domingo, 13 de junho de 2010

O homem comum

O interesse que têm as vidas destes Intelectuais não se prende com uma qualquer forma de coscuvilhice. Se fossem apenas pormenores da privacidade dos homens que dão corpo a autores, este livros seria um desperdício de papel.
O que aqui se analisa é a forma como os autores que se dispunham a alterar o pensamento humano respeitaram pessoalmente o que "pregavam".
Nenhum dos homens que aqui estão retratados parece ter sido capaz de justificar pelo exemplo a correcção dos seus argumentos.
Estes são homens capazes de reflectir abstractamente mas incapazes de lidar com a realidade das suas emoções. Homens capazes de criar teorias a partir do vazio ou de um mínimo de informação mas incapazes de se relacionarem com a humanidade que tanto pretendiam influenciar.
Os intelectuais aqui analisados podem ter sido génios mas não tinham sentido auto-crítico nem uma compreensão individual de moral que os ajudasse a comandar as suas vidas pelas suas próprias ideias. Viviam desfasados do que pensavam, indulgentes aos seus caprichos pessoais.
As suas emoções eram a fraqueza pela qual se tornavam nos mais narcisistas exemplos daquilo que pretendiam erradicar pelas suas teorias.
O que este livro prova é a banalidade dos homens que se resguardavam por detrás de uma pensamento extraordinário. A obra mantem-se imaculada - pelo menos nos casos em que a obra é, sem qualquer dúvida, genial - mas as suas ideias deixam de ser encaradas com reverência para serem colocadas ao nível em que todas as ideias devem estar.
Mesmo tendo alterado o pensamento da humanidade, estes intelectuais podem e devem ser questionados, tanto para compreendermos as suas ideias como para delas nos aproximarmos.
E se estes intelectuais sofriam de uma tão grande discrepância entre o que eram e o que esperavam dos outros, o homem comum pode, felizmente, sentir-se menos dilacerado pelas suas contradições.


















Intelectuais (Paul Johnson)
Guerra e Paz
1ª edição - Janeiro de 2009
496 páginas

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Poeta sentido

Eis um poeta que escreve, em absoluto, a partir das suas emoções, daquelas que ia vivendo a cada momento e que se traduziam depois no imaginário que ele traduziu em palavras.
Este poeta não escreve a partir da racionalidade do sentimento (re)criado, mas do que lhe era dado a sentir e que compreenderia ao mesmo tempo que o traduzia em palavras.
Alberto Riogrande não evita, por isso mesmo, que algumas imagens supérfulas se inscrevam nos seus poemas.
É a vontade de prolongar o momento ou o efeito, algo natural a quem sente e que não tinha como se aperceber disso mesmo na altura.
Sente-se que o verso e a sua imagem poderiam resultar melhor na simplicidade que antecedia o verso que se segue - apenas um floreado a pontuar a imagem já estabelecida.
Isso não retira aos poemas de Riogrande o melhor da sua capacidade de criar pequenos universos nascidos à flor da pele que debitam sensualidade e que existem como espaço de dedicação à feminilidade.
Feminilidade sempre carnal, umas vezes de beleza doce, outras de tormento áspero. Assim resumido parecerá, obviamente, banal e tolo, mas as imagens não o são.
Num país de Poetas, Riogrande tem lugar e não desmerece o epíteto.


















A lua no teu umbigo (Alberto Riogrande)
Esfera do Caos
1ª edição - Maio de 2010
128 páginas

sábado, 5 de junho de 2010

Alienado de si mesmo

Um homem não se perde quando dá por si sem saber o caminho de casa num país cuja língua desconhece.
Um homem perde-se quando tem de abandonar o seu próprio país convicto de que lá nada de bom lhe resta.
Depois, o seu périplo desventuroso pelo labirinto que é uma cidade ininteligível por completo, é a concretização do seu desmembramento interno.
Anda à deriva com a mulher e o filho ao lado, tentando, sem qualquer sucesso, reencontrar o caminho para casa.
Mas a sua deriva, que começa pela falha de comunicação, cresce porque ele é incapaz de dialogar com a sua própria existência.
Este homem não acredita em nenhuma das suas decisões, não se aceita como pessoa, nem sequer se permite manter num percurso que tenha sido o acaso a decidir de tão paranóico com o falhanço - o seu falhanço, sempre, obviamente. Mesmo quando toma a decisão de recorrer ou matar Deus, tem relutância em depois aceitar e manter tais actos, retirando a promessa de retribuição ou restituindo-lhe a vida, porque não acha sequer que Deus lhe possa emendar a existência errante. Nada de si mesmo lhe parece correcto.
Daí que lhe seja impossível atravessar o mundo em linha recta. A sua deriva é física porque não resta outra forma de expressão à deriva da sua existência.
Um homem alienado de si mesmo é um homem para quem não há esperança, a menos que ela venha do exterior de si. Seja este emigrante sem conhecimentos da língua ou seja outro homem qualquer com a vida de aparente normalidade.

