Nada tenho contra Bernardo Rodo, mas há livros que nos deixam desconfiados sem que tenhamos sequer lido uma página.
Chamem-lhe mau feitio, se quiserem, mas ao encarar o capítulo "zero" de A Pátria dos Loucos, não pude deixar de julgar essa numaração como um fútil exercício de modernidade.
Afinal de contas, se o prólogo passa a tratar-se de um capítulo "zero", o epílogo deverá passar a ser o capítulo 25+?
Esse seu capítulo "zero" começa assim:
Estava então o velho refastelado no cadeirão da morte a ruminar memórias, dessas que se confundem com as dos outros e com as próprias inventadas, quando o foram interromper com a frase maldita que não deixa indiferente de irritação um homem distraído com os seus pensamentos: "Está na hora, paizinho". O esforço implicado naquele aviso era de tal ordem complexo que não restou ao velho outro sentido senão o de ignorá-lo e retomar o seu exercício da saudade. Mas a voz parecia disposta a estragar-lhe a viagem e outra vez veio à carga: "Paizinho, está na hora". Não podia ele imaginar de que hora se tratava, apesar de a rotina lhe ter ensinado os procedimentos correctos de calar semelhante insistência. Levantou-se com esforço do cadeirão, um pequeno balanço de ranger os ossos, depois o equilíbrio lento com a mão apoiada no braço do assento, e dirigiu-se à retrete para esvaziar a bexiga que há duas horas o reclamava, porém sem a urgência merecida para se fazer valer.
Ao ler-se tudo isto, há algo que parece sempre destoar, fora de tom.
Há algo que soa mal num parágrafo assim. Se em alguns pontos há erros específicos que se podem apontar, noutros é apenas uma sensação permanente e indelével.
Depois do capítulo "zero" o caso deixa de ser tão acentuado, mas é persistente o recurso a mais um adjectivo, a mais uma expressão, a mais uma (pretensamente) poética metáfora que vão sistematicamente quebrando o ritmo de leitura.
Bernardo Rodo não tem atenção à essência da frase, à composição sonora daquilo que se está a ler.
Não resisti para lá das 30 páginas de um livro que, sinceramente, não dá gosto ler, apesar de se iniciar num cenário alentejano que teria adorado desvendar.
Chamem-lhe mau feitio, se quiserem, mas ao encarar o capítulo "zero" de A Pátria dos Loucos, não pude deixar de julgar essa numaração como um fútil exercício de modernidade.
Afinal de contas, se o prólogo passa a tratar-se de um capítulo "zero", o epílogo deverá passar a ser o capítulo 25+?
Esse seu capítulo "zero" começa assim:
Estava então o velho refastelado no cadeirão da morte a ruminar memórias, dessas que se confundem com as dos outros e com as próprias inventadas, quando o foram interromper com a frase maldita que não deixa indiferente de irritação um homem distraído com os seus pensamentos: "Está na hora, paizinho". O esforço implicado naquele aviso era de tal ordem complexo que não restou ao velho outro sentido senão o de ignorá-lo e retomar o seu exercício da saudade. Mas a voz parecia disposta a estragar-lhe a viagem e outra vez veio à carga: "Paizinho, está na hora". Não podia ele imaginar de que hora se tratava, apesar de a rotina lhe ter ensinado os procedimentos correctos de calar semelhante insistência. Levantou-se com esforço do cadeirão, um pequeno balanço de ranger os ossos, depois o equilíbrio lento com a mão apoiada no braço do assento, e dirigiu-se à retrete para esvaziar a bexiga que há duas horas o reclamava, porém sem a urgência merecida para se fazer valer.
Ao ler-se tudo isto, há algo que parece sempre destoar, fora de tom.
Há algo que soa mal num parágrafo assim. Se em alguns pontos há erros específicos que se podem apontar, noutros é apenas uma sensação permanente e indelével.
Depois do capítulo "zero" o caso deixa de ser tão acentuado, mas é persistente o recurso a mais um adjectivo, a mais uma expressão, a mais uma (pretensamente) poética metáfora que vão sistematicamente quebrando o ritmo de leitura.
Bernardo Rodo não tem atenção à essência da frase, à composição sonora daquilo que se está a ler.
Não resisti para lá das 30 páginas de um livro que, sinceramente, não dá gosto ler, apesar de se iniciar num cenário alentejano que teria adorado desvendar.
A Pátria dos Loucos (Bernardo Rodo)
Editorial Presença
1ª Edição - Março de 2009
240 páginas