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domingo, 29 de outubro de 2017
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
A poesia da aventura
No final deste livro não sobram dúvidas de que François Villon é um personagem extraordinário que, se foi um importante poeta, foi-o também porque viveu uma vida de aventura com alguns traços de canalhice.
O livro de Raphaël Jerusalmy dá bem conta disso mesmo, lançando-o numa caçada por textos que começam a fazer mossa à Igreja no momento que a sua divulgação se torna mais simples e começa a propagar-se por toda a Europa.
O caminho de Jerusalém está repleto de obstáculos, sobretudo supostos aliados que demonstrarão não o ser, no que é a forma de “emperrar” o caminho que ia parecer linear quando o Bispo propôs tal missão para que o poeta se salvasse da forca.
A narrativa de Jerusalmy é também assim, desviando-se pelos caminhos tortuosos do passado do seu protagonista a cada capítulo, que começam sempre sugerindo que vão levá-lo de um ponto da trama ao outro na linearidade do mais típico dos thrillers históricos.
A deriva narrativa é sempre muito cuidada para que o leitor não se sinta perdido mas exigindo-lhe o seu foco.
A recompensa é certa, até porque a escrita do autor procura o refine, o que no seu conjunto afasta este livro do conjunto anónimo de livros que exploram este filão.
Os esfoços de Jerusalmy fazem pensar em aspirações à categoria de Arturo Pérez-Reverte ou Umberto Eco, conseguindo em certos momentos fazer crer nisso mesmo.
O único reparo será para o facto do autor não se deixar levar pela paixão que, certamente, sentiu na escolha de protagonista.
O livro poderia ter mais alguma dose de emoção no acompanhamento de François Villon para temperar a qualidade do exercício cerebral.
O livro poderia ter mais alguma dose de emoção no acompanhamento de François Villon para temperar a qualidade do exercício cerebral.

Os Caçadores de Livros (Raphaël Jerusalmy)
Clube do Autor
1ª edição - Setembro de 2015
296 páginas
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Raphaël Jerusalmy
domingo, 29 de maio de 2016
Incapacidade de criar
O cenário é o de uma cabana onde os personagens se isolaram durante um fim-de-semana. Consumo de álcool e cocaína, uma mensagem sobre assassinato durante uma sessão espírita, pegadas no exterior da casa, a linha telefónica cortada e uma tensão provocada por um personagem obsessivo.
Nesse instante, já para o meio do livro, as possibilidades são múltiplas. Horror ou thriller, provocados por um personagem externo que então aparece. Ou, ainda melhor, um simples crime a ser desvendado dentro dos limites daquele grupo no estilo de Agatha Christie.
O leitor será ingénuo por imaginar tanto assim. Aquilo que se segue é um desses thrillers psicológicos sobre uma mulher que se revela uma psicopata que continuarão a ser publicados enquanto haja filão para esgotar.
Afinal esta é apenas a história de como uma mulher tenta, da forma mais desajustada e violenta possível, salvar a face perante o fim eminente do seu noivado: matar o noivo e culpar outra pessoa.
Outra pessoa que é Nora, que vive assombrada há dez anos pelo fim da relação amorosa dos seus dezasseis anos com nenhum outro que o noivo de Clare.
Conclui-se que as mulheres só podem ser cabras psicóticas ou crianças assustadas em função do homem pelo qual definem a sua vida - no caso o mesmo que a sua vida amorosa.
A banalidade da segunda metade do livro, que ainda para mais é estruturada de forma deficiente, obriga a negar o benefício da dúvida que se deu à preparação do desfecho.
Só o instante em que todas as possibilidades eram possíveis afastava o terrível espectro de previsibilidade instalado desde o momento em que Nora aceita ir a uma despedida de solteira para uma (melhor) amiga com quem não fala há uma década e que nem sabia que se ia casar...
Essa previsibilidade não é uma manipulação para desviar a atenção do leitor do verdadeiro desfecho. É a única ideia que a autora conseguiu ter.
Tudo é mais pobre por ser Nora a personagem que nos serve de ponto de vista à história, uma escritora de policiais que não tem o raciocínio analítico para suspeitar do mesmo que o leitor.
Temos de a aturar deitada numa cama de hospital a recordar os eventos do fim-de-semana com medo e dificuldade. Nora não sabe se é a culpada pois sofre de uma conveniente (para que a trama tenha alguma duração) amnésia selectiva.
Pior são as suas recordações de há dez anos, que a tornam numa mulher ridícula no presente enquanto a mostram como uma adolescente que ora é totalmente insensível perante um aborto como exagera por completo perante uma rejeição e nunca mais fala aos seus colegas.
A história cabe nestes meros parágrafos mas isso não faz um livro capaz de vender. Para isso é preciso encher as páginas. Dos piores lugares-comuns, claro!
Como a cena final em que a protagonista, enfraquecida e desprevenida, foge do hospital para se ir colocar, sem apoio, numa situação de perigo pessoal de forma a provar que é inocente.
Ou, pior, como a caçadeira por cima da lareira - descarregada garante a anfitriã que os leva a ter uma lição numa carreira de tiro - cuja falta de subtileza é sobrecarregada porque a autora tem um dramaturgo a afirmar que ela o faz pensar em Tchekhov.
Como nota positiva diga-se que Ruth Ware tem um mérito, o de saber transmitir a ambiência envolvente e ameaçadora que os personagens vivem naqueles bosques.
O problema é que contra ele pesa a incapacidade para criar: personagens que não sejam representações de comportamentos extremos, uma estrutura que nos deixe em suspenso em vez de nos sonegar informação ou uma narrativa desafiante que não seja colagem de clichés.

