quinta-feira, 12 de março de 2009

Isso é uma revista sobre o quê?

Tenho percorrido incessantemente as livrarias, papelarias e quiosques de Lisboa em busca da revista Os Meus Livros deste mês de Março.
Cada revista traz um livro (de entre vários de uma lista) de oferta e eu estou à procura de um em específico que teima em me escapar.
Nessa demanda, entrei numa papelaria tão apertada quanto movimentada.
Como sou preguiçoso e não tenho um gosto masoquista por levar encontrões, perguntei à "menina da caixa" Tem a revista Os Meus Livros?.
A sua resposta, num português acentuadamente nascido no Brasil, foi Mão livres?.
Eu lá repeti, mais pausada e soletradamente Os Meus Livros!.
Ela virou-se para a outra "menina da caixa", esta falante de português de Portugal, perguntando-lhe pela revista.
A resposta recebi-a eu, Isso é uma revista sobre o quê?.
Quando olhei para ela, senti a minha cara contorcer-se com o enorme espanto de pura incompreensão.
Respondi-lhe o mais delicadamente que consegui fingir Sobre livros! quando na minha mente a resposta ia mais na linha do Mas você é completamente burra?.
(Espero que ela não tenha percebido pela entoação a resposta que deixei muda na minha mente, que eu não gosto de insultar as pessoas, nem sequer nos confins da minha mente.)
Finalmente lá me disse que não recebem "disso".

O que se passará neste país?
Que não se lê já eu sei bem, mas que haja este desprezo por uma revista com base no seu tópico é muito mais gravoso.
Os outros não têm direito a ler a revista?
Se ninguém a apresentar ao público, como saberão se alguém se interessa por ela?
Mas, claro, o mais chocante de toda esta história é a gritante incapacidade de se associar um tema de uma revista ao seu título.
Será que Os Meus Livros divide a mente de uma pessoa entre Cultura e Culturismo?
Ou será que se eu perguntasse pela revista Caça e Pesca, a "menina da caixa" me perguntaria igualmente de que tratava a revista?
É certo que eu, preguiçoso físico, poderia ter vasculhado a atafulhada papelaria em busca do 1/4 de capa de revista que fica exposta ao público.
Mas não merecia, também, ser recompensado com tamanha preguiça mental.



























Site da revista Os Meus Livros: http://www.oml.com.pt/

sábado, 7 de março de 2009

Escritores de Sofá


No início deste ano, encontrei um exemplar do número 27 da revista 365 abandonado numa livraria, esquecido entre revistas de muito maior porte (pelo menos no que ao formato diz respeito).
Teve de ser meu, finalmente indo ler a revista que até então apenas conhecia de reputação.
Mas talvez fosse o fado desta revista voltar a ficar esquecida até que me decidi a levá-la comigo para ler na viagem que me leva de casa ao trabalho.

O volume reune uma série de escritores, relativamente desconhecidos do público geral - onde desde já me incluo - ou ainda mesmo por editar e descobrir, em torno de um tema único, "Amor de sofá".
A par disso, dá lugar a dois excertos das obras que Mia Couto e José Eduardo Agualusa estão actualmente a escrever, duas pequenas narrativas de José Luís Peixoto e Rui Manuel Amaral e dois poemas de valter hugo mãe e Rui Lage.

Começando por estes últimos, sem dúvida que o mais interessante são os dois excertos dos escritores africanos.
Apesar de não permitirem qualquer dedução sobre os seus novos trabalhos, funcionam quase como pequenas narrativas e deixam o desejo concreto de seguir lendo.
Mais interessante ainda, de futuro, será comparar a versão final editada com a que agora se apresenta, então sim encontrando pontos de evolução na revisão do trabalho dos seus autores.
Uma pequena lição de escrita que aqui se cria, portanto.
Já sobre José Luís Peixoto e a sua "Biografia de Borges", é um exercício de metalinguagem reflexiva escrito em torno de um encontro com um Jorge Luís Borges de Vila Franca de Xira. Nem chega a ser uma curiosidade, esta narrativa e, sinceramente, depois de Nenhum Olhar, não consegui voltar a encontrar uma narrativa sua que me fascinasse, nem mesmo as suas crónicas no Jornal de Letras.
Já o jogo d' "Os espelhos", de Rui Manuel Amaral, é inconsequente e fatídico.
A ironia de "A origem da vida ensinada às criancinhas nos E.U.A" de Rui Lage e a reflexão sobre a memória e a ligação física a meras imagens de "a capa do meu último livro" (valter hugo mãe) são, felizmente, mais gratificantes.

Quanto ao núcleo sobre amor no sofá, como naturalmente seria de esperar, o desequilíbrio de qualidade (ou interesse) dos contos é natural. Destacaria alguns.
"O Amante" de Luísa Cardita, um jogo de sedução (manipuladora) do leitor muito bem trabalhado. Sem dúvida o melhor de entre todos
O perturbador - porque reconhecível - nonsense de "Leonel" de Pedro Santo.
Miguel Marques constroi em "A noite traz luas e fantasmas" a estranheza de uma saudade que pode ser um retrato sincero de uma vida moderna.

A 365 tem ainda uma componente visual complementar aos contos que apresenta.
Dos jogos de imagens - fotos e ilustrações - com os respectivos textos ou com a ambiência da revista têm, também, resultados inconstantes, mas quase sempre interessantes.
Isto, também, porque a vida das imagens consegue ser muito mais independente.
Destacaria, no entanto, as ilustrações de Alex Gozblau (a quem pertence a imagem que abre esta crítica e que acompanhava o excerto do trabalho de José Eduardo Agualusa) que enriquecem, sem excepção, os contos a que se unem.



















