a minha zona de conforto enquanto leitor, devo reconhecer que ela criou uma situação ideal às suas intenções.
Nesta espécie de "Corações-Partidos Anónimos" (que, de anónimos, nada têm), a autora faz um retrato global dos muitos descasos e infortúnios que as pessoas causam a si mesmas e aos outros em nome do Amor.
E do que a sociedade ora vende como conceito ora exige como modelo do que seja esse Amor.
Para concretizar isso, Ana Zanatti cria uma dinâmica de grupo muito interessante cuja função primordial é permitir que cada personagem tenha sempre a sua personalidade colocada em questão a cada nova revelação.
As mais inesperadas reacções surgem dos personagens que já pareciam ter preenchido um modelo social dominante e identificável.
Revelações que poderiam soar a falso ou a lugar-comum ficcional funcionam exactamente porque ainda conseguem gerar surpresa.
Até porque o grupo, em que todas as personagens se colocam num mesmo grau de revelação de falhanço pessoal a partir do momento em que estão presentes, faz mais do que permitir a revelação dos personagens: transforma-os.
O grupo cria um ambiente protector, de falsa intimidade, que faz com que as personagens baixem as suas defesas por saberem que não se reencontrarão depois do fim daquela noite.
Mas leva também a falsidades - melhoramentos próprios quase inócuos, na verdade - em nome da impressão imediata que ali cada um dá de si mesmo.
Assim, nenhuma personagem se torna num estereótipo e é no conjunto que elas revelam imagens completas em que cada leitor - se assim o entender - consegue recompôr um retrato de si mesmo.
Um retrato que se faz sobretudo de atitudes e escolhas e não de experiências amorosas específicas.
Toda esta dinâmica de grupo vale-se, acima de tudo, da voz própria que Ana Zanatti consegue criar para cada personagem.
As suas personalidades distinguem-se e funcionam activando umas nas outras reacções cénicas inspiradas.
Os diálogos são a mais-valia desta pequena obra, dado que eles são a própria "acção" e a dinâmica em construção da história.
Creio que a experiência da escritora como actriz não será alheia a esse controlo dos personagens por via dos seus diálogos.
O que neles ela faz é conseguir um equilíbrio dramático do qual extrai um humor saudável e desopilante - do risco da telenovelização existente quando tanto se fala de Amor num livro só - que quase parece ter surgido naturalmente em vez de ser trabalhado por quem escreve.
Humor que só falha na cena final, curiosamente a única cena passada nos momentos em que o grupo já se desfez.
Aí Ana Zanatti parece ter forçado uma situação de coincidência - dentro do próprio grupo, mas também de algo mais abrangente a que chamarei Destino - para um efeito final de revolta brusca - e femininista, sem qualquer tipo de visão negativa do termo - que contraria o efeito do que veio antes.
Dentro do grupo as personagens libertaram-se numa transição pacífica por via do diálogo, aceitando-se e à sua situação porque os outros as aceitam primeiro.
Estamos um passo mais perto da "Grande Ficção" cuja busca assumimos - editora e leitores - com estas edições.
Boa parte do prazer está em acompanhar esse processo para lá se chegar e confessar que, pelo tamanho das propostas, há autores (neste caso, e até agora, autoras) que acedemos a ler em jeito de descoberta.

E onde é que está o amor? (Ana Zanatti)
Guerra & Paz
1ª edição - Maio de 2013
368 páginas
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Ana Zanatti,
Crítica,
Guerra e Paz
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Um bom primeiro exercício
Quando a Chuva Parar toruxe-me à memória Os Afogados pela proximidado do mecanismo que os faz funcionar: uma conversa tida no carro, em viagem.
Diferenças à parte, como o facto de aqui apenas uma das personagens estar em viagem e a sua interlocutora estar na outra ponta de um telemóvel.
O diálogo é a essência de ambos. Mas onde no outro livro a descontextualização era o fenómeno principal, isolando o diálogo para que as opiniões, a geografia e a realidade fossem de um qualquer espaço europeu.
