Mostrar mensagens com a etiqueta Rosa Montero. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rosa Montero. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de abril de 2013

Ser grande é apontar aos grandes

Olho para trás, para Agosto de 2009, e espanto-me de ter escrito tão pouco acerca de um livro que constituiu uma das mais surpreendentes descobertas de um autor que fazia em algum tempo.
No entanto, por pior que a transmitisse, já lá estava a ideia principal que agora tenho de voltar a destacar, a da enorme coragem de Rosa Montero ao escrever na herança directa de grandes nomes.
Coragem porque esta acção de assumir frontalmente a linhagem de um outro autor não costuma acontecer porque permanecem as ideias de que o resultado será sempre um falhanço - em comparação com... - e porque atestará das intenções arrogantes do autor - querendo fazer-se notar como...
Em ambos os casos o medo surge por antecipação nos autores e vamos vendo obras que deveriam transformar a literatura - como a banda desenhada, o cinema, etc... - como que esquecidas a cada nova criação, embora influentes a título pessoal.
Rosa Montero, pelo contrário, cria novas obras dentro de uma tradição excepcional. E se não é possível arriscar mais do que com a obra de Cervantes - ou não fosse o destacadíssimo primeiro lugar na lista dos cem melhores romances (tal como votados por escritores de todo o mundo) em que não era atribuída uma classificação - atirar-se ao universo de Philip K. Dick e a sua leitura visual (mas não só) feita por Ridley Scott não andará longe do mesmo risco dentro do género da Ficção Científica.
Quem não reconhecer o título do livro como o título de uma icónica cena de Blade Runner, reconhecerá logo nas primeiras páginas os replicantes.
A autora não se limita a integrar ou adaptar um universo alheio à sua sensibilidade. Neste caso, ainda mais do que com História do Rei Transparente, Rosa Montero transforma a herança literária para que fale de temas que lhe são essenciais. Com aquele livro era a condição feminina no mundo (tanto antigo como presente). Com este é a sua Espanha e a (eventualmente) sua Europa, para onde a acção passou agora depois da Los Angeles de 2019 (sobretudo esta metrópole inventada que se reflecte nas descrições de Madrid).
Dois espaços geográficos e políticos onde as forças políticas radicais conseguem cada vez mais usar as circunstâncias para se exibirem e ganharem apoiantes, onde as maquinações secretas se multiplicam, onde os verdadeiros decisores permanecem na sombra.
Mas este texto não se limita a lançar um aviso sobre o nosso presente. Na sua distância temporal aproveita para fazer a crítica de um futuro que está a formar-se para breve.
Um futuro onde a preservação da memória se arrisca a ser corrompida de forma muito mais evidente. Se antes os vencedores escreviam a História tal como lhes interessava, agora qualquer um escreve a História como lhe interessa. E tal versão anónima e incorrecta persiste porque cada vez menos exigem verificação.
Os capítulos em formato wikipédico, mais do que maneira simples de criar uma mitologia para o universo, servem para evidenciar as questões de edição que os textos sofrem quando estão abertos à edição online pouco criteriosa.
Não se trata apenas de falar das polémicas com erros óbvios que levaram a The Free Encyclopedia a criar um registo de alterações a cada artigo (embora tal continue a ser feito nos bastidores e, por isso, invisível a muitos).
Trata-se, sobretudo, de reflectir em como é possível atacar - uma ideologia, uma pessoa, uma nação - por alteração intencional da realidade conhecida. E de como isso será mais perigoso e difícil de contrariar quando for feito sobre o Passado e não sobre o Presente.
A escassez de elementos históricos preservados em formato menos susceptível a manipulações pode levar a que, no futuro, se denigra o registo histórico para atacar a realidade naquele momento.
Rosa Montero está, dessa forma, a defender o seu próprio meio, o texto impresso, contra o monopólio do texto imaterial.
Se estes são os factores singulares de Rosa Montero enquanto autora de Ficção Científica, essencial também é falar dos temas que a unem às bases deste seu livro. Se a sua filiação ao trabalho de Philip K. Dick fosse apenas a existência de replicantes então ela seria demasiado ténue (até porque eles só foram denominados assim pelo filme).
A abordagem às questões sobre o que define "Ser Humano" repercutem-se no trabalho de Montero, em certos momentos amplificadas.
Não se trata já de discernir entre memórias verdadeiras ou implantadas, pois todos os replicantes sabem que as suas memórias são falsas - e nem assim conseguem desprender-se delas, ponto essencial para o desenvolvimento da história do livro.
Trata-se daquele traço tão destacado do animal humano: ser o único consciente da sua morte.
Neste futuro, essa consciência afecta antes os replicantes, limitados a uma década de vida antes de uma morte agonizantes. Os humanos retocam-se e prolongam as suas vidas, tentando levar o limite da imortalidade a mesma vaidade do início do século XXI.
A questão em aberto é agora mais abstracta do que prática: sempre que se descobre um traço que distinga o ser humano, se ele o conseguir superar - ou replicar ou anular - , há que repensar a definição de ser humano ou há que inventar nova designação para ele?
Neste aspecto é uma continuação do universo especulativo dos andróides - que não começa nem acaba com Philip K. Dick - de bastante interesse.
Claro que o livro tem elementos de Ficção Científica menos satisfatórios, sobretudo por serem detalhes referidos mas que não são depois tratados mais amplamente. A sua falta de influência no universo ficcional deveria inibir o seu surgimento.
São pecados insignificantes contra a qualidade do livro, sobretudo por funcionar muito bem no estilo noir que já servia a melhor das versões de Blade Runner e que prova ser um meio equilibrado para agregar as reflexões mais amplas com a necessidade criativa de um mundo (quase) de raíz.
No fundamental, trata-se de um livro de elevada qualidade, que só o foi porque a sua autora se apoiou nos ombros de outros gigantes (Newton não se importará com a adaptação da sua frase). Espera-se que outros se venham a apoiar nos ombros dela - e de Philip K. Dick por acréscimo - para escreverem outras obras de qualidade no futuro... não muito distante!


Lágrimas na Chuva (Rosa Montero)
Porto Editora
1ª edição - Janeiro de 2012
360 páginas

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O que mais se poderá pedir a um romance?

Adiei durante anos a leitura de História do Rei Transparente.
Hoje pergunto-me porquê, depois de ter encontrado um livro de aventuras que dignamente evoca as lendas do Rei Artur ou Don Quijote de la Mancha.
Um romance escrito com uma riqueza surpreendente, com uma imaginação brilhantemente disposta, com uma fonte história riquíssima (há que agradecer à autora o posfácio onde o evidencia) e com uma originalidade que não é menos do que tremenda.
Um romance que parte da simples condição de uma mulher camponesa para atravessar o mundo, em crescendo não só das possibilidades e das aventuras mas também do conhecimento e da vivência, num engrandecimento da sua vida como da sua crença em si mesma e na humanidade.
Um romance de aventuras que faz o elogio da mulher, da compaixão, da aceitação mútua e do pensamento livre.
Um romance que, por isso mesmo, nos fala do presente como nos fala de um período que nos é, em geral, desconhecido, um período ainda no século XII que pronunciava já a revolução que se traçou no Renascimento.
Um romance que, intemporal e épico, poderá ficar como uma das grandes obras da Literatura.
O que mais se poderá pedir a um romance?



















História do Rei Transparente (Rosa Montero)
Edições Asa
1ª Edição - Outubro de 2006
448 páginas