Private: Los Angeles (Ruth Ware)
Clube do Autor
1ª edição - Abril de 2016
328 páginas
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Ruth Ware
terça-feira, 8 de março de 2016
Compensações
Esta é uma história em que pouco acontece de efectivo, visto que a ausência é aquilo que atormenta a protagonista.
A ausência de explicação para a ausência de uma irmã cujo destino é parte do mistério emocional que enfrenta Rosemary.
Durante uma fracção significativa do livro temos de crer, sem mais, que essas ausências por si só explicam que a protagonista se envolva num caso alheio que é, sobretudo, caricato.
Rosemary agarra-se à rapariga (abusadora) com quem interage em cima de uma mesa de café para crer na sua capacidade de manter uma relação humana.
Não fosse a história que nos conta a do seu próprio falhanço no mundo depois do um ponto de partida conturbado, uma família altamente disfuncional.
A esse ponto de partida Rosemary só chegará mais adiante na sua narrativa, depois de a começar a meio como lhe recomendaram em criança por falar demais.
Essa estratégia de narração é um trunfo para o interesse em seguir a história, com o suspense da descoberta das verdades por detrás do que nos conta Rosemary.
Não fosse a esperta quebra de linearidade e esta rapariga pouco expedita e sem capacidade de análise dos seus próprios sentimentos seria nada mais do que uma irritante figura percorrendo uma sequência de comportamentos arbitrários.
O mistério é aquilo com que o livro responde à necessidade de elevar a banalidade da vida interior de uma desajustada.
Surge a revelação, ainda o livro vai na sua primeira parte mas já a história de Rosemary vai enredada, de que a irmã de Rosemary era uma gorila.
Acontece que se esta estranha relação de cinco anos e o seu desfecho (silenciado pela psique de Rosemary) definem a identidade de uma mulher até à idade adulta, então tal deveria manifestar-se de forma mais intensa.
Karen Joy Fowler prefere manter a sua personagem central na eminência de mais um desvendar de mistérios, em vez de a confrontar com o que foram os anos em que disputou a admiração dos pais com uma jovem gorila.
A autora mantem os seus leitores em suspenso para conseguir ter uma aproximação de uma estrutura pela qual avance o livro.
O que verdadeiramente deveria estar em suspenso era a compreensão de si mesmo feita por Rosemary, numa retoma do sentido das suas memórias desligadas e ocultas - algo a que a autora parece querer dar forma concreta com o recurso à estrutura da narrativa.
A verdadeira tarefa de Fowler era a de sustentar a personalidade da sua protagonista, o que se mostra incapaz de fazer.
Depois da revelação da identidade da irmã de Rosemary, a autora passa a recorrer com excessiva frequência a conclusões de estudos científicos realizados com símios.
Delas devem tirar-se ilações sobre como a relação entre Rosemary e Fern esbateu as fronteiras entre homem e animal da primeira. E de como isso resultou na sua existência disfuncional.
Os relatórios substituíram-se à autora que parece ter sido incapaz de levar a bom termo um esforço que parecia estar bem encaminhado.
Em vez de titubeante na sua existência, Rosemary acaba por parecer incompleta na sua elaboração. Um personagem com um passado inesperado a que faltam os detalhes mais específicos.
Rosemary nunca poderia ser confundida com uma pessoa!
Pelo contrário, seria interessante sabê-la confundida com uma gorila, talvez a par de uma gorila confundida com uma pessoa.
Um retrato de família, em vez da sua ausência, em que a disfuncionalidade vinha dos papéis que esta permitia que as suas filhas assumissem, dentro e fora de casa.
Estamos perante um dos problemas essenciais do livro. Aquele com que faz parelha é a própria escrita da autora.
Karen Joy Fowler procura enriquecer o texto com palavras que valem pela sua esparsa utilização, não conseguindo com isso evitar algumas confrangedoras tiradas que nem num romancista em estreia se esperaria ver.
Podemos resumir os problemas do livro a um caso de compensações. Os relatos científicos compensando o que a autora não consegue estabelecer na sua protagonista e as "palavras caras" compensado as frases em que a autora não consegue escapar ao clichê.

Estamos Todos Completamente Fora de Nós (Karen Joy Fowler)
Clube do Autor
1ª edição - Maio de 2015
324 páginas
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Karen Joy Fowler
sábado, 18 de julho de 2015
Literatura é reconciliação
Este é um melodrama de relações familiares que se transformam quando um casamento termina, demasiado realista por conta da estupidez humana que se torna abnegada de qualquer sentido de decência.
Amor entre marido e mulher rapidamente transformado em ódio que só se dá por contente quando destrói a outra parcela destas relações, o amor entre progenitor e filho: esse amor que deveria ser protegido e, se possível, incondicional.
Só que este melodrama não se rende à narração "de faca e alguidar", procura esse ponto mais raro e mais importante em que a destruição da família é confrontada com o reencontro dos seus elementos.
Esse instante serve para contar uma história que é, de facto, de um absoluto, quando ao fim de muitos anos de não ver o filho, um pai afastado à força prepara-se para o receber em casa.
O pai recebe-o com amor e apenas amor. O filho vem para atacar, preparado para um combate onde crê saber - sem espaço para a dúvida - qual o lado dos bons e qual o lado do mau.
Um combate travado com palavras e gestos que o filho vai tentando ferir o pai que resiste, sempre, pela força do seu amor.
Até ao momento em que até o amor a um filho dá lugar ao amor a si mesmo. O pai replica, não em retaliação, num gesto limite de auto-preservação.
Ou melhor, de preservação da dignidade do pai que sabe ser e que apenas conseguiu mostrar durante pouco tempo ao seu filho.
O combate entre os dois transforma-se em transformação própria.
O pai descobre que ainda tem em si uma centelha que lhe dá valor, depois de tanto tempo em que desistiu da vida, para ver que o amor é dádiva permanente mas não pode causar o esgotamento do ser que o sente.
O filho descobre que as certezas do seu ódio não correspondem à verdade límpida, tendo de amadurecer e enfrentar a realidade da sua própria culpa naquela relação falhada, sujeito que foi a uma manipulação.
Isso antes de entrar em cena a terceira personagem desta família. A mãe, cuja morte é o motivo pelo qual os dois se encontram.
Ela materializa-se pela carta que o filho leva ao pai e que pode considerar-se um retrato das ilusões raivosas com que alguém molda as memórias do seu passado para, assim, se justificar e se expurgar de erros próprios.
Embora também seja um relato que levanta dúvidas sobre o que verdadeiramente aconteceu entre os elementos daquela família.
Há um homem cuja entrega ao filho nos merece empatia. Ele é o mais perto que o livro está de ter um herói, mas nem mesmo o seu relato é totalmente objectivo.
Por isso mesmo o livro não termina de forma límpida, antes deixa margem à projecção de desejos que cada leitor fará a partir dos seus sentimentos individuais.
A única certeza é a que o narrador do livro reconquistou algo de si mesmo ao aliviar a emoção que guardou tantos anos.
Por pudor pessoal de falar da sua mágoa perante uma sociedade patriarcal. E, sobretudo, por pudor do seu filho a quem não quis impôr mais uma narrativa de acusadores e culpados.
O livro não termina "em bem" mas tem um momento marcante em que o diálogo se torna possível.
Acontece pelo poder da Literatura, que acaba por ligar os dois homens e, num encontro de gostos, quase os reestabelece como pai e filho.
A Literatura é, aliás, a outra grande personagem do livro, destacada e homenageada pelas muitas referências que o narrador faz às obras que julga meritórias.
Referências essas que surgem na forma de (muitas) notas de rodapé, apartes no encadeamento lógico do narrador. Que acabam por ser confissões do escritor que nesses elementos do livro vê as suas opiniões confundirem-se com as do personagem.
Jorge Araújo trabalhou a forma do livro de forma muito inteligente e com o conhecimento de utras experiências literárias modernas. Trazendo a experimentação para um patamar onde se torna acessível e convidativa a todos os públicos que o seu livro possa encontrar.