Aqui, pelo contrário, o contexto - sobretudo do que veio antes - é o essencial, pois o diálogo é o método pelo qual as personagens avançam de um estado para o outro. A viagem ajuda a tornar essa ideia de percurso pessoal a materializar-se, a tornar-se fisicamente mensurável em distância, tempo e velocidade.
O diálogo é um processo de clarificação e análise. Nada de novo nessa ideia, apenas o contexto muda. A viagem de carro e o telemóvel (os elementos destacados como sendo usados pela primeira vez num romance) limitam-se a formar um contexto distinto de uma tarde numa esplanada ou de uma consulta num psicólogo.
A viagem afecta o diálogo - é expressa preocupação acerca do excesso de velocidade e dos perigos de falar ao telemóvel enquanto se conduz - mas não fica incorporado nele, nem o transforma.
Não se gera a sensação de que o diálogo se altera com as transformações do caminho (difíceis, é verdade, visto que a viagem é quase toda por auto-estrada) ou com as particularidades do método da viagem. Afinal, há duas crianças no banco de trás, mas nenhuma chega sequer a parecer que vai acordar e fazer soar a sua voz entre a das duas amigas.
O diálogo tem um tom que não se altera. Depende apenas de quem o está a ter porque não chegam a existir circustâncias externas. Os elementos novos deste romance parecem contribuir, involuntariamente, para um encerramento do diálogo naquela pequena via de comunicação oral entre as duas amigas. Se estivessem ambas fechadas no carro, a simbologia do que escrevo seria ainda mais óbvia.
Não que o diálogo não tenha o seu interesse, tanto que se lê à mesma velocidade excessiva a que o carro vai. Até porque surge como um desperdiçado bom ponto de partida para marcar o tempo do romance, afectando-o da velocidade do carro e dos momentos de paragem - um reabastecimento de gasolina com a impaciência a nascer do outro lado da linha...
Expedito e realista, é uma expressão sincera daquilo em que se tornou o "amar português", de marialvas meninos da mamã e de discretas senhoras impúdicas.
Capta a forma moderna do diálogo sem deixar de atentar em detalhes que o adjectivem de literário em vez de se aproximar de uma mera transcrição.
Não sei se as referências perdurarão no tempo, mas no futuro poderá ser capaz de funcionar como registo "limpo" de outros tempos.
Não cumpre ainda com o epíteto de "Grande Ficção" que a Guerra & Paz deu à colecção, mas é um interessante exercício.
Espera-se que os próximos funcionem ainda melhor nesta brevidade imposta, pois as limitações sempre se superaram pelo aguçar da criatividade.

Quando a Chuva Parar (Joana Pereira da Silva)
Guerra & Paz
1ª edição - Abril de 2013
96 páginas
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Crítica,
Guerra e Paz,
Joana Pereira da Silva
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Um divertimento
No texto Utilidade de uma Literatura Erótica, transcrito de uma conferência dada por Boris Vian, esta defende as qualidades dos textos desse género que lhes permitiram permanecer na exigente memória dos amantes da literatura.
As qualidades não eróticas dos mesmos, como a filosofia nos textos de Marquês de Sade, contrariando a expectativa do que deveria ser elogiado nesses textos.
Boris Vian reforça a ideia de que um texto erótico, como qualquer outro material erótico em qualquer suporte, tem uma funcionalidade que passa pela excitação do leitor.
A qualidade literária é questão de somenos para quem pretende escrever dentro desse género (e apetece dizê-lo olhando para o que por estes dias é publicado em catadupa e vende com fartura) que tem antes de mais de dar ao leitor o que o faça palpitar, talvez cumprindo um sistema que invento para o efeito: uma cena de sexo em capítulos intercalados e ameças cada vez menos veladas de tais cenas nos restantes.
Boris Vian faz, então, a defesa dos textos de género que escapam ao género, esquecendo várias vezes a utilidade que deveria estar a abordar.
Parece com isso estar a lançar a provocação para os seus próprios textos pornográficos que leremos de seguida.
