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quarta-feira, 30 de novembro de 2016
quinta-feira, 23 de julho de 2015
O eterno desconhecido
O Animé e o Manga são motivo de fascínio para quase todos, mesmo que se resuma às obras dos estúdios Ghibli.
Por isso esta partida para o Japão de Peter Carey em nome da comunhão com o seu filho dos códigos dessas expressões artísticas só pode ser uma escolha de leitura imediata.
Decisão reforçada, no caso pessoal, pelo facto de ser este um escritor pelo qual nutria um interesse já longínquo. E bastou um capítulo para reconhecer o talento que sempre vi ser-lhe gabado.
Carey é um ocidental inteligente no Japão, com ideias próprias acerca do que vê nos filmes e nas séries Japonesas.
O seu espírito vai disposto à descoberta mas já contaminado por uma vontade de reflectir.
O embate é imediato, descobrindo ele que em parte a sua visão das ligações do subtexto de Blood - O Último Vampiro (a boa tradução devia ter-se esmerado em procurar os títulos nacionais das obras) não passa de um erro de conhecimento da Língua Japonesa.
Depois virão as discussões sobre Mobile Suit Gundam em que Peter Carey projecta muitas visões sobre a guerra que lhe vão sendo sempre rebatidas.
Em vez de um grande significado de memória pós-Guerra a série foi feita para vender robôs de brinquedo.
Em vez de representar o isolamento das crianças em tempo de guerra, quando estas pilotam os seus robôs estão no ventre materno, protegidos mas também sensíveis ao impacto exterior.
Torna-se evidente o enorme problema de comunicação entre povos. Quase impossível perscrutar a cultura Japonesa, também porque eles se recusam a desenvolver as suas ideias perante o autor - respostas lacónicas ou simples negações das ideias que Carey já traz consigo.
Ao rever O Meu Vizinho Totoro com alguém que lho possa comentar, o resultado só reforça tal percepção. A sessão termina com apenas um terço do filme visto e com, adivinha-se, muito mais comentários do que aqueles relatados.
O que descobrimos é que só uma vivência profunda do Japão nos permite entender tudo o que se mostra nas imagens e que está escondido apenas para quem não tem os códigos culturais de leitura.
No entanto o livro deixa também a certeza que é justo que se coloque nestas obras a nossa deslocada experiência. Afinal Hayao Miyazaki diz ao autor que o mais importante é a imaginação e se esta desenvolver para lá dos significados que o realizador imputa, tal não deverá estar errado.
Peter Carey não se limita a Animé e o Manga. Visita e escreve sobre Kabuki, forja de espadas ou a dificuldade em definir otaku.
Isto torna a experiência mais rica e reforça a ideia de que o Japão continuará, de forma transversal, uma incógnita para forasteiros, por mais que o estudemos.
Em contraponto e complemento, o livro de Porfírio Silva é bastante mais detalhado na descrição de conceitos e eventos Japoneses.
Um guia que vai da religião à política ou que se preocupa com os ínfinos detalhes de como se prepara uma refeição transportável.
Trata-se de um guia encaminhador e facilitador por quem teve tempo de começar a viver o Japão e não apenas de percorrê-lo.
A parti de um ponto o autor já tem até a percepção dos detalhes sociais - transportes ou sanitários públicos - e interroga-se acerca das regras (escritas ou não) lá assumidas e que fazem pouco sentido a um ocidental na sua discrepância interna (de sensibilidades) quase irreconciliável.
Isto vai de encontro à descoberta feita por Peter Carey e, por muito que Porfírio Silva experimente e nos transmita as vivências locais, estas estão limitadas.
Um teatro Kabuki tem legendagem inglesa para que os restantes não sejam invadidos por estrangeiros.
Partes dos rituais religiosos têm folhetos em diversas línguas para que as restantes componentes sejam preservadas.
Parece evidente que nesta abertura controlada a visitantes os Japoneses resgauardam a sua existência e identidade.
Creio que a introdução aqui conseguida é já causa de um olhar enriquecido que dificilmente teríamos de outra forma. Infelizmente as fotogradias que acompanham o texto não estão tratadas com a qualidade necessária - do tamanho de reprodução ao enquadramente.
As referências à robótica - parte do trabalho do autor - são interessantíssimas e deixam a vontade de leituras (técnicas) adicionais pois o tema já tem sido escrutinado dentro e fora da ficção e tem com Porfírio Silva um importante grau de aprofundamento.
O facto da abordagem à robótica no Japão ser tão singular deverá servir como mais uma porta de entrada para o mistério que é o Japão.
Mesmo se, como disseram a Peter Carey, metade do conhecimento é pior do que a incompreensão total, não se pode deixar de tentar saber mais sobre o Japão.

O Japão é um Lugar Estranho (Peter Carey)
Tinta da China
Sem Indicação da edição - Setembro de 2010
176 páginas