Ricardo Adolfo trata as palavras com uma mestria admirável, usando a linguagem ao estilo "da rua" com dignidade e dela retirando os maiores proveitos.
Com termos convencionais, quotidianos e que pouca importância daríamos ele cria parágrafos de enorme força e surpreendente deslumbramento. Uma sofisticação escrita a partir de ferramentas que se diriam toscas.
Ele, que neste momento, olha para Portugal a partir de fora, parece ter uma maior percepção do que por cá se passa do que muitos dos que passam o tempo a opiniar, bem como da maneira mais imaginativa de usar a Língua Portuguesa.


















Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas (Ricardo Adolfo)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Setembro de 2009
200 páginas

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Tempo de informação

A informação tem um enorme valor no preciso momento em que escrevo, dando inclusivamente nome à sociedade que nos rodeia.
Como tudo o que tem um preço, a informação tem, portanto, um peso no ser humano que a manipula/opera/usa/busca.
A informação a que uns tiveram mais direito do que outros - e já falo do livro neste momento - tem mais peso do que valor.
Olhar o futuro é excitação certa, expectativa de usar o conhecimento que outros não têm para se enriquecer ou conquistar posição.
Só que esse futuro é mais uma grilheta, levando obcecado aqueles que olharam o futuro e descobriram nele notícias menos favoráveis.
Viver tentando contrariar uma informação - ainda para mais incompleta e impossível de desvendar - durante anos a fio é uma obsessão que anula a vida presente.
Mas o seu contrário, viver na crença de que a informação que se tem é inevitável tem um efeito semelhante, anulando o significado de qualquer decisão tomada.
A informação em excesso é a fonte de anulação do livre-arbítrio e, daí, ser muito mais prejudicial do que se julga.
Daí que vivamos - e já não estou, entretanto, a falar do livro - numa era de informação que nos reduziu à "aldeia global" onde cada um vive obcecado em conhecer e divulgar a informação de todos os que o rodeiam e, no limite, de si mesmo.
A era da informação é o ponto ideal para a coscuvilhice e aqueles que julgam ganhar alavancagem contra outros através da informação estão apenas a colocar-se numa prisão ilusória de dados sem uma eventual concretização real.


















Flashforward (Robert J. Sawyer)
Saída de Emergência
1ª edição - Março de 2010
288 páginas

domingo, 30 de maio de 2010

Esforço

Escrito quando a autora tinha uma idade muito jovem, este é claramente um livro de uma rapariga desejosa de ser escritora.
Um desejo que não deve ser reprimido, que é saudável e pessoal e, por isso mesmo, impossível de suprimir.
Mas ao ser editado, é necessário ter uma visão mais consciente da materialização desse desejo.
A autora começou o livro em busca de uma escrita erudita para os seus personagens mas muito rígida. Com o tempo a escrita tornou-se mais fluída e menos consciente de si mesma. O percurso temporal do livro fica à mostra e seria necessário rever - e reescrever, provavelmente, o seu início.
A autora mantem-se agarrada a modelos que conhece muito bem e que a fascinam. Modelos ainda muito simples e limitados, seguros mas onde é impossível arriscar e construir algo distinto e rico.
Este é um primeiro esboço de uma possível carreira como escritora. Um esboço que deve ser revisto à luz de uma maturidade e servir, acima de tudo, de rampa de lançamento para esboços cada vez mais sólidos.
Se a autora não tem distanciamento suficiente para isso, então alguém o teria de ter por ela.
O esforço resultante do desejo não é, nunca, um mau esforço, mas também não é um esforço de resultado irrepreensível.




















O Reino de Nurver
(Sara Machado)
Papiro Editora
Sem indicação da edição - Junho de 2007
216 páginas