O Cemitério dos Amores Vivos (Jorge Araújo)
Clube do Autor
1ª edição - Fevereiro de 2015
150 páginas
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Jorge Araújo
domingo, 18 de janeiro de 2015
Força das mulheres
Este é um daqueles mistérios de uma aldeia inteira que se revelam melodramas feios, cheios dos pesadelos escondidos na alma por culpa dos desgostos escondidos no quarto.
Uma história um pouco vaga acerca do Tempo, para a qual se pode fazer o esforço de tentar localizar o período em que decorre com precisão através dos seus detalhes, mas que funciona ainda melhor quando é deixada num limbo difuso,
A aldeia perdida no tempo - e no espaço - funciona como o retrato abrangente de um país que, desde 1946 quando surgia como uma bela maçã podre na capa da Time e até hoje, continua a estar preso entre o Passado enraizado e a perspectiva de um Futuro que lhe é oferecido.
Um pé em cada margem do rio do Tempo, aproveitando a metáfora em que o próprio livro estabelece a sua geografia, querendo cair para aquela onde tudo é imutável e regido pela imagem de Fé que dá poder mesmo aos insignificantes enquanto da outra os chamam à razão e lhes oferecem a possibilidade de descobrir as possibilidade do mundo.
O autor criou um lugar com uma história que o faz valer por si próprio e que assume
Um lugar que conquista através do molde de cada uma das vidas individuais que dentro dele se cruzam e que tocam o cerne contido naquelas três mulheres que são em simultâneo familiares e estranhas entre si.
Mulheres que se viram sempre sujeitas às circunstâncias da vida, mesmo quando julgavam tomar opções em seu próprio favor.
Uma mãe e duas filhas levadas a concepções próprias do que devia ser o seu modo de vida ao ponto de se afastarem umas das outras.
Ainda que a mãe rente reatar a ligação que antes tinham entre as três, não são mais mãe e filhas, são três mulheres de personalidade vincadas.
Mulheres de força por se terem tornado mulheres à força, tentando impor aos restantes a sua vontade num combate entre mãe e filha que é também o combate entre a sabedoria e a crendice.
A sabedoria que Júlia tentou passar às filhas e ainda tenta passar às mulheres da aldeia (se não mesmo à aldeia inteira) e a crendice com que Adelaide manipula a aldeia em seu favor mas em desfavor da própria terra.
Uma velha costureira que se transforma numa sábia através das páginas de citações do Reader's Digest e uma mulher que se evade à violência doméstica através de um exército (literal) de filhos são apenas os dois exemplos maiores de uma aldeia cheia de grandes personagens - e personagens femininas.
Esta é a capacidade que mais se destaca de entre aquelas que a pena do autor nos mostra, a de dar vida às suas personagens, partindo do quotidiano banal (o que não é sinónimo de aceitável) para as fazer expressar o extraordinário.
Ainda mais significativo por ser uma capacidade de um autor masculino para criar tantas e tão distintas personagens femininas memoráveis.
De João Felgar há também que dizer que é um escritor cheio de promessa - ou não fosse este o seu primeiro livro - mas já com as ferramentas de uma sabedoria literária que lhe permitiram escrever um livro memorável.
Com elas consegue uma exímia gestão estrutural, rítmica e emocional: revelando ou guardando a informação (sem artificiais cliffhangers) conforme isso melhor funciona para que o leitor esteja em sintonia com as vidas das personagens e seja melhor servido pelo seu conhecimento da história à medida que esta se desenrola.
Tenha-lhe tudo isso vindo da experiência própria ou de uma rica imaginação em sintonia com o país em que vive, é uma capacidade que se encontra com mais raridade do que gostaríamos e que necessita de um talento puro para ganhar forma a partir da escrita.

Terra de Milagres (João Felgar)
Clube do Autor
1ª edição - Setembro de 2014
280 páginas
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João Felgar
sábado, 29 de novembro de 2014
Informação e intenção
Vito Bruschini é um militante da sua própria consciência e, por isso, o que de mais interessante tem o seu livro é a informação que ele revela sem medos ou hesitações, mesmo que parte dela seja trabalhada como ficção.
As suas convicções são o motivo pelo qual escreveu um thriller sobre o domínio empresarial do mundo a partir do controlo da agricultura e da fome por todo o mundo.
O livro é muito interessante no seu início, criando um sentimento de tensão por conta das maquinações de uma sociedade secreta.
Se os planos lá descritos não foram reais, poderiam bem ter sido, com as consequências reais - ou, pelo menos, realistas - descritas no livro.
Atravessando décadas de acontecimentos que sugerem, sem dúvida, conspiração e manipulação, o livro vem até aos nossos dias e a uma sugestão de intenções perniciosas para acções de generosidade humana aparente tomadas pelas grande empresas.
Este entretenimento tem um lado de exigência ao leitor para que deixe de estar desatento e tente obter mais informação em fontes que a tratem como tal.
Não que depois dessa pesquisa se venha a colocar de lado o trabalho do autor - que é jornalista - neste livro, até porque como se tem visto o mundo acaba por procurar e receber cada vez melhor informação a partir de meios de comunicação que utilizam o divertimento como embrulho para ela.
Só mais tarde, a caminho do seu final, é que o livro toma contornos mais comuns, com impossíveis cenas de guerrilha protagonizadas por um grupo de amadores.
A substância que até aí enchera o livro desaparece para dar lugar às cenas de acção.
Aí o interesse do livro esmorece até porque Bruschini não é um executante exímio do género, mas sobra algo assinalável.
Um detalhe que o destingue e que o mostra ainda fiel aos seus princípicos de militância, o de trazer para o papel de heróis um grupo de terroristas com cujas intenções ele claramente se identifica.
Ou talvez seja o grupo a manifestação das suas intenções, a recuperação de um engajamento activo contra a cultura
Faz lembrar um Baader-Meinhof-Bande de índole mais bondosa mas com a mesma determinação, como se o autor tivesse algo como um sentimento de saudosismo com revisão utópica do que foram décadas passadas de luta contra o fascismo corporativo.
O livro não termina com heroísmo, termina com uma admissão de impotência. A ingenuidade não tem lugar neste mundo pois também disso podem as corporações servir-se para atingir os seus fins.
Se a intenção é apenas de alerta ou se há mesmo um incitamento ao retorno de um activismo político mais feroz, talvez só o autor possa garantir.
A maioria dos leitores ficará, sem dúvida, apenas pela qualidade da informação e de como ela é trabalhada em forma de conspiração.

Os Segredos do Clube Bilderberg (Vito Bruschini)
Clube do Autor
1ª edição - Julho de 2014
420 páginas
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Vito Bruschini
terça-feira, 16 de setembro de 2014
De boas intenções...
Este livro está longe de ser um repositório do que foi o reinado de D. João II... O que nos atrai é o homem, não tanto o rei...
São estas algumas das palavras com que Jorge Sousa Correia nos explica os seus intentos com este livro.
As expectativas criadas são interessantes mas são igualmente um ónus desnecessário. E se a qualidade de um livro não se avalia por comparação com as expectativas que dele se têm, certamente que não ajuda que quem o escreve se proponha a mais do que conseguirá fazer,
Ao contrário do que o autor pretende, As Sombras de D. João II é, de facto, uma crónica de um reinado, detalhada mesmo se tende a regressar aos detalhes mais particulares de como o rei reagiu, sentiu ou actuou em vários dos momentos decisivos.
Até no estilo isso é notório, elaborado para dar aquela sensação de arcaísmo mas moderno o suficiente para não alienar o leitor.
Por o livro chamar ao título a palavra "sombras", sabemos pelo menos que esta crónica nunca seria puramente objectiva, nem uma leitura do lado dos vencedores, que é como dizer que elevava todas as decisões ao nível do heroísmo estadista.
Há considerações menos aprazíveis sobre D. João II, explorações de uma personalidade que alcançava o sucesso como regente deixando-se guiar pelo egoísmo ou pelo orgulho pessoal
Essa exploração parece-se vezes demais com uma censura do autor ao homem de então, reforçando as "sombras" para justificar que este livro exista contra os relatos históricos.
Uma exploração a que falta algo mais significativo, a capacidade de compreender que à época o homem e o reino se confundiam na figura do Rei, pelo que o Ego e a Razão de Estado estariam quase sempre associadas.
Neste livro sente-se que o homem é julgado de acordo com os preceitos morais correntes e não tanto com os da sua própria Era.
O mal maior do texto é que estas duas vertentes, de crónica e de exploração da psicologia do personagem central, não combinam.
O estilo mais raivoso e tenso dos diálogos (internos ou não) de D. João II gera quebras evidentes com o mais átono desfiar dos episódios que marcavam Portugal naquela altura.
Não há uma voz contínua do autor deste livro, sendo essa a maior das limitações às suas intenções iniciais.
O autor bem as afirma numa introdução motivada e determinada, mas depois sobram a crítica subjectiva e a narração objectiva de quem escreve, nenhuma delas sendo aquilo a que ele se propôs.

