segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

À procura de fôlego

Este livro é uma revelação do potencial de Pedro Vieira e, na mesma medida, do seu desencontro com a matéria ficcional que lhe será mais apropriada.
Há um estilo já definido no trabalho de Pedro Vieira, um em que ele se aproxima da metalinguagem.
O autor imiscui-se na vida das suas criaturas, falando do universo que está para lá delas e procurando o jogo referencial que permita a expressão do seu processo e até algumas graças por conta da sua intervenção omnipotente.
Tudo isto funciona melhor em relatos breves e, por isso, os capítulos assemelham-se muito a crónicas em que a ficção e a realidade se misturam em serviço da arte de quem escreve.
Os personagens acabam mal servidas, incapazes de evoluir porque não há uma visão estrutural para o desenrolar do livro,
Há a história de um romantismo trágico que traz para os subúrbios de Lisboa uma chama da grandiosidade sentimental Russa.
As histórias individuais no seio da história do livro tentam convocar tudo o que caracteriza o Portugal dos anos 1980 até hoje, numa mistura do pior que, inevitavelmente, copiámos do resto do mundo e do que já era intrinsecamente nosso e nunca mudará, para mal dos nossos pecad(ilh)os.
Só que a tentativa de retrato do subúrbio para estabelecer uma ideia do Portugal das últimas décadas acaba por levar a que os episódios prevaleçam sobre a coerência humana dentro do romance.
Ou talvez seja das ideias empoeiradas essa falta de dimensão dos personagens, tornados em arquétipos porque a grandiosidade romanesca não consegue resgatar nada do que está no interior de lugares-comuns sobre os subúrbios.
Poderá ser uma conclusão errada, mas os subúrbios não parecem ser o domínio de Pedro Vieira, que parece antes conhecê-los de ideias repetidas ao longo dos anos.
As histórias que ele ouviu de lá originárias acabaram por criar um cenário mítico de falhanço onde ele acreditou poder reinterpretar a Literatura e a Portucalidade.
A tentativa pode bem ser meritória mas não foi aqui que o autor o conseguiu.
Como treino para o seu estilo e uma aproximação a um trabalho de fôlego longo pode, pelo contrário, ter sido um sucesso.


Última Paragem, Massamá (Pedro Vieira)
Quetzal Editores
Sem indicação da edição - Fevereiro de 2011
208 páginas

