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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Por pedaços

O meu conselho viria sempre tarde pois quem comprou Um Pai de Filme certamente que não resistiu ao belo impulso que é comprar livros numa livraria que parece esperar por nós.
(Isso e, provavelmente, a capa catita a que voltarei numa outra ocasião.)
Esta é a história de uma personagem que se cruza com a História do Chile à medida que ela vai sendo feita, até se aproximar do momento em que desembocará na eleição de Salvador Allende.
A História é importante mas nunca será tão sedutora como a história. À que leva o H faltam-lhe as personagens únicas e sedutoras.
Pugilistas, crianças fascinadas pelas heroínas de cinema ou homens que se guardam a vida toda para conduzirem uma Indian são a alma de um Chile que haveria de sofrer muito mas que ainda não tinha consciência de como já se lutava para tirar algum prazer da vida em muitos lugarejos.
O sonho de partir para Nova Iorque é comum a todos os que permanecem porque nada parece mais extraordinário do que a grandeza do Empire State Building.
Transforma-se a pequena cidade do Chile numa versão possível da grande cidade dos EUA para se ir vivendo sem lembrar o declínio inevitável ao qual Madalena (a rapariga do título) é a figura mais condenada e inconformada.
Dito isto, o resumo de uma visão forte do que foi o Chile, não posso deixar de confessar que os livros de Skármeta (a pequena amostra a que tive acesso, entenda-se) têm belos momentos, blocos de texto que chegam mesmo a ser deliciosos.
Só que acabam por ser sempre melhor recordados por segmentos desgarrados do que como estruturas sólidas uníssonas da primeira à última sílaba.
Queria realmente ter gostado mais de ler Skármeta, entender o porquê de há alguns anos ter sido considerado o melhor escritor estrangeiro tanto em Portugal como em França. Não consegui, mas quem sabe se perante mais um empréstimo não acabo por voltar a tentar?

Uma questão importante a assinalar é a falta de revisão da tradução do livro.
O texto ficou pejado de frases mal construídas e de palavras intrometidas no sentido da leitura.
Não é incomum ao longo do livro ter de quebrar o ritmo de leitura para reler (mais do que uma vez) uma frase para conseguir arrancar-lhe à força o seu verdadeiro sentido.
Com a Teorema agora inserida num grande grupo editorial, não basta remodelar o design da capa e relançar a mesma tradução vários anos depois.
Espera-se, pelo menos, um cuidado apurado na reedição. Ou, mais ainda, espera-se uma segunda edição, acrescida de material que contextualize o livro, ou mesmo de textos complementares.
Por outro lado, isto só reforça o que escrevi no final do ano passado, que atirando às pessoas o mesmo livro, até aí ignorado, com uma (ligieramente) nova capa e elas tratam logo de o comprar...


















A Rapariga do Trombone (Antonio Skármeta)
Teorema
2ª edição - Setembro de 2010
312 páginas

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Amostra em fuga

A pessoa que me emprestou o livro disse-me que o tinha escolhida com a intenção de o usar como amostra para decidir se compraria a obra mais conhecida do autor, O Carteiro de Pablo Neruda.
Com base neste livro, dir-lhe-ia para optar por não comprar o outro livro com receio de que o resultado seja similar ao deste caso.
Verdade que esta novela - que, honestamente, julgo estar mais próxima do conto - tem belas ideias e uma apetecível escrita suave.
Tais ideias são as surpresas do próprio texto e que acabam por tornar o título mais evidente.
Em muitos outros aspectos esta narrativa vai buscar a inspiração ao livro mais conhecido do autor (ou pelo menos à ideia que faço dele a partir do filme) sobretudo no mistério silencioso do apadrinhamento masculino e relutante entre uma figura que quer uma ligação e outra que a pretende afastar.
Em oposição, livro tem também uma nítida sensação de incompletude e uma falta de horizontes sobre o que fazer com as tais ideias.
Isso deixa-nos mais expectantes do que satisfeitos com a leitura, pois da aldeia do texto há quem fuja para a cidade ao lado sem se preocupar em ser encontrado.
Uma cidade à distância de uma estação de comboio ou Paris servem da mesma forma para uma fuga de quem se quer perder das vidas dos que ficam na aldeia.
A aldeia é o fim do mundo, o fim das expectativas, o fim das interrogações.
Disto queria ler mais, desta aldeia em que não se passa nada, a não ser duas belas irmãs que são barris de pólvora à solta e que ligam pai e filho de forma mais evidente do que se esperaria, destas vidas que só sonham com a eventualidade da partida enquanto se resignam com ficar.
Resumindo, a história de amadurecimento do protagonista tem os seus momentos simpáticos, mas nada mais do que isso.
Sendo que a leitura do livro não leva mais do que meia hora não me parece mal passar os olhos por estas páginas. Já o outro, maior, exigiria um tempo desapontado.


















Um Pai de Filme (Antonio Skármeta)
Teorema
1ª edição - Setembro de 2010
88 páginas