Nesse primeiro texto mostra que podem existir textos de elevação literária e qualidade estética que são classificados como eróticos para depois se lançar em tentativas próprias, com momentos bem sucedidos mas raramente com a utilidade em mente.
Textos em que ele joga com o humor, com os subentendidos, com a réplica literata, mas sem grau maior de seriedade.
Como se escrever textos pornográficos fosse uma provocação de um autor sério que se pode - e deve - permitir tudo em nome da liberdade de criação.
E em nome da transgressão final, de não ser sempre sério, de permitir a si próprio - contra a opinião pública ou crítica - tirar prazer do seu talento e do ofício de escritor, deleitando-se com o que raramente é tido como material para escritores de primeira linha.
Do extremamente conseguido (e bem traduzido) divertimento em forma de poema que é A Marcha do Pepino ao momento maior de entre estes textos que é Drencula (leia-se com a pronúncia francesa para perceber bem o seu sentido), não haja dúvidas que todo o potencial para o género erótico sem uma ponta de seriedade estava em Boris Vian.
Mas o seu divertimento maior deverá ter sido mostrar ao mundo um material erótico que alimentasse uma polémica que para ele esteve sempre resolvida.

Escritos Pornográficos (Boris Vian)
Guerra & Paz
1ª edição - Setembro de 2010
98 páginas
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terça-feira, 8 de maio de 2012
Uma crítica insuficiente
Entre as mais difíceis e mais admiradas críticas que terei de escrever neste blogue, esta estará sempre contabilizada.
As características com que Álvaro Cunqueiro impregna o seu trabalho são tão ricas que um texto breve neste blogue não conseguir
O Ano do Cometa é um livro cuja revelação tem um poder que comparo facilmente à primeira leitura de Italo Calvino.
Álvaro Cunqueiro, como o escritor italiano, não suprimia nenhum traço de imaginação ou influência de Lendas. Aceitam que tudo o que imaginam é parte integrante da sua própria realidade e, como tal, material passível de ser usado na criação.
Este seu trabalho cai numa categoria que só pode ser designada como realismo pessoal, lá cabendo tudo o que lhe é natural pensar e que para a maioria dos outros - seus leitores, se tiverem sorte e ensejo - é um prodígio de invenção que não conseguem conceber que eles próprios venham a alcançar.
Esse tal realismo pessoal, com a História e os Mitos revistos à luz da afinidade de Álvaro Cunqueiro, obriga a que as regras sejam recriadas à medida dos desejos do autor.
Desde logo quebrando a limitação que o friso cronológico tende a impôr sobre a narrativa. Aqui o tempo da aventura tanto desemboca no tecnicolor do século XX como aceita que São Jorge cavalgue por ele dentro.
Trata-se da simples percepção de que os Mitos são intemporais e que para que eles valham na narrativa é necessário recusar a precisão do romance (de aventuras) histórico. E, dessa forma, abraçar o jogo metaliterário que procura o seu enredamento na expressão de que a própria história é a metáfora de como ela foi criada.
Não há limites para os significados semi-ocultos que esta aventura mostra - muito menos para os que deixa ainda por mostrar - de como ela própria é o reflexo das dúvidas e opções do seu criador.
Cunqueiro começa o livro dizendo O autor tinha escrito um prólogo para este romance. Depois escreveu outro. Como não conseguiu saber qual dos dois era o mais apropriado, publica ambos. e com tal demonstrando a sua reflexão mais premente sobre o acto de narrar. A sua pergunta é tanto sobre o "como" como sobre o "porquê" de deixar de fora mil vozes em favor de uma só. Por isso os seus narradores quase se degladiam pela posse de um capítulo ou até mesmo de um só parágrafo.
E falando de vozes falo, também, de temas. Cunqueiro põe em evidência a loucura de contar apenas uma das suas histórias para deixar todas as outras desaparecerem do texto.
Tudo o que povoa a mente de Cunqueiro é igualmente interessante, certamente mais interessante ainda comunicando entre si.