As Sombras de D. João II (Jorge Sousa Correia)
Clube do Autor
1ª edição - Junho de 2014
280 páginas
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Jorge Sousa Correia
terça-feira, 22 de julho de 2014
O prazer do conhecimento
Este é um livro que lida com o grande mistério do conhecimento, habilmente representado pela dúvida sobre o verdadeiro destino da Biblioteca de Alexandria.
Dos aspectos a abordar neste livro, o mais destacado é a defesa do conhecimento feita pelo seu autor, um académico que aproveita para explanar as muitas histórias da História ao longo do livro com declarada capacidade de as manter interessantes e enquadradas.
O facto da sua heroína ser, tal como ele, uma académica sobre quem cai a responsabilidade de preservar o conhecimento parece uma inevitabilidade e permite que este thriller se desenrole acima de tudo pela mente.
Claro que o exagero está sempre subjacente a este tipo de personagens, saídas de uma piscina genética onde o raciocínio lógico de Sherlock Holmes foi potenciado até um ponto de impossível brilhantismo.
Mas a forma que assume o jogo de pistas neste caso é assaz interessante, pois não envolve apenas enigmas deixados ao longo de um percurso exótico, acrescenta-lhe a decifração do condicionamento a que a protagonista foi sujeita por um seu colega, entretanto morto. Um verdadeiro jogo Pavloviano entre altas inteligências.
Estes pontos de maior interesse do livro acabam por ir disfarçando as fraquezas que A. M. Dean revela neste seu primeiro livro.
Afinal, sendo um académico e como o próprio tema denuncia, o seu interesse pelo conhecimento torna-o um pouco avsso ao entendimento da desenvoltura humana.
São muitos os diálogos que acabam por servir o propósitos expositivos das temáticas que o autor aborda. Os restantes mostram-se sempre constritos por uma falta de fluência natural(ista).
As personagens, como os diálogo, estão muitas vezes ao serviço de revelações - históricas e da trama - e não são desenvolvidas em conformidade com a importância que assumem.
Felizmente que entre o par mais importante do livro - a protagonista e o mestre que lhe passou a responsabilidade pelo conhecimento no Mundo - esses detalhes de caracterização são completados no processo da acção, ajudando a manter o interesse.
Apesar dele ser morto no início do livro, o homem que lhe passa a ela a responsabilidade vai-se revelando nas memórias do que fez nos poucos momentos em que se cruzaram, revelando um planeamento preciso e uma certa dose de mistério.
Já a protagonista, Emily, revela-se uma mulher determinada e sedenta de viver uma aventura que a leve para lá da limitação da teoria em que sempre trabalhou e do bom senso que a parece conter.
Perante a "interacção" entre estes dois personagens, a trama paralela à da dominação do conhecimento - de dominação do poder mundial - poderia ter sido mais comedida.
Um certo risco de irrealismo - sobretudo quando a salvação terá de ficar nas mãos de uma mulher recém integrada na ordem secreta dos que defendem a Biblioteca de Alexandria - leva a leitura ao limite do aceitável.
O balanço é a de um desequilíbrio com potencial futuro. E se o leitor nunca pousa o livro é porque ele próprio está seduzido pela aventura que o representa, sedento acumulador de conhecimento que se vê justificado e elevado à condição de aventureiro.
O conhecimento que o leitor obtém aqui, ainda para mais, versa sobre o seu tema favorito: livros e bibliotecas. Fica difícil resistir, convenhamos.

O Bibliotecário (A. M. Dean)
Clube do Autor
1ª edição - Março de 2014
404 páginas
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A. M. Dean,
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Crítica
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
À procura de um editor
Depois da experiência dolorosa de No teu deserto não poderia haver outro livro de Miguel Sousa Tavares que tivesse um tal efeito negativo.
Isso não redime Madrugada Suja que se lê com uma irritação crescente até ao seu final.
Essa inicia-se com a percepção de que o autor tem a deformação profissional de jornalista demasiado entranhada na sua escrita, enumerando informação a mais - e pela boca de quem não a deve dar, como a velha e analfabeta senhora que fala de motores Rolls-Royce usado em aviões que sobrevoaram a sua aldeia - e repetindo-a desnecessariamente a cada contextualização de um cenário já traçado.
A irritação aumenta sempre que essa informação que deveria ser precisa, é usada para efeitos de ficção com uma indevida casualidade que gera pequenas incongruências cronológicas - ou apenas de lógica.
Um rapaz nascido em 1968 rezando pela saúde de Salazar ou uma mescla pouco precisa das décadas de 1990 e 2000 para o tempo presente do romance (variando entre uma e outra conforme dá mais jeito) são alguns dos muitos detalhes que arrancam o leitor à sustentada imersão no universo criado.
Não podendo ser considerado uma incongruência, mas tornando ténue a lógica da realidade, surge um personagem com a quarta classe mal acabada e que vai lendo Moby Dick.
Tal personagem é o sintoma mais óbvio do factor preponderante para tanta irritação: a falta de voz dos personagens que mais não são do que porta-vozes diferenciados para as considerações, pessoais e sociais, do autor.
Basta dizer que esse mesmo personagem, sem benefício à trama ou à sua própria caracterização, tem de ser adepto do Futebol Clube do Porto quando esse clube nada ganhava.
Deixo por analisar mais extensamente uma ou outra situação - como o capítulo feito de excertos de um diário de considerações políticas que recorre a narração quando uma entrada mais pessoal acerca de uma noite de sexo num palheiro teria bastado; ou os diálogos transcritos com travessão e tudo mais na carta de uma moribunda escrevendo emocionada ao filho - que se afiguram como menores perante a combinação das três anteriormente descritas.
Tudo isto se afigura triste perante os parágrafos dedicados à infância passada na aldeia ou à relação entre um neto e um avô que nem o são de verdade. Parágrafos com uma carga intensa do autor, muitas vezes comovendo pela sua simplicidades.
Como o romance se deforma em direcção ao libelo das muitas décadas de política e corrupção - novamente ao serviço das opiniões do homem que não do trabalho do escritor - esses parágrafos andam por ali um pouco perdidos.
Isso pode funcionar relativamente bem quando o autor fala do passado e está, assim, a elucidar leitores mais novos sobre a reforma agrária (escolhida a título de exemplo, mas no seio da qual até decorre um dos episódios mais interessantes mesmo se desnecessários ao produto do romance).
No entanto, mesmo desse tema podemos dizer que já o conhecemos porque ainda está muito presente um documentário como Torre Bela, então dos temas mais recentes e que continuam a arrastar-se nos jornais, o livro faz pouco mais do que neles insistir e, quanto muito, usá-los como ferramenta do melodrama.
Porque é disso que se trata, um melodrama com alguma ingenuidade cinematográfica que já não se usa e algum exagero telenovelístico que insiste em não morrer.
Acreditar que um arquitecto possa descobrir sozinho as contas offshore do futuro Primeiro-ministro é difícil. Que ele tenha um momento Capriano em que afasta o corrupto do poder porque é, igualmente, seu fillho (recém descoberto) é quase impossível de aceitar.
Menos difícil, ainda assim, do que o final em que uma vítima de violação - incapaz de contacto físico com um homem desde então - se renda ao amor por um dos presentes na cena do seu trauma (mas não violador...) a quem, com dezasseis anos e bêbada, pedira um beijo vai para dez anos.
De todo este livro, amálgama de elementos tão dispersos que nunca resultam sequer em pequenos conjuntos entre eles, retiro uma conclusão, de que faltou ao livro um editor que discutisse, corrigisse e melhorasse o livro.
Dessa conclusão nasce outra, já não sobre o livro mas sobre o comportamento do mercado nacional e a reacção das editoras a ele.
Creio que será pelo estatuto de escritor com vendas de um milhão de exemplares - e das expectativas que um seu manuscrito cria numa editora - que Miguel Sousa Tavares pode ser dispensado de ter o seu trabalho à prova antes da publicação.
Com estatuto de infalível, se não mesmo de intocável, sendo garantia de vendas e tendo "fugido" à sua editora habitual para outra que lhe garantisse mais liberdade (por ser, necessariamente, mais pequena no meio editorial nacional), parece-me mesmo impossível que o livro não tenha ido directamente das mãos do escritor para o prelo.
E, portanto, o que faz falta são editores que coloquem em sentido os escritores e o mercado. Mostrando a uns como devem escrever melhor e ao outro como pode lher melhor.