Revista 365 #27 (vários autores)
Novembro de 2008
48 páginas

sexta-feira, 6 de março de 2009

Dramaticamente suave

Ann Pratchett não tem coragem de sacrificar as suas personagens.
Ou, pelo menos, de o fazer perante o leitor.
As mortes que ocorrem em O Legado são todas numa espécie de off screen, suavemente ocultas dos olhares mais sensíveis.
As situações tendem a surgir quase definidas por um Destino condescendente, que as encadeia na necessidade de seguir um caminho que seja surpreendente, mas que pela sua própria definição é previsível (embora possa admitir que tantos anos a ler policiais me tenham aguçado o olho clínico para as indicações lançadas).
As ligações destas personagens acabam por "milagrosa coincidência" completar um círculo perfeito, que tem um final feliz (levemente) disfarçado.
Fundamentalmente, há menos vida nestas personagens do que subserviência a uma ideia que a autora quer transmitir.

Há temas importantíssimos que afloram.
A fé e a estranheza do seu "nascimento" e da sua "morte".
A pertença - emocional e social - do indivíduo.
A liminar solidão dos que se sacrificam.
A condição sempre estranha das relações entre pais e filhos.
Mas O Legado está escrito com tal suavidade de estilo - que parece feita para seduzir e nunca chocar o leitor - que não consegue macerar os temas ou as personagens que a eles estão submetidos.
Em vez disso rende-se ao facilitismo de saltar de forma - do realismo descritivo à ambivalência do delírio às portas da morte - para concluir o tal círculo (como a expressão inglesa melhor recria, to come full circle).

O Legado vive na eminência do melhor território dramático mas teima em não atravessar a sua fronteira.
Esse é o seu próprio drama, de ser agradável de ler mas, afinal de contas, se mantenha por concretizar na sua significância.
O leitor tem o direito de se ressentir de insatisfação.



















O Legado (Ann Pratchett)
Civilização Editora
1ª Edição - Julho de 2008
236 páginas

terça-feira, 3 de março de 2009

A inolvidável sede de viajar

Há uma constante surpresa ao longo das mais de 400 páginas de O Viajante Cego.
Não que ela seja propositada, muito menos que seja culpa do próprio livro.
O Viajante Cego está deliciosamente escrito, tão fluído e sedutor que é capaz de fazer a delícia de qualquer leitor.
Por isso é tão fácil embrenharmo-nos nele ao ponto de sistematicamente esquecermos que se trata de uma narrativa biográfica e não um romance, voltando a ser surpreendidos sempre que uma (breve mas pertinente) nota sociopolítica surge.

James Holman (na imagem) foi um viajante compulsivo.
A sua existência mirrava se tinha de ficar parado.
Ele foi o mais intrépido viajante que alguma vez viveu.
A sua cegueira apenas o tornou mais engenhoso, não menos intrépido nem menos determinado.
Mas levou-o também a ser uma figura simultaneamente curiosa e contestada.
Charles Darwin, por exemplo, prestou-lhe o devido tributo, por ter desbravado algum do território que ele haveria de estudar.
Mas os críticos do seu tempo contestaram os seus relatos visuais baseados nos relatos e nos mitos de cada lugar.

A aventura intrépida e inusitada que representa toda esta vida, carregada de angústias, de humor, de tristeza e de incertezas, é um rasgado elogio (não declarado) ao Espírito Humano.
Mas, sobretudo, ao homem que se propôs tão simplesmente a percorrer o mundo desprovido de quase tudo.
E, fazendo-o, dar depois ao mundo o conhecimento que lhe faltava.
Ele, que deveria ser sustentado, protegido do mundo exterior, foi quem mais o desafiou e quem mais retribuiu a um mundo que muitas vezes não o saberia acolher.

O que no final sobressai ainda acima de tudo isto é o sentido de desafio deste relato.
Que um cego faça tudo o que Holman fez é de uma força a toda a prova, mas que o faça apenas para confortar o seu próprio "espírito inquieto" é ainda mais importante.
No fundo, se estivermos dispostos a ver exactamente que vida foi esta, vamos perceber que aquilo a que ela nos desafia é a mais do que enfrentar as nossas limitações, a não aceitarmos a que os outros nos impõe ou, pior, a não aceitarmos o nosso próprio contentamento.
Um livro imprescindível que nos devolve uma figura verdadeiramente mítica!



















O viajante cego (Jason Roberts)
Casa das Letras
1ª Edição - Abril de 2008
450 páginas

domingo, 1 de março de 2009

Jogos de imaginação


Quando pegamos num livro para o folhear porque à sua volta nada mais há a fazer, não esperamos uma surpresa deste tamanho.
Sim, trata-se de um livro infantil, mas notável.
Aqui constroiem-se jogos de palavras, de sentidos, de intersecções e de figurações.
Se preferirem, são jogos de imaginação, onde as palavras e as imagens puxam pelas possibilidades imensas da mente na sua singularidade e inventividade. Logo depois, unem-se as palavras às imagens e as suas possibilidades crescem e multiplicam-se.
Na imaginação de uma criança, estes pequenos mundos delirantes que se criam (e delirantes é bom, entenda-se!) devem ser pequenas pérolas e se um adulto estiver na disposição de lidar com elas, então encontrará também uma pequena maravilha.
O livro entrou, muito merecidamente, no Plano Nacional de Leitura, para os alunos do 5º ano, mas sinceramente acho que ainda crianças mais novas o deveriam ler. Quanto mais livre a sua imaginação estiver de amarras modernas e formatadas, mais apreciarão os pequenos mistérios de Letras e Letrias!



















Letras e Letrias (José Jorge Letria e André Letria)
Publicações Dom Quixote
1ª Edição - Abril de 2005
60 páginas