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sexta-feira, 29 de junho de 2012

A curiosidade que nos engana

No segundo livro desta saga destacava-se algo que não acrescentava nada ao que pretendia dizer na crítica que então escrevi, mas que agora recupero: as referências cinematográficas que relembravam muitas vezes a origem visual da obra.
Eram detalhes que acrescentavam uma certa dinâmica graças às memórias que evocavam. Memórias de outras formas narrativas que influenciavam o estilo (ou, pelo menos, a sua percepção pelo leitor).
Havia referências directas - a Goldfinger, por exemplo - mas, sobretudo, a combinação de detalhes que davam ideia do que o texto estava a emular - um assistente chamado Ripley ajudava com a autópsia de um ser da Nova Raça que tinha visto uma criatura romper-lhe pelo peito.
Neste terceiro livro essas referências tornam-se tão raras que por pouco não dei apenas com aquela que é directa e relativa a Rebecca de Alfred Hitchcock.
O filme é tenso e assustador, vivendo de uma excelente atmosfera. Pode ter sido aqui incluído como sugestão de como o texto deveria passar a imagem (mas não se sente que isso pudesse ter sucedido).
Mas a escassez desse género de referências evidencia um mal que já referenciara antes, o sempre crescente número de personagens novas acrescentadas à história, protagonistas de eventos intermédios que nunca deixam o leitor desocupado.
Isso impede que chegue a haver personagens centrais sólidas que se possam recordar ou que sejam dadas explicações que se possam saborear por mais dúvidas que levantam. Sobretudo porque o esquema continua sem abrandamentos numa fase em que a história deveria estar em trajectória de conclusão.
O livro é frenético na maneira como não quer deixar o leitor pensar as suas possibilidades - e ver as suas falhas, suponho - o que o torna maníaco no estilo de invenções sucessivas da degeneração que as criaturas de Vitor Helios vão sofrendo no caminho para o seu declínio.
A coerência é muito menos importante para Koontz do que uma tentativa de demonstrar algum do virtuosismo da sua imaginação.
Virtuosismo que se fica pela aparência do que seria possível sem o levar aos seus verdadeiros limites.
Demonstrá-lo é fácil por via de um casal da Nova Raça que ele criou, Janet e Bucky - e são sempre algumas das personagens secundárias que se destacam como provas de imaginação que poderia ter dado origem a uma história melhor e mais focada, como já com Randal e Erika anteriormente. São um casal de assassinos que se desnuda para banhar na carnificina, mas o traço mais interessante da sua personalidade é o facto de terem encontrado para essa execução no (irritante) Dr. Phil a sua motivação mais profunda: estabelecer um conjunto de valores pessoais.
Proibidos de matar senão no momento determinado pelo seu criador, os dois acabam por ser os defensores imorais do livre-arbítrio contra a designação do plano superior. Mas o tipo de questões que essa sua forma de existência poderia levantar perde-se no momento em que se envolvem em confrontos com os detectives da saga.
Mas nem é por aí - já sabíamos que eles estavam condenados e todas as criaturas, à sua maneira, estão a contestar o mestre - que a imaginação de Koontz se mostra superficial.
Koontz diz do casal que mata com um requinte de malvadez gráfica que nem filmes série Z conseguem imitar sem, por uma única vez, tentar dar uma ideia desses métodos.
Só mesmo com Frankenstein é que o autor vai um pouco mais fundo, encorpando um pouco a qualidade de vilão e tornando-o numa figura humana por ligação à obra original.
Claro que, nos interstícios de tudo o que Koontz vai acumulando no livro, sobram poucas páginas para Deucalião (a criatura original) sobressair como anatagonista de Frankenstein tal como merecia, pelo seu domínio da Física Quântica concedido pelo relâmpago que o animou ou pela sua angústia humana perante a origem criminosa dos pedaços do seu corpo.
Não é livro em que a acção possa dar lugar ao pensamento. Precisa de estar sempre a lançar o próximo passo até mesmo na última página, com o cliffhanger para o que seria uma segunda temporada. Segunda temporada a que não aderirei e que precisava de ser cancelada.
Não posso dizer que não estava já preparado para vir a encontrar um resultado final assim... desapontante de falhado... neste trabalho de Dean Koontz. Mas o conhecimento prévio da Criatura e do Criador - sobretudo nas versões de Mary Shelley e James Whale - e a inevitável curiosidade de saber como iria terminar a história fizeram-me ignorar quaisquer pressentimentos que pudesse ter.
Deixei-me levar pelo meu lado humano e pelos interesses pessoais que sustento há muito, mesmo quando desfasados da evolução do gosto. Não creio que seja a última vez, espero apenas que não acabe da mesma maneira.


Frankenstein - Morto e Vivo (Dean Koontz)
Contraponto
1ª edição - Fevereiro de 2012
248 páginas