Madrugada Suja (Miguel Sousa Tavares)
Clube do Autor
2ª edição - Junho de 2013
352 páginas
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Clube do Autor,
Crítica,
Miguel Sousa Tavares
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Diferente do anunciado
A crítica a O Livreiro que aqui se inicia revelar-se-á bicéfala ou acabaria por ser uma análise enviesada. Teria de ser depreciativa do importante fenómeno da primeira interacção do leitor com o livro - em que a compra também está incluída - da antecipação via marketing - imagem da capa, frases de efeito e teor da sinopse - para chegar a um elogio do efeito final que só pode ser feito contrariando essa orientação comercial .
Avaliando o livro pela maneira como o seu exterior comunica com o leitor, o pensamento dirige-se para uma aproximação a O Clube Dumas, para a iminência de uma versão exultante, de aventura (não na forma de acção, claro), do papel de um comerciante de livros.
Ainda para mais numa versão de trabalho paciente que nos trará da Segunda Guerra Mundial ao presente e à figura envelhecida da capa.
Há algo de tudo isso no livro, claro, mas na verdade o alfarrabista parisiense que motiva o título do livro é quase um MacGuffin, desaparecendo muito cedo no livro e lançando o protagonista numa caça que terá muito pouco a ver com livros.
A trama relativa a um livro que esse bouquiniste se recusou a vender torna-se secundária e a sua maior contribuição para o livro é a maneira como desvia a perspectiva da investigação, tornando menos óbvio o percurso a seguir pelo protagonista.
O ambiente do comércio alfarrabista parisiense serve, igualmente, para criar um ambiente distinto para este policial, criando condições que obrigam o protagonista a negociar a sua posição e aliar-se à polícia local.
Ele é um "americano em Paris" e com um papel significativo na embaixada americana local, pelo que o seu comportamento não pode ser o do herói violento - e ainda bem, ou o livro teria sido apenas mais um thriller - mas antes de quem tem de liderar uma investigação privada e ir aceitando um papel secundário na colaboração com a polícia.
Essa gestão de relações leva a um uso mais inteligente de recursos, a uma evolução mais paciente em que o personagem fica caracterizado numa dimensão de pessoa a par de o ser no papel de herói.
Os detalhes tornam Hugo Marston muito interessante, dão conta do seu passado e deixam o futuro em aberto com mudanças significativas em perspectiva sem que forma final de cada uma seja óbvia. O (muito) dinheiro que lhe vai parar ao colo no final do livro poderá levar a uma mudança de profissão e/ou de cenário, havendo por isso alguma expectativa quanto ao que se segue.
Ao mesmo tempo, alguns de entre esses detalhes que o querem caracterizar como peixe fora de água, são verdadeiros estereótipos que não se enquadram no estilo do livro nem, verdadeiramente, do personagem.
O mais violento desses detalhes sendo o par de botas texanas que Marston não troca nem numa gala da embaixada onde é obrigado a vestir um smoking. Outras oportunidades surgiram para destacar o seu enraizado americanismo e o seu espírito independente sem que precisasse de existir esta incongruência laboral.
O personagem de Marston não se estraga à conta disso e a viagem emocionante em que ele nos leva tem um certo charme e bastante eficácia.
Não se trata do livro "anunciado", mas aquele que se revela não deixa o leitor mal servido.

O Livreiro (Mark Pryor)
Clube do Autor
1ª edição - Março de 2013
352 páginas
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Mark Pryor
sexta-feira, 29 de março de 2013
Negócio subversivo
A grandeza do talento de Penelope Fitzgerald pode ser sentido com recurso à leitura de apenas este seu romance.
Talento na maneira como preenche cada página com o que é substancial, fazendo um retrato gratificante do mundo sobre o qual escreve com a brevidade que serve todo o tipo de leitores.
Talento para encorpar as suas páginas sem abusar das informações, agilizando o seu domínio sobre os parágrafos e deixando espaço ao que o leitor tem de poder descobrir, a solo, no que fica sugerido.
Será a súmula de uma identidade literária de excepcional relevo e merecedora de total apreço, de quem dá ao leitor tudo o que ele precisa para que se deslumbre mas não deixe de estar atento ao correr das páginas.
Pebelope Fitzgerald usa esse talento para nos falar de muitas lutas que aconteciam no final da década de 1960 num Reino Unido onde a tradição ainda pesava demais.
Muitas lutas travadas numa decisão única, a de Florence Green abrir uma livraria numa pequena localidade costeira. Decisão tão simples e pessoal e, no entanto, com tanta convulsão nos modos alheios.
A livraria montada naquele armazém de pouca serventia e afectado por severa humidade afronta a aristocracia social instituída, toca a vida de uma jovem rapariga sem perspectivas de futuro, coloca em cheque o papel feminino após a Segunda Guerra Mundial e testa a moral vigente.
Naquele meio pequeno e fechado sobre si próprio, onde não chegou a guerra, onde a hierarquia não é perturbada há décadas, onde o resto do Mundo parece não ter lugar e onde o futuro é afastado com violência, Florence traz um pouco de tudo isso.
Esta mulher só, tornada viúva pela guerra, é a forasteira que tem mais sucesso do que os restantes comerciantes, que recebe ajuda do respeitado "eremita" local que rejeita falar a todos os outros, que dá trabalho a uma rapariga que deveria acabar num trabalho sem perspectivas, que coloca Lolita à venda e que, com isso, causa um furor de visitantes acorrendo das localidades em redor como nunca fora ali visto.
Não se trata apenas de um percalço na vida da vila, trata-se de uma revolução encarnada numa mulher só, que conhece o mundo e crê que ali, no "fim do mundo", pode
Pode, mas não da forma que crê. Rejeitada sucessivamente, ela apenas poderá deixar as primeiras marcas da realidade que conhece e defende: alguns livros vendidos, exemplares do romance de Nabokov espalhados entre os habitantes.
No final, a derrota é inevitável para Florence, mas dessa derrota pessoal ficam os primeiros indícios de uma vitória maior, conquistada por todos e não só por ela.
Só através da manipulação da lei e da pressão política foi aquela livraria derrotada, não pelo aluimento que anunciavam para o edifício. Esse resistiu, creio que pelo suporte das muralhas de livros no seu interior!
Florence parte, mas fecha-se o livro com a certeza que, mesmo não merecendo uma livraria, aquela localidade acabará por descobrir que não consegue de lá excluir os livros.
Foram esses perigosíssimos objectos que, ainda para mais nas mãos de uma mulher, abriram caminho a todas as possibilidades que estavam ainda a ser negadas.
Descobre-se no livro que temos em mãos o mesmo poder que tinha o livro por ele referido e que têm os melhores livros.
Um livro que desperta - por si próprio, pelos restantes livros e pelos lugares a que eles pertencem - genuínas paixão e revolta no leitor, consoante este vê o tratamento justo ou desprezível com que são tratados.
Um livro sobre uma livraria em 1959, escrito em 1979 em Inglaterra e editado em 2011 em Portugal. Lá como cá e então como agora.
A venda - ou a edição, já agora - de um livro pode ser um negócio de incrível poder, mesmo (sobretudo?), para aqueles que não os lêem mas os olham demoradamente - fascinados por um medo que lhes aumenta o desejo de lhes pegarem.
Não lemos por estes dias notícias sobre cidadãos Angolanos com cargos significativos que inciam processos contra o livro de uma editora portuguesa? E isto numa Era em que já quase não se lê tais objectos?
Mas o medo da palavra impressa que se espalha com facilidade entre quem a queira encontrar continua hoje, como naquela época, a ser uma realidade que nos apraz a todos nós, leitores.
Se A Livraria é um livro que consegue, para além do Tempo da narrativa, da escrita ou da leitura, fascinar o leitor pela sua qualidade e pela sua sempre renovada actualidade, creio que é caso para lhe começar a chamar "Clássico" sem temeridades de maior.
Afinal de contas é por momentos de leitura como estes que, dos escritores aos críticos amadores, tantos de nós se dedicam ainda a este "negócio".