Ele responde a si mesmo negando-se o direito de fazer a separação quando esses temas constituem o núcleo de fios da personalidade do autor e das suas criações literárias que os traduzem.
Se num determinado momento tem de sacrificar o número de palavras para que consiga terminar o livro - contar é uma arte eterna para o escritor - e, assim, assentar apenas parte de todas essas histórias, o próprio autor/narrador avisa para essa falha, dando-nos a consciência do que podemos tentar imaginar com ele.
Lê-se, logo no início do primeiro dos dois prefácios anunciados anteriormente, Esta história devia começar como as velhas crónicas, com o relato da criação do Mundo. Mas começa com morte de um homem. e estamos cientes de que o autor confia em nós para saltar as mil páginas que seriam a introdução a esta aventura ao mesmo tempo que inicia corajosamente o complexo jogo de metaliteratura.
Tal como Paulos procura encontrar para os outros os sinais reais que confirmem a verdade dos seus sonhos, assim Cunqueiro procura traduzir em palavras o poder da sua imaginação.
Talvez nunca consiga expressar-se com a precisão do que vê nos seus sonhos, mas mesmo assim interpela o leitor e interpela a própria noção de romance de uma forma que merece ser titulada como sendo de génio!
Até porque muitas vezes neste texto usei a palavra "aventura", sem medos e com toda a convicção de que é um rico entretenimento desmascarado como uma reflexão intelectual sobre os limites da arte narrativa.
Sabendo que aqui não atinjo a riqueza do livro de que vim falar, apenas posso esperar que este texto tenha despertado o interesse dos seus poucos leitores e que estes partam à descoberta de um sonhador que não se deve deixar morrer pela via cruel do desconhecimento!

O Ano do Cometa (Álvaro Cunqueiro)
Guerra & Paz
1ª edição - Novembro de 2010
208 páginas
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Álvaro Cunqueiro,
Crítica,
Guerra e Paz
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Criação de um mundo onde até cabe a nossa imaginação
Revendo a crítica a O Caso Jane Eyre não sinto que tenha feito justiça ao trabalho de Jasper Fforde. Isso ou não senti desde logo a extensão da criatividade do autor.
O mundo que ele criou é tão extravagante que será sempre coerente, porque tudo o que lhe ocorre cabe nos interstícios do mistério dos vários departamentos das Operações Especiais cuja função está ainda por revelar ou das combinações retro-futurísticas do ano de 1985 do livro em que é possível viajar tanto através do núcleo do planeta como através do Tempo.
As ideias criadas pelo autor dariam azo a, de forma isolada, sustentarem outros livros, de ficção científica, policial, sátira revisionista ou banda desenhada de super-heróis.
E criar é um verbo merecido pois é raro haver algumas dessa ideias que se sintam serem repescadas de outros meios, mesmo para eles remetendo.
Fforde, em vez de tentar fazer render essas ideias e sustentar uma carreira multi-facetada decidiu-se a criar um inacabável multiverso onde todos os seus disparates - pedaços de humor descabido e surrealista - podem ir ganhando espaço e diversificando um texto que, desde logo, tinha uma premissa extraordinária, sobretudo para aficcionados leitores.
Esta detective literária que vai conseguindo entrar nos livros, desta vez, descobre que faz, também, parte da Jurisficção, um departamento meta-literário cujos mistérios de maior monta ainda estão por revelar.
Este conjunto de agentes que são também personagens de ficção são uma das partes substanciais do livro, mas não a única e até demoram bastante tempo a entrar em cena.
São, no entanto, uma criação que poderia dar origem a uma outra inesgotável série de livros dedicados às acções secretas passadas no interior dos milhões de livros publicados (ou por publicar) ao longo da História.
Não parece que Fforde o vá fazer pois os seus propósitos são os de criar literatura agradável ao mesmo tempo que se relaciona com um público mais experiente - sem perder descaramento de tentar listar os dez clássicos mais chatos de sempre em que pode ofender algumas sensibilidades canónicas.
Por mais ideias que Fforde tenha, por mais géneros que misture, não deixe de ser um dedicado escritor que se foca nos jogos de palavras, nas coincidências linguísticas, nos jogos com as estruturas do livro e nas referências literárias.