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O miolo, finalmente

O segundo volume na saga de Dean Koontz é um livro superior ao que o primeiro livro faria supor.
Com o cenário e as personagens centrais estabelecidas, Koontz vai atrás da complexidade que se reconhece a Frankenstein, explorando as fronteiras ténues entre genialidade e loucura e entre humanidade e monstruosidade.
Só que, durante a maioria do livro, o Monstro não está em cena, nem sequer é referenciado. A história segue os dois detectives e uma quantidade crescente de personagens secundárias, o que obriga a olhar para o facto de que o recurso aos personagens de Mary Shelley são uma forma de poupar páginas de contexto e de apanhar os leitores já a meio caminho do conhecimento das personagens.
Esta saga poderia (deveria, até) ter sido uma construção de raíz de um universo novo, o que a pouparia às comparações sistemáticas.
Essas considerações mais alargadas sobre a natureza da saga são inevitáveis, creio eu, mas depois de se aceitar a dose de aproveitamente comercial envolvido,volta-se à constatação inicial de que este livro tem mais substância do que o anterior.
Sem dúvida que este é o miolo da história, mesmo que continue a acrescentar mistérios e personagens cujas correspondentes narrativas só ficarão resolvidas nos próximos livros.
Aqui a expectativa toma o lugar dos eventos o que levará a que o progresso na intriga pareça estagnado. Isso é bom para o trabalho do escritor, mesmo se (especulo eu) seja mau para a maioria dos leitores que desejam saber o que acontece.
Para ele, o interesse geral é mantido com a adição de uma figura guardada num tanque com forma de caixão e de uma criatura ainda por revelar que vive em túneis debaixo da lixeira onde Victor Helios se livra dos cadáveres que a sua actividade vai deixando pelo caminho.
Mas são as criações de Helios menos resguardadas pelo mistérios que transformam realmente o livro. Randal Seis e o padre confessor de Helio transitam do volume anterior e a ele juntam-se o casal de assassino Benny e Cindi.
Este conjunto traz ao livro uma reflexão sobre a necessidade de conciliação que é inata ao ser humano e que surge mesmo perante a construção de uma distopia baseada em máquinas biológicas desprovidas de sentimentos.
Mas a busca pela felicidade de ter o acolhimento de uma mãe, de ter uma crença superior às funções primárias ou de ter a responsabilidade da maternidade são complementos naturais a uma vida desenhada para servir propósitos de lógica purgada de tudo o resto.
São, mais ainda, instintos benignos que surgem numa população cujo único instinto primordial revelado até aí é o da violência.
As criaturas têm um gosto pelo assassinato - mesmo assim reservado apenas a alguns e por ordem estrita de Frankenstein - e pelo sadismo da morte ritualizada - por parte da população das castas mais baixas da nova espécie que desmembram os cadáveres para satisfazer brevemente os instintos de morte.
A ignorância de um dos dois extremos inatos à condição humana é o fundamento do falhanço anunciado das perspectivas de Victor Helios. Esse elemento, um inimigo com igual potencial ao de Deucalião, é o que dá vigor a uma saga que deixara dúvidas.
Este miolo da história de Koontz, não sendo totalmente original, é bem vindo. Só não faz sentido que só surja num segundo livro, pois seria mais lógico que Koontz tivesse saltado a perseguição a um serial killer do primeiro volume para começar desde logo a construir o grande vilão da saga e a mostrar as falhas nos seus planos de domínio do mundo.
Com isso teria, também, evitado adicionar tantos elementos à história que obrigaram a ter de alongar a trilogia para cinco livros de forma a resolver todas as pontas soltas.


Frankenstein - A Cidade das Trevas (Dean Koontz)
Contraponto
1ª edição - Setembro de 2011
256 páginas

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Frankenstein, mais de nome do que de essência

As mais recentes e modernas encarnações do monstro de Frankenstein de que tenho tido conhecimento têm surgido através de banda desenhada (por exemplo, Seven Soldiers of Victory) em que o monstro assume o nome do seu criador e existe ainda incompreendido mas sendo uma mais valia para o mundo.
Aqui a sua existência continua a revelar-se como a de um herói - na medida possível em que um monstro o pode ser - e que agora assume um nome, Deucalião ou não fosse ele o filho do Prometeus moderno.
Victor deixou de rejeitar as suas criações para passar a usá-las como peões para a sua distopia futura em que se assume como ditador de uma obediente raça nova. E o nome que dá às suas criações é meramente funcional, pois mesmo humano - Erika ou Randall - vem seguido de um número que os contabiliza e os deixa saber não serem mais do que um passo intermédio da experiência em curso.
Montado este cenário, Dean Koontz consegue cruzar referências do romance original a elementos de thrillers e neo-noirs de décadas recentes. Pelo caminho acrescenta ainda várias citações ao género em que Frankenstein foi pioneiro, sendo a retransformação de algumas das ideias de Asimov a mais evidente.
Estamos longe da romântica reflexão sobre a Humanidade de Mary Shelley ou a humoradamente subversiva visão da sociedade de James Whale.
Esta é uma trama de acção e mistério a caminho do confronto entre criador e criatura, com as intromissões que pelo caminho se exigem para que o embate não surja demasiado cedo.
No fundo Koontz traçou uma misturada de elementos que resumem várias décadas de elevada criação a um formato mais fácil e atractivo para o público generalista moderno.
Afinal esta é a segunda vida de um projecto televisivo e, sem dúvida alguma, há uma construção que serve a renovação do interesse na trama de curto prazo enquanto a trama maior se desenvolve lentamente.
Nota-se isso mesmo naquela que, desde logo, tem de ser a grande queixa a fazer ao livro: os capítulos curtos que não parecem precisar de estar assim pensados, mesmo sendo esta a a versão livresca de um projecto por episódios.
A história tem de seguir personagens desirmanadas em direcção a um momento de inevitável agregação das suas histórias.
Os eventos policiais que constituem um arco narrativo fechado neste primeiro livro da trilogia são mais interessantes do que são produtivos para a composição das personagens. Pelo menos para as personagens de Deucalião e Victor, que se esperam terem o protagonismo que a sua longuíssima relação de antagonismo exige.
O efeito é cativante, apesar de tudo, sobretudo por culpa de Randall Seis, uma estranha personagem cuja vida interior molda o seu comportamento no exterior do mundo com menos restrições morais e mais foco em elementos que raras vezes preocupam os autores ou até mesmo a vida quotidiana dos leitores.


Frankenstein - O Filho Pródigo (Dean Koontz)
Contraponto
1ª edição - Janeiro de 2011
304 páginas