A Livraria (Penelope Fitzgerald)
Clube do Autor
1ª edição - Agosto de 2011
180 páginas
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Penelope Fitzgerald
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
O problema está no resto
A novela que se configura como o texto principal do livro é dos mais divertidos retratos de um país que se mantem num regime de brandos costumes... cada vez mais ousados.
Os costumes só são brandos por se manterem silenciados pela aparência da moralidade. Os lençóis, na verdade, não abafam som algum antes motivam que estes se agudizem.
A sociedade portuguesa, bairrista como sempre, está cheia de paixões e desamores entre o mesmo pequeno conjunto de personagens de historietas.
Daí que a história revele a coincidência ácida do destino encafuado num reduto que, até pela sua forma geométrica, se assemelha a uma rua onde ninguém escapa ao olhar atento do vizinho.
Há um trio amoroso pacificado, que sabe partilhar-se embora fingindo uma compreensão que tem de recorrer ao adágio "longe da vista, longe do coração".
Os sentimentos acalorados continuam a dominar o mais moderno dos animais sociais que, à conta de uma elevação racional a que se sente obrigado, aceita a construção de um cenário em que dá a si próprio a hipótese de uma decisão.
Tudo é uma ilusão que ele - pois quem senão o homem da relação se deixaria levar tão facilmente - prepara para se conformar de que a mulher não pode viver só com ele. Como cantava Juca Chaves há já muitas décadas atrás, "Esta é a vida que eu sempre quis / Eu sou cornudo mas eu sou feliz".
Não se trata de uma farsa, os sentimentos de todos são sinceros por todos os outros. Tem é de se continuar a mentir sobre o destino da outra metade do casal.
Deixou de ser possível fingir que não se sabe e, com isso, sossegar a consciência própria para parecer bem à sociedade em volta. Agora é preciso fingir que não se sabe apenas para parecer bem à sociedade em volta. Apesar do modernismo, a consciência dos outros sobre a consciência do seu próprio estado marital continua a ser motivo de uma vergonha que nenhuma racionalização vai levar a que seja superada.
E, por isso, os costumes continuam brandos e as vidas continuam mansas...
O resto do livro são, de facto, histórias. Mas não boas, lamento dizer.
O próprio autor descreve o motivo para isso no penúltimo dos seus textos, "Se não fossem as surpresas, a vida seria um imenso tédio.", bastando substituir a palavra "vida" por "histórias" e temos a condenação final merecida e dada pelo autor.
Tirando duas das histórias - e estou a ser generoso com uma delas - nenhuma deles consegue surpreender ainda que o autor faça o seu melhor para criar finais que sejam inesperados. Mais do que inesperados ele quer que eles sejam irónicos como a tirada final de vidas anedóticas.
Como num espectáculo de magia, o autor bem nos faz olhar para o lado contrário àquele onde vai decorrer o trabalho essencial do truque mas com uma falta de talento que leva a que, no tempo todo até à revelação final, já tenha deixado demasiado claro o seu método. Podemos fingir acreditar no truque mas apenas por simpatia.
A sua ironia final é sempre o final anunciado pois por mais voltas que sejam dadas, a espiral de acontecimentos nunca pode senão ir parar àquele ponto central sem escapatória.
O mesmo acontece, há que reconhecer depois de todo o livro lido, a Longe é um bom lugar mas cujas falhas são compensadas por uma construção mais extensa que inclui detalhes mais expansivos da intriga que lhe dão outros laivos de interesse sem que venham a depender do momento final.
Na extensão brevíssima de não mais que meia dúzia de páginas, Mário Zambujal consegue apenas seguir o caminho do inevitável.
Um caso em que a imaginação do autor já está deformada para um caminho específico que é o mais facilmente - ou preguiçosamente, lamento dizer - descoberto pelo leitor e, portanto, aquele a ser evitado pelo autor.
Depois do efeito do texto mais longo, estas suas histórias são fintas à mentalidade vigente, mas acabam sempre por ser simuladas mas nunca concretizadas.
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Longe é um bom lugar (O resto são histórias) (Mário Zambujal)
Clube do Autor
1ª edição - Outubro de 2011
152 páginas
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Mário Zambujal
terça-feira, 24 de julho de 2012
Um nome fácil de recordar
Onésimo será nome de revelação para a maioria dos leitores mas é autor a merecer reconhecimento pelo seu extenso domínio da arte de bem escrever.
A Língua Portuguesa nas suas mãos é material cuidado, enriquecido por um certo descaramento em nela misturar o exótico linguajar inglês dos portugueses emigrados nos Estados Unidos da América.
Mas isso é apenas parte do interesse de um cronista (escrevo-o no lugar de escritor apenas para evidenciar a forma dos textos aqui compilados) cuja inventividade pode ser constatada percorrendo apenas a lista de títulos do índice.
A sua mais distinta qualidade é a de narrador apaixonante. Na brevidade que as crónicas exigem ele é capaz de extasiar o leitor uma mão cheia de vezes.
Por essa maneira se descobre ele aventureiro sadio, sábio auto-irónico ou vítima lúdica. Ele é o primeiro dos personagens que revela, embora muitos outros mereçam parágrafos seus. Pelos olhos dele, a realidade é a origem maior da ficção mais memorável.
Estamos em suspenso nas suas palavras que nos controlam a emoção sem chegarem a precisar da entoação ou da espera de que uma narrativa oral costuma beneficiar para atingir o mesmo resultado.
Onésimo - surpreende-me a facilidade com que, ao fim de quatrocentas páginas, se fica a tratá-lo intimamente usando apenas o primeiro nome - faz-nos isto tratanto vários assuntos corriqueiros mas, como bem indicam os temas em que as suas crónicas foram divididas, está a falar-nos do mundo.
Um mundo aquém- e além-Atlântico, de uma portugalidade que ocupa as duas margens do oceano e ainda o enche com aquelas pequenas ilhas lá plantadas.
Portugalidade a ser lida com espírito aberto mas, também, com caneta e bloco ao lado para tomar nota das
referências a que o autor recorre. Seja para se ir descobrir ou seja para ir reler as ricas
recomendações que ele lança, não se sai do livro sem uma recuperada noção da elevação cultural do nosso pequeno país.
Aprende-se, portanto, sobre o país do topo ao fundo dos seus méritos socialmente estratificados.
Não me merece dúvidas que, nessa perspectiva, o mais importante texto deste volume é a Trilogia Breve, retrato de seis páginas (um pouco menos, até) da evolução do perfil do emigrado nacional e das reacções a ele por parte tanto do país que o recebe como do país que o viu partir.
Um retrato de raízes cortadas pelos que ficaram parados e parecem deixar de saber acolher devidamente. Tudo feito em três episódios do senhor Chico Ávila em que todas as palavras contam para fazer valer o nosso entendimento.
Claro que sei, por outro lado, que a impressão mais duradoura do livro será o seu humor quase constante. Também por culpa da crónica última, Que nome é esse, ó Nézimo, que compila os muitos dislates a si dirigidos por via do seu nome. De Big O a Professor Almerda, tudo lhe chamam e ele gosta de coleccionar a memória de tais nomes.
Mas para o leitor português que não hesitar, o nome de Onésimo Teotónio Almeida será facilmente memorizado, sem erros mas com saudades!