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Mal digerido



Este é um livro de curiosidades que vale pela sua premissa, de falar da História a partir do ponto de vista dos pratos que a acompanham.
Promissor e apelativo, como o título que os autores escolheram, num tom de leveza que, no limite, permite fazer conversa à mesa depois da preparação da receita.
Parte do livro responde a essas expectativas mas a selecção de receitas tem problemas por entre as opções justificadas.
Desde logo porque esta não viaja bem para fora da Suécia, com vários acontecimentos cuja importância não atravessa a fronteira.
São cinco receitas (não conto com a refeição servida quando Marie Curie foi receber o seu segundo prémio Nobel) e não creio que alguém manifeste interesse no que os ABBA comeram para celebrar ganharem o Festival da Eurovisão, o que foi servido na boda dos reis da Suécia, que escolha alimentar garantiu à Suécia o seu primeiro campeão mundial de boxe ou como tentaram alimentar as pessoas durante o assalto ao banco em Estocolmo.
Mesmo que a refeição que matou Eurico XIV possa ter algum interesse mais pela trama política que a "cozinhou", não faz falta ao livro.
As vistas curtas acerca do potencial de edição deste livro fora do país dos seus autores não é o problema maior do conjunto de receitas.
Falta lógica na inclusão do sumo que Michael Jackson bebia todas as manhãs ou a receita de sandes de atum que os Iron Maiden consomem e que se resume a pão branco, manteiga e atum em lata com a indicação para deixar cada um prepará-las por si mesmo.
Sobretudo considerando que na introdução se afirma que ao longo do livro a comida está num patamar secundário de um conjunto de acontecimentos entusiasmantes, excitantes e grandiosos.
Raros são os acontecimentos que justificam tal profusão de adjectivos.
Muitas vezes os autores querem falar de algumas personagens históricas e para tal encontraram uma justificação.
Uma receita que Kurt Cobain deixou escrita num caderno ou a receita de Rosa Parks para panquecas são casos em que a comida nem elemento secundário chega a ser.
Saber o que foi servido como prato principal naquela que ficou recordada como "A Festa do Século" está bem mais perto do que o livro deve ser, caso para uma pequena resenha histórica onde a comida é capaz de despertar interesse à distância de tantos anos.
Pela extravagância que esperaríamos ver associada à festa queremos saber o que lá se comeu - e quem sabe se reproduzir para impressionar amigos. Mas a funcionalidade também desperta o interesse.
Saber o que comeram os alpinistas para atingir o topo do Everest ou o que permitiu a Charles Lindbergh cumprir com a travessia do Atlântico chama a atenção pelo que essas escolhas ajudaram a alcançar.
Saber qual foi a primeira refeição na Lua ou a última refeição no Titanic balizam o livro com patamares a que a maioria das escolhas não alcança.
Conclui-se que falta ao livro um critério de selecção coerente, mesmo que ora fosse a receita a dar importância ao acontecimento ou o acontecimento a tornar o prato então servido numa curiosidade.
Tal é mais penoso perante a qualidade do livro, um álbum de capa dura onde o cuidado é máximo para melhor servir a qualidade das fotos que tornam os pratos em verdadeiras estrelas.
Na composição das fotos há que destacar o cuidado colocado na reconstituição de um cenário que remeta para o contexto em que o prato foi consumido e cujos pormenores em seu redor revelem as pessoas que a saborearam.
Como na imagem que encima o texto, em que o gulache partilhado entre inimigos durante o Natal de 1914 surge servido nos materiais disponibilizados aos soldados entricheirados.
Um cuidado de dar vida aos pratos que culmina, curiosamente, na ausência de comida, com uma refeição de Ano Novo de François Miterrand que já só tem o guardanapo sobre o prato.
Afinal tratou-se de uma refeição tão decadente e politicamente incorrecta - uma rara sombria deve ser alimentada a figos para acabar afogada em Armagnac - que não deve ser cozinhada apenas para o efeito de ilustração. Além de que se pode entender neste guardanapo caído sobre o prato o esconder de uma certa culpa cujo gosto fica na boca depois de tal repasto.
Um travo amargo como o de imaginar o que este livro poderia ter alcançado se todos os pratos estivessem à altura das fotografias que os servem.


O Macarrão de Estaline (Jon Rönström e Anders Ekman)
Bertrand Editora
1ª edição - Novembro de 2015
146 páginas