Caderno de Tóquio (Porfírio Silva)
Esfera do Caos
1ª edição - Abril de 2015
224 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Esfera do Caos,
Peter Carey,
Porfírio Silva,
Tinta da China
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Um sítio familiar aonde nunca fomos
Um livro de viagens costuma ser o relato da partida ao encontro de um local desconhecido ou o relato do reencontro com um lugar de fascínio.
Este livro de Brendan Behan é algo de muito diferente, um conjunto de crónica pessoalíssimas de quem não só habita Nova iorque como é parte da cidade.
O seu texto é um delírio de memórias, sobretudo de eventos regados a álcool e repletos de personagens da fauna mais marcante e/ou bizarra da famosa cidade.
A combinação da narrativa na primeira pessoa com uma energia vinda da oralidade - como Vilas-Matas nos revela no prefácio - dá ao relato o poder de um êxtase.
A verdade é que o leitor não fica fascinado pelo cenrário que lhe é descrito, sente-se a vivê-lo.
Parte desse efeito deve-se à própria cidade, um antro fascinante, eterno desconhecido mas com uma familiaridade facilmente criada.
Só que esta não é uma cidade que se destaque pelos seus monumentos de excepção ou por uma beleza a cada esquina.
Antes pelo contrário, entre algumas luzes fortes são os traços negros encobertos ou vividos em privado que lhe aumenta o poder sobre quem a olha.
O que a distingue acima de tudo são as vidas que se destacam no seu interior, sobretudo as que estão repletas da boémia que conduz ao génio criativo.
Brendan Behan encontrou-se, confrontou-se e entendeu-se com boa parte dos que deram (a sua) vida a Nova Iorque, daí que esta sua crónica seja tão intensa num jogo de tirada e resposta entre ele e as figuras fasntásticas com quem ele se cruza.
A Nova Iorque de Brendan Behan é parte tenebrosa, parte resplandecente, e tão mais interessante por isso.
É a Nova Iorque em que parece haver uma tão precisa confluência das pessoas ao longo dos bairros de encontro ao escritor que a cidade parece a sua aldeia em que domina pela sua notória indiferença para tudo o que não seja o seu próprio interesse.
Com ele vagueamos pela realidade que vai de Greenwich Village à Bowery e ficamos convencidos de que somos capazes de associarmo-nos a pessoas que nunca conhecemos e responder-lhe com uma elevada dose de snobismo de verdadeiros nativos de Nova Iorque.
Com o livro a ter sido escrito pelos corredores do Chelsea Hotel, ele é o que o próprio mostra da sua cidade, uma criação bêbada e genial feita no local onde as grandes personalidades vieram descobrir Nova Iorque e acrescentar-lhe o poder dos mitos gloriosos e tombados.
Como Vilas-Matas o disse no prefácio melhor do que eu o tentei aqui, este livro deixou em mim uma estranha saudade de bares onde nunca entrei.
Esta Nova Iorque é de todos nós, que nunca lá estivemos nem poderemos estar.

Nova Iorque (Brendan Behan)
Tinta da China
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
152 páginas
Etiquetas:
Brendan Behan,
Crítica,
Tinta da China
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Provérbios dos diabos
Será a linguagem o que mais leitores lembrarão deste livro, com a livre adaptação do narrador a cada conjunto de personagens que, por si sós, já fazem um uso abundante do vernáculo tal como ele existe dentro de casa ou no meio da rua.
A linguagem é bela, não haja dúvida, por existir já no limbo do arcaico (embora não devam ter passado mais de uma mão cheia de décadas sobre os últimos usos das melhores das expressões) que, por tal distanciamento, se torna novidade.
Esses traços da linguagem são apenas os necessários para tornar as personagens retratos verosímeis. Mas retratos verosímeis dos malandros literários e não dos que existem na nossa pátria.
Por cá já nenhum é assim tão manso e tão matreiro. A violência substituiu a falinha, a cara tapada substituiu o disfarce aprumado.
Estes malandros literários - e malandros são eles todos, protagonistas do livro, que de uma ponta a outra não merecem senão censuras - correm para uma trama da qual as telenovelas, os romances de cordel ou os artigos de pasquim estão mais habituados a ocupar-se: um idoso com dinheiro no banco é o alvo de um grupo de burlões e de duas filhas com sonhos de viajar.
Seguindo de episódio quotidiano para momento de azelhice, os intentos de cada grupo esbarram nas dificuldades próprias de um país onde até para fanar ou herdar os empecilhos são mais que muitos.
O mundo criminal também tem burocracias que não ficam no papel, como ser filhas tem preceitos que não se aprendem em parte alguma.
Daí tantos falhanços e tantos meios entendimentos para as quais a estrutura em pequenos blocos de acontecimentos que nos atiram para diante, como atiram os personagens ora com uma palmadinha nas costas ora com um pontapé no rabo.
Adianto, sem medo de revelar nada que não se adivinhasse, que tudo caminha para um brilhante falhanço onde o velho não cumpre o seu papel de vítima na perfeição.
O dinheiro passou a expectativas goradas à medida que os malandros fugiam aos guiões estabelecidos.
Guiões dos quais todos têm de dividir os créditos com a sociedade que molda
Não há quem escape a ser censurado no final, o velho que desconfia tanto da família para se dar a familiaridades com desconhecidos; os trafulhas tão afoitos nos seus planos com as suas limitações aventadas; e as filhas desejosas de outra vida tão desantentas a como criar uma relação com o pai.
Como não há quem escape a ver desfazer-se o seu sonho, a única recompensa possível para o ridículo de cada uma destas gerações que se põe a jeito de serem comentadas em público e expostas ao ridículo.
Se o título do livro faz uso de um provérbio, uso eu outros dois para concluir esta visão do livro, onde vemos que, de facto, todos os diabos são parecidos e é pouca a sorte que têm quando se aventuram por caminhos do alheio. Afinal de contas, os diabos que por aqui andam têm sempre um diabo maior vigiando, nem que seja o diabo do acaso da vida que nunca deixa a sabedoria popular por cumprir: o diabo dá com uma mão e tira com as duas.

Quando o Diabo reza (Mário de Carvalho)
Tinta da China Edições
1ª edição - Outubro de 2011
170 páginas
Etiquetas:
Crítica,
Mário de Carvalho,
Tinta da China
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