Onésimo - Português sem Filtro (Onésimo Teotónio Almeida)
Clube do Autor
1ª edição - Maio de 2011
400 páginas
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Onésimo Teotónio Almeida
sábado, 26 de maio de 2012
Ponte entre espiões
A leitura de um segundo livro ajuda a sustentar perante os outros as conclusões que já se tiravam com um único título lido.
Essa conclusão, usando um outro meio (mesmo se com origem neste) para a expressar, é a de que Baldacci assimila as duas correntes (de grande público) principais do thriller protagonizado por um herói individual: James Bond e Jason Bourne.
Shaw, o protagonista, é a figura humana em torno da qual o drama se torna motivo para acção, mas é também a peça que age num jogo de conspirações de larga escala.
A tragédia que persegue os interesses românticos de uma figura assim é o que leva, primeiro, a envolver-se na trama. A utilidade que ele pode vir na ter na resolução de problemas globais é o que leva outros a apoiarem a sua busca por vingança.
Aqui o inimigo tem objectivos egocêntricos de grande monta. Estes afectam nações, mesmo se ao contrariá-los Shaw o faça apenas porque estes o afectaram a ele.
O vilão traduz, também, esse meio termo com o plano maquiavélico a procurar um pragmatismo moderno para o que é o domínio do mundo.
Pela necessidade de vender armas, este vai gerar um problema grave entre nações - Rússia, China e Estados Unidos da América, as potências modernas possíveis - baseado numa estratégia viral.
O seu plano não envolve a guerra, mas a ameaça de guerra, levando assim os países a manterem um arsenal sempre modernizado. A ameaça de guerra permite-lhe vender armas a todos, a guerra poderia levá-lo a ter de escolher uma única facção.
David Baldacci foi muito inteligente a articular temas modernos com o sentimento da época que serviu como o cenário mais frutuoso de thrillers, a Guerra Fria.
O que foi uma verdadeira época de espiões (literários, no sentido aqui pretendido) volta para dar carisma a uma época que se ameaça tornar de lutadores e assassinos.
A temática envolvente ajuda a consubstanciar um livro que se podia perder à medida que as cenas de acção tivessem de funcionar como expressões unidimensionais de drama pessoal.
Sobretudo porque, como já apontara em A Conspiração do Silêncio, Baldacci volta a usar a trama como chamada de atenção para temas que ocupam as páginas de jornais.
A gestão da informação na era da internet, onde a verificação dos dados deixou de ser importante perante a vontade de ser o primeiro, e a consequente gestão da opinião pública, que sempre teve a tendência (agora reforçada) para reagir primeiro e pensar depois, é ponto essencial no arranque do livro e uma realidade que está sempre à vista.
Os alertas voltam-se, igualmente, para a política americana. A dependência que a economia dos EUA tem dos conflitos, sua preparação e suas consequências continua forte demais para que a sociedade global moderna o aceite sem reacção.
Como não aceitará o tratamento de vassalagem que os EUA esperam que se mantenha à medida que perdem influência para a China, sobretudo.
O livro não servirá para leitores que se interessem mais a fundo pelas questões presentes, mas despertará um alerta para os que apenas passam os olhos por cabeçalhos guardando noções periclitantes sobre o mundo actual.
Tudo isto gera uma agradável leitura que tem o mesmo interesse de livros de tempos melhores e um novo interesse dos temas que nos são próximos.
Não posso terminar sem fazer notar a pouca preocupação pelo leitor na forma como vão sendo editados os títulos de David Baldacci protagonizados por Shaw.
Ao ler O Jogo da Verdade acompanha-se uma personagem que já se sabia ter sido assassinada através d'A Conspiração do Silêncio.
Esta maneira de publicar, começando por um volume do meio da série e só depois começando pelo início (quando não é apenas um salto para outro livro fora de ordem) apenas se esse livro desgarrado tiver sucesso, não é novidade no pequeno mercado português.
Leva, por isso, a pensar se vale a pena acompanhar o thriller tal como é editado por cá, sem que o leitor possa ter certeza de que a série seja levada até ao fim ou que não venha a ficar com "buracos" editoriais.
A falta de lógica desta maneira de editar acaba por ficar provada pelo exemplo da "Crónicas de Gelo e Fogo" que apresenta fiabilidade e regularidade na sua edição e tem tido uma resposta condizente do público.
Creio que a desconfiança dos leitores no estado final das sagas editadas por cá os condiciona a não começar a comprar (é uma realidade de que já antes me apercebera com a edição de banda desenhada, por exemplo) o que leva as editoras a concluir que o "livro de teste" que lançaram para o mercado não tem sucesso para justificar a dedicação à saga completa.
Mas, como sempre, os mais entendidos que façam como entenderem...