sábado, 16 de janeiro de 2016

Não se vê Futuro

A distopia parece ter-se tornado num género banal como suporte - e atractivo - para qualquer intenção literária.
Com Samuel Pimenta não é diferente. Ele não está interessado em pensar o Futuro, o que ele quer é uma composição rápida e facilmente identificável do Presente.
Uma metáfora onde possa explanar as suas angústias e que não precise de mais do que uma fachada erguida a partir de ideias que já nada têm de original.
Sofre de uma falta de domínio do que cria, um mundo com trezentos anos de erradicação de nomes onde não se encontra um personagem (numa população de milhões, pelo menos) definida por um número com mais de quatro dígitos, ainda que nascidos com décadas a separá-los.
Daí resulta tão incosistente a lógica da tirania que o protagonista afronta onde se apagam os nomes das linhas de Metro mas se deixa o seu código de cores, que proporcionaria um nome oficioso para as mesmas e que com isso contraria a lógica da execução.
Uma confusão de elementos que podem parecer ter os mesmos resultados mas não comungam dos mesmo princípios de controlo.
Retirar os nomes a tudo - de países a pessoas - é de um domínio logístico avassalador que quer uniformizar o mundo para melhor o controlar por via de uma obediência corporativa.
Perseguir gatos vadios e as pessoas que os acolhem é de um grau muito mais específico e de um esmagamento cruel da afeição humana que é muito mais lógica para um domínio de nichos.
Perante esta variação, o problema está afinal em pensar que o autor quer falar sobre formas de controlo do indivíduo.
Não fará sentido tal já que, num mundo onde se incentiva a vigilância dos vizinhos, basta inserir o seu próprio número de identificação (ou o de outra pessoa, no caso de não se ter a permissão...) para aceder a qualquer pedaço de informação confidencial.
Esta falta de segurança seria tosca numa história situada nos tempos correntes. É ridícula numa visão de um mundo distópico e autoritário e ajuda a perceber uma falha mais grave do autor.
Enviar a história para um Futuro próximo em que tudo é muito similar ao mundo em que vivemos e com alguns elementos - pouco desenvolvidos - que o alteram é, ao contrário do que poderia parecer, uma revelação da falta de imaginação.
Por um lado o autor não consegue descolar do que conhece e com isso trazer alguma riqueza para a história de Um Nove Um Seis que torne o protagonista mais pertinente do que as falhas do mundo em redor.
No seu preciso inverso, foi incapaz de expressar as suas ideias como sintomas do mundo actual, numa história que pudesse acontecer connosco, em vez de fugir para uma realidade não sujeita a escrutínio de verosimilhança.
Não haverá melhor exemplo do que a equação de Deus que, numa visão redutora, parece só servir para que os seus seguidores cedam dinheiro e se mantenham em sossego.
A este vacilante Futuro junta-se o pouco investimento na trama, esquemática porque existe em função da parábola do indivíduo com que Pimenta quer caucionar os seus leitores para as vidas que levam.
Uma atrocidade quando isso resulta em cenas de má composição que só têm de levar a história por diante. Cenas imberbes, vítimas eventuais dos propósitos "filosóficos" do livro, mas que deixam a sensação de um certo desprezo pelo género: a inspiração não precisaria de conhecimentos adicionais.
Só que essa inspiração não é uma presença detectada ao longo de todo o livro. A abertura e o remate do livro lêem-se como tendo sido escritos em conjunto e à parte do restante.
Resultado de inspiração, o princípio e o fim do livro buscam uma verve poética que talvez os sirva bem tendo em vista o estímulo à reflexão a que estão destinados.
O resto do livro abdica dessa linguagem para obter uma de maior funcionalidade. Só que esta deixa claro o esforço de criação, tanto das ideias que constituem o miolo como da própria forma despojada que as expressa - e que parece pouco natural ao autor.
Ao acabar o livro ficou por apresentar ao leitor um Futuro. Ficcional, claro, mas também o de um escritor capaz de fazer de um género uma ferramenta adaptada às suas ideias.


Os Números que Venceram os Nomes (Samuel Pimenta)
Marcador Editora
1ª edição - Setembro de 2015
176 páginas