Um dos melhores episódios do livro é aquele em que Quinta-Feira Seguinte tem de enfrentar o Tribunal d'O Processo conseguindo dar a volta ao juíz até que o advogado de acusação é lançado para os calabouços. Tão divertido de seguir quanto a comunicação das personagens da Jurisficção através das notas de rodapé, uma sedutora novidade que adiciona funções a um utensílio tão comum e pouco pensado da lituratura e que aqui transforma a dinâmica da própria leitura.
Se há uma certa erudição neste género de invenções ficcionais, não deixa o livro de proporcionar uma leitura veloz e animada para outros públicos.
Para que sirva de exemplo deixo aquela que é para mim a mais brilhante das ideias deste livros, de uma gritante simplicidade e de uma gritante genialidade. Trata-se do entroposcópio, nada mais que um frasco de compota meio por meio de arroz e lentilhas que, quando as coincidências surgem em quantidades demasiado grandes, permite a Quinta-Feira avaliar o risco de vida que corre. Basta agitá-lo e se o arroz e as lentilhas se organizarem (em vez de se misturarem) então o caso é sério! Simples e por isso tão curioso. Absurdo e por isso tão divertido.
O simples vem de mão dada com o extraordinário e ainda que Fforde não arrisque, como Douglas Adams, dar-nos a resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais, dá mesmo assim uma nova visão da criação da vida na Terra com um delicioso sabor a morango. Mais exactamente da criação da vida naquela Terra em particular, uma de muitas para as quais a protagonista ainda poderá vir a saltar com inoportunas consequências que são desvendadas ligeiramente e que podemos dedicar-nos a imaginar sem que nunca tenham de ser exploradas a fundo.
Em parte somos todos criadores a par com Jasper Fforde que nos lega um universo onde as dúvidas sao tão produtivas quanto as revelações.
Não posso terminar sem dar nota da tradução. Uma tradução conscienciosa e eficaz mas à qual falta a noção do uso corrente e corriqueiro da língua inglesa.
Apesar de todo o humor do livro, é quase certo que no original este será substancialmente mais eficaz e mais diversificado.
Alguns exemplos gritantes dessa falha surgem ao longo do livro, tornado as expressões impraticáveis ou deixando passar jogos fonéticos, mesmo que intraduzíveis, sem qualquer referência de rodapé.
Do primeiro caso destaco na página 254 a frase o que me dava a sensação de estar a ler desenhos animados às escondidas durante as aulas na qual "cartoons" deveria ter dado lugar a tiras (dominicais).
Do segundo caso deixo dois exemplos por ser o que mais afecta a riqueza do texto.
Quando é que ele vai fazer-te perguntas sobre Jack Schitt? (página 104) é uma tirada de duplo sentido em que há um desprezo para com a personagem que fica perdido sem o entendimento que Jack Schitt é foneticamente idêntico a "jack shit", ou seja, "merda nenhuma".
Mais tarde (página 274) o avaliador da detective avalia-a com um F. Não por acaso o seu nome é Flanker, a uma letra apenas de "flunker": aquele que reprova.
Possivelmente o público que, por si só, não consegue penetrar nos resquícios de inglês do texto e compreender este humor nada tem a perder. Mas a tradução só ficava a ganhar com mais "esperteza de rua".
Em sentido inverso não posso deixar de destacar a sedutora capa, desenhada por Ricardo Cabral, de quem já falei aqui com grande admiração.

Perdida num Bom Livro (Jasper Fforde)
Guerra & Paz
1ª edição - Janeiro de 2011
340 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Guerra e Paz,
Jasper Fforde
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Possibilidades dos Clássicos
O universo criado neste livro talvez fosse mais esperado numa obra de banda desenhada ou numa série.
Ficção Científica num mundo alguns anos atrás do nosso, Fantasia que brinca com os tempos antigos.
