terça-feira, 30 de novembro de 2010

Homenagem ao malandro

Um grupo unido de sete homens lança-se numa vingança contra duas províncias de França, Issoire e Ambert, que surgiram a um deles como dois olhos persecutores.
Começam por rimas gozosas e logo seguiram para planos elaborados de vexame e confusão.
Estava bêbado aquele que entre eles se se amedrontou com um mapa num sótão escuro. Estavam todos, aliás.
Estavam bem assim, juntos, entretendo-se entre eles em doses iguais de se maltratarem e apoiarem mutuamente.
Em grupo, nenhum homem é como singularmente se comporta. É como o grupo necessita, dando-lhe tudo o que pode e recebendo tudo o que deve.
Falo do sexo masculino pois é dele que conheço melhor o comportamento. Igualmente porque (sinto que) é nele que permanece o gosto pela rebeldia juvenil, pela inconsciência e pela existência de grupo.
É nele que permanecem os códigos de grupo e o companheirismo sólido sem julgamento.
Estes sete compinchas comunicam entre si com versos Alexandrinos e desconfiam apenas para se congratularem com a falsa surpresa de ver os outros cumprirem com o esperado.
Seguem os planos ousados, absurdos e divertidíssimos que criam sem parar para reflectir em consequências.
O grupo move-se, apoia um dos seus porque o grupo é cada um deles, consciência colectiva e corpo agregado.
Tudo isto tem um humor nonsense, um absurdo sem limites que os homens que guardam companheiros de longa data saberão apreciar como versões exageradas dos seus velhos truques.
Malandros assim já não existem mais, mas ainda existimos muitos bem parecidos.

Crítica escrita ao som da memória de Homenagem ao malandro de Chico Buarque.


















Os Pândegos (Jules Romains)
Livros do Brasil
Sem indicação da edição - Sem indicação da data
288 páginas

sábado, 27 de novembro de 2010

Pequeno apontamento

Mesmo sendo um homem de Ciência - se assim posso atrever a chamar-me pelo curso que tirei e pela área de trabalho onde me inscrevo - e leitor tão assíduo como variado, não me sinto capaz de me lançar a este livro para o apresentar a um futuro público leitor sem reduzir a sua importância e a sua vastidão.
Daí ter chamado a este texto Pequeno apontamento, assinalando assim que, desta vez, pretendo apenas dar uma pequena amostra do que o livro nos conta e reforçar a ideia de que não há senão mais e mais material para lá ser aprofundado.
As revoluções científicas, como entendidas aqui, não são verdadeiras revoluções, mas alterações de estatuto de teorias dentro de determinadas áreas, normalmento substituídas por outras que possam explicar todos os novos dados constatados.
No interior dessas áreas há alterações fundamentais ao entendimento da realidade, mas nas áreas relacionadas a aceitação dessas alterações é pacífica e natural, alterando-se apenas uma ferramenta com a qual essas outras áreas trabalham.
Este livro traça pois uma realidade bem diferente daquela que nos é ensinada, de que a Ciência evolui de grande descoberta em grande descoberta, de teoria radical em teoria radical, mas antes se faz passo a passo, de um campo de trabalho para o outro.
A lição não serve só à Ciência, mas a quase todas as áreas das quais se traçam Histórias pautadas por grandes nomes, génios e , esquecendo
Mas este é apenas uma pequena revelação - que nem é revelação nenhuma, verdade seja dita - que este livro tem hoje, como à data da sua publicação original.
Na verdade, o livro traça importantes linhas sobre o conhecimento humano, sobre a sua progressão e sobre a relevância deste progresso mesmo para os leigos.
O livro é fulcral a todos os que querem Saber, assim mesmo, com letra maiúscula.


















A Estrutura das Revoluções Científicas (Thomas S. Kuhn)
Guerra & Paz
1