O Jogo da Verdade (David Baldacci)
Clube do Autor
1ª edição - Janeiro de 2012
436 páginas
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David Baldacci
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Acção e intenção
Quem for ler David Baldacci pode contar com os elementos que tornam os thrillers leituras empolgantes: um herói solitário e misterioso, um interesse romântico com mais do que uma bela cara, um grupo dentro do qual egos chocam, cenários originais espalhados pelo mundo e momentos de acção para todos os gostos.
Cativante com os seus capítulos rápidos e diálogos duros, falta saber porque merece Baldacci ser publicado por cá quando, ao longo da lista dos mais vendidos do The New York Times, autores com esse conjunto de características são às dúzias.
São os importantes temas de fundo que respondem a essa pergunta, imperceptíveis a quem não quiser mais do que a vertigem da acção, mas fundamentais a quem quer encontrar uma reflexão literária da política mundial.
Aqui são as questões relativas à Justiça e a como essa justiça pertence apenas a quem tem a alavancagem certa para fazer valer os seus intentos. A Justiça, a sua validade e a permissividade com que é aplicada. Falo de uma Justiça capital baseada no entendimento (quase) universal do que é correcto.
O grupo que persegue, tantas décadas depois, os Nazis escondidos pelo mundo e, quando estes escasseiam, autores de crimes contra a Humanidade de outras nacionalidades e de outras Eras, acaba por ser a tradução literária do que afecta este tipo de Justiça.
Julgando-os e executando-os, o grupo faz valer a máxima de que os vencedores definem e manobram a Lei mas, também, que fazem valer actos ilegais através de uma chantagem sentimental por gerações a fim.
Isso traz à baila perguntas sobre temas que estão muitas vezes afundados num silêncio para descanso da consciência geral: os tribunais internacionais em que os países fundadores não permitem que os seus próprios soldados sejam julgados ou as atitudes bélicas de Israel que passam incontestadas.
Creio que se trata de uma tentativa de consciencialização do público - sobretudo o público Norte Americano - para o espectro mais complexo da política internacional. Uma tentativa feita com a habilidade que impede que essa intenção pedagógica se sobreponha a uma leitura voraz.
Não é este alerta - que pode passar despercebido ou ser mesmo contestado pela larga maioria dos leitores - que o thriller é contaminado ao ponto das suas segundas intenções o estragarem.
Por isso é que Baldacci tem alguma pertinência mais do que os thrillers que se constroem como meros exercícios de acção, servindo-nos através dos elementos do sucesso bases para pensar o mundo enquanto este continua a servir cenários para este género literário.

A Conspiração do Silêncio (David Baldacci)
Clube do Autor
1ª edição - Março de 2011
516 páginas
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David Baldacci
domingo, 11 de março de 2012
Um bom e velho thriller político moderno
Malgrado o título sonante e a forma espalhafatosa como é estampado na capa do livro, Assassino Americano não é um chorrilho de cenas de acção e morte apontadas ao gosto patriótico Republicano.
Aquilo que o título verdadeiramente vem a revelar é que Vince Flynn sabe como lançar o isco para o que é uma história de origem do que virá a ser um homem ao serviço das tomadas de decisões mais obscuras e secretas da CIA em nome da manutenção do mundo livre.
Com isso, além de uma interessante história individual, o autor tem ainda possibilidade de incluir alguma reflexão de fundo sobre a actuação americana nos muitos conflitos em que participou de forma directa ou velada.
Fala da responsabilidade de algumas decisões políticas americanas na geração do terrorismo que agora coloca em causa o país ou do tipo de manobras - tortura, por exemplo - que os equiparam aos países que tanto censuram.
A sua apologia do grande herói americano, com tanto de instinto e individualismo quanto de treino, não vem sem um claro sentido crítico para com o contexto onde este se insere.
Por isso é que Assassino Americano surge como uma conjugação das velhas e novas formas de abordar o thriller político.
Das velhas retira o foco nas personagens e a multiplicidade de facções políticas - e consequente densidade de relações. Das novas retira o heroísmo violento e solitário e a pontuação do ritmo pelas cenas de acção.
A mistura é potenciada pelo período em que o livro decorre, onde a Guerra Fria começa a dar lugar às actividades da Jihad Islâmica.
Claro que o que acabamos por acompanhar com mais interesse é a história individual que já referi e que parece merecer o investimento que promete vir a ter de ser feito ao longo de uma série de romances com o protagonista.
A composição de uma estrutura de agentes altamente capazes mas descartáveis por não possuírem uma ligação directa à CIA não é particularmente original. Nem a forma como Mitch Rapp acaba por ser escolhido para esta unidade de combate ao terrorismo - o desejo de vingança pela morte da sua namorada num atentado contra um avião.
Já o desenvolvimento da personagem e o conjunto de decisões que toma no terreno tornam-no mais interesse e desenvolvem matizes na sua personalidade. E as suas relações com os seus superiores - tanto no tempo de treino como já em pleno período activo - são muito bem exploradas.
Para o fim deixei o destaque que, quanto a mim, traz um merecimento de distinção a Vince Flynn. Se os parágrafos acima poderão ser usados para muitos autores igualmente capazes de misturar acção em doses moderadas de ensaio político, menos serão aqueles que demonstram ser, de facto, escritores.
Vince Flynn arriscou uma estrutura de vagabundagem temporal que controla com precisão para gerar expectativa sem deixar o leitor perder-se.
Isso torna o livro em algo mais do que uma leitura de inconsequente ocupação dos tempos livres para a tornar numa apreciação de talento.

Assassino Americano (Vince Flynn)
Clube do Autor
1ª edição - Setembro de 2011
440 páginas
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Vince Flynn
terça-feira, 25 de outubro de 2011
... e beijos com Língua
A primeira coisa que se nota neste livro é a frescura libertária da escrita de Hugo Gonçalves que não tem medo de introduzir sonoridades novas num uso educado da Língua Portuguesa
Ele vai buscar expressões que parecem ter saído directamente de um improviso tornado norma no seu círculo de conhecidos. Expressões que passam por serem norma interna com que ele nos convida a escutar os seus relatos, também eles dignos dessa partilha entre amigos.
Isso dá-lhe agilidade, permite-lhe expressar em duas palavras o que outros escritores teriam de explicar longamente.
Fred fazia colherzinha comigo é a forma que ele encontrou para explicar que acordou para encontrar um amigo encostado a ele numa posição de concha. Parece tão mais simples e elegante naquelas quatro palavras que ele escolheu...
Este exemplo sai da "fase brasileira" das crónicas do autor (quem sabe se a expressão não é vulgar do outro lado do Atlântico...) mas é o género de pequena ousadia que ele tem sempre que pode.
É mais do que agradável percorrer as histórias de Hugo Gonçalves, as suas percepções do mundo e da vida privada misturadas e explanadas de uma forma capaz de tocar todos os leitores.
Sinal de um bom cronista, ainda que o prazer ao longo do livro dependa sempre da empatia que se tem com os temas que vão rodando pela caneta de Hugo Gonçalves.
Além de, também, depender do grau de acerto com que o autor se atira a elas.
Quando ele usa mais o humor e menos a seriedade afectiva as suas crónicas são bem melhores.
A sua abordagem menos discreta à falta de qualidade dos minetes dados pelos portugueses (ver aqui) é mais interessante do que a sua respeitosa abordagem aos problemas que as mulheres partilham com as mulheres de Verona com a missão de responder às cartas dirigidas a Julieta. Os temas são distintos, o primeiro será sempre mais divertido e ousado, mas o autor deveria ter encontrado maneira de dar a mesma identidade pessoal na abordagem a ambos.
Talvez seja ainda uma personalidade de cronista em construção, a precisar de deixar de ser tão oscilante ou, então, meramente uma falta de contextualização da origem de cada bloco de críticas que se distinguem pelos temas e pelas formas de abordagem - negando a afirmação de João Tordo de que o livro se constrói como um romance pela coesão das crónicas e a abrangência da vida que abordam.
Se há uma identidade inequívoca do autor em todas as crónicas é, como disse antes, da sua abordagem linguística, original e distinta.
E mais do que as crónicas de uma página são os contos com oito ou dez delas que realmente ficam na memória, como aquele que encerra o livro chamado Escrever pode Matar, escrito do ponto de vista feminino, repleto de ideias fortes e melhor articuladas numa estrutura excelente. Redime qualquer fulgor que as crónica percam ao decaírem do minete para a versão shakespeareana dos conselhos da revista Maria.

Fado, Samba e beijos com língua (Hugo Gonçalves)
Clube do Autor
1ª edição - Abril de 2011
208 páginas
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Hugo Gonçalves
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