A conjugação permite uma enorme variedade de floreados de imaginação que mexem com a consistência do plano temporal, que tornam as artes como força motriz de violência e que trazem à baila manuscritos preciosos para o interior dos quais se pode viajar.
Inventividade bastante e liberdade total, um mundo sem regras, em geral semelhante ao nosso mas, para muitos leitores, um grau acima do interesse que lhe atribuímos.
Basta atentar no facto da plenitude deste universo alternativo ao nosso nunca vir a ser conhecida, pois a todos os momentos há um polícia do tempo determinado a corrigir a História pelas próprias mãos, para perceber como as possibilidades serão ilimitadas.
O ambiente de aventura ganha ainda mais pelo facto de a detective Quinta-Feira Seguinte ter contra si um vilão de antologia, não só pelos poderes, mas por ser a encarnação absoluta e maquiavélica de (alguma da) filosofia de Nietzsche.
Podia, até mesmo devia, tratar-se de banda desenhada, mas resulta muito bem em livro porque Jasper Fforde consegue agregar tudo num divertimento muito honesto e muito eficaz.
Divertimento que na sua forma de "brincar" com a literatura tem méritos inesperados ao colocar em perspectiva o endeusamento que se dá à fidelidade dos textos e à origem dos seus autores.
O texto de A Paixão de Jane Eyre sai incólume do livro ainda que antes não o estivesse, tal como a verdadeira identidade de Shakespeare até pode ser aquela que oficialmente se espera mas a origem dos seus textos ser baralhada pela imaginação do autor.
O reconhecimento retorcido da literatura mais clássica num livro "modernaço" é uma forma inteligente de mexer à vontade com os preconceitos que os leitores têm com os legados da literatura sendo-lhes infiel sem os desrespeitar.
A investigadora literária pode ser uma excelente companhia para rever textos de que muito gostamos e para nos divertirmos com eles - e as suas possibilidades - sem lamentos nem insultos.
Ficção Científica num mundo alguns anos atrás do nosso, Fantasia que brinca com os tempos antigos.
A conjugação permite uma enorme variedade de floreados de imaginação que mexem com a consistência do plano temporal, que tornam as artes como força motriz de violência e que trazem à baila manuscritos preciosos para o interior dos quais se pode viajar.
Inventividade bastante e liberdade total, um mundo sem regras, em geral semelhante ao nosso mas, para muitos leitores, um grau acima do interesse que lhe atribuímos.
Basta atentar no facto da plenitude deste universo alternativo ao nosso nunca vir a ser conhecida, pois a todos os momentos há um polícia do tempo determinado a corrigir a História pelas próprias mãos, para perceber como as possibilidades serão ilimitadas.
O ambiente de aventura ganha ainda mais pelo facto de a detective Quinta-Feira Seguinte ter contra si um vilão de antologia, não só pelos poderes, mas por ser a encarnação absoluta e maquiavélica de (alguma da) filosofia de Nietzsche.
Podia, até mesmo devia, tratar-se de banda desenhada, mas resulta muito bem em livro porque Jasper Fforde consegue agregar tudo num divertimento muito honesto e muito eficaz.
Divertimento que na sua forma de "brincar" com a literatura tem méritos inesperados ao colocar em perspectiva o endeusamento que se dá à fidelidade dos textos e à origem dos seus autores.
O texto de A Paixão de Jane Eyre sai incólume do livro ainda que antes não o estivesse, tal como a verdadeira identidade de Shakespeare até pode ser aquela que oficialmente se espera mas a origem dos seus textos ser baralhada pela imaginação do autor.
O reconhecimento retorcido da literatura mais clássica num livro "modernaço" é uma forma inteligente de mexer à vontade com os preconceitos que os leitores têm com os legados da literatura sendo-lhes infiel sem os desrespeitar.
A investigadora literária pode ser uma excelente companhia para rever textos de que muito gostamos e para nos divertirmos com eles - e as suas possibilidades - sem lamentos nem insultos.

O Caso Jane Eyre (Jasper Fforde)Guerra e Paz
1ª edição - Junho de 2010
392 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Guerra e Paz,
Jasper Fforde
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