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Romance sob a luz de ETs

Sob a promessa de Ficção Científica vamos encontrar temas adolescentes, de entre os quais se destacam uma obsessão quase permanente pelas relações amorosas e a dificuldade do emparelhamento acontecer a contento.
Os personagens têm a idade correcta para tal, pois nestes mundos os autores encontram sempre forma de tornar os adolescentes nos protagonistas ou mesmo nos únicos sobreviventes mas perante um evento da magnitude de uma invasão alienígena apontada ao genocídio da raça humana, seria de esperar que as suas personalidades se alterassem ou, pelo menos, que os eventos acabassem por esmagar essas velhas prioridades.
Seria de esperar que Ben não passasse o tempo a tentar usar o seu sorriso sedutor para com a sua colega de "esquadrão de morte".
Sobretudo, seria de esperar que Cassie não acordasse depois de baleada e tivesse como sequência de preocupações "Onde estou? A minha arma? Alguém me viu nua!".
Cassie é a personagem que assume contornos de protagonista, embora não a acompanhemos durante todo o tempo.
Que ela seja a protagonista é um problema para Rick Yancey que, honestamente, não parece ser capaz de definir uma personagem feminina.
Ele começa por a definir como uma miúda no processo de ascender a Ellen Ripley, capaz de se decidir por matar um soldado moribundo à conta das dúvidas de que ele possa ser um alienígena.
Muito lá mais para diante ela parece dominada por um histerismo hormonal que pelo seu exagero deve ser o único meio que o autor vê a definição de uma rapariga.
Para quem matou um soldado depois de pouca hesitação, chegar a um ponto em que está a retirar estilhaços das costas de Walker e a sua grande preocupação é o rabo dele e não que ele seja um alienígena e assassino é sinal de uma clara degradação de personalidade que vem do facto do romance eminente ter mais importância do que o perigo eminente.
Não se trata apenas de Cassie, pois Yancey escreve os seus personagens masculinos de forma igualmente deficitária.
Em geral, neste mundo, todos se expressam de forma limitada e onde a linguagem internética toma o lugar de uma expressão séria das suas emoções ou da sua visão do mundo.
Uma tentativa de desculpar isso como sendo a mentalidade adolescente - mesmo que fosse, um autor tem de a transformar e melhorar - não consegue fugir ao facto da escrita de Yancey ser apenas funcional mas a tentar surgir como elaborada - como se tivesse de ser substancial porque tudo o resto não é.
Lamentavelmente o autor está longe de estar em controlo das suas próprias pretensões e a vazia procura de estilo acaba por chegar ao ponto de fazer o autor contradizer-se. Em parágrafos consecutivos! (Exemplo rápido: um personagem lamenta não poder ver a sua própria cara durante um certo evento para depois dizer que está a viver uma projecção de consciência.)
Com tudo isto nada disse da Ficção Científica. O pouco que há a dizer é que parece ser pouco desenvolvida a partir de um número reduzido de ideias que de original nada têm.
O desenvolvimento também era desnecessário pois as quatro anteriores vagas da invasão surgem apenas em referências rápidas como analepses para que não se possa acusar o Presente do livro de estar descontextualizado.
Aquilo que essas analepses deixam perceber é que os alienígenas, com a tecnologia ao seu dispôr, têm um plano pouco consistente para dominar o planeta.
Como se estivessem decididos a dar aos humanos uma hipótese de os derrotar... Ou como se a trama deste livro dependesse sempre de elementos de conveniência que a tornam inconsistente.


A 5ª Vaga (Rick Yancey)
Editorial Presença
1ª edição - Maio de 2015
400 páginas

domingo, 11 de outubro de 2015

Só se for anjinho

Mais uma daquelas histórias que formam teorias da conspiração em torno de uma mescla de elementos religiosos, arqueológicos, científicos e místicos, que consoante a imaginação do autor farão maior ou menor sentido aglutinados.
Javier Sierra parece conseguir unir os pontos todos ainda que eles estejam tão afastados quanto agências de serviços secretos e uma raça de anjos banidos para a Terra ou uma mulher com poderes místicos e velhas fotografias Russas da (suposta) localização da Arca de Noé.
Ele compõe tudo isto de forma a parecer coerente dentro dos seus absurdos pressupostos, o que é um feito mais limitado do que parece.
Problemático é o sofrimento a aguentar para descobrir isso: a execução do autor é péssima.
Recorre à constante mudança de perspectiva para manter o leitor na ignorância e assim escusa-se a encontrar as devidas ferramentas para um thriller - que este livro não é!
As perspectivas soam sempre ao mesmo, um narrador quase omnisciente de cada situação em que o personagem que lhe serve de ponto de vista está inserido.
Falta ao autor um sentido de ritmo que faça valer a trama como mais do que um esquema para descrições dos factos verídicos em torno dos quais ele ficcionaliza.
Essas descrições são interessantes mas raras vezes estão bem integradas na corrente de leitura, ao invés surgindo em situações forçadas que se tornam em palestras.
Um desses absurdos casos é o do casamento dos protagonistas em que o noivo chamou o seu clã para explicar à noiva a sua história - e como ela se integraria nela daí para o futuro.
Esta é apenas uma das situações em que ela é usada pelo marido para que ele atinja os seus fins sem que ela reaja de forma séria.
No final ela consegue mesmo convencer-se de que ele lhe deu uma experiência religiosa por puro amor ainda que ela tenha sido escolhida e seduzida para uma relação que servirá para ele (e os outros anjos) a treinarem de forma a que o seu poder os envie para casa ficando ela abandonada.
Uma de apenas algumas manipulações que tornam os personagens e a trama idiotas. O que por sua vez destrói qualquer curiosidade que os factos despertam.


O Anjo Perdido (Javier Sierra)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Outubro de 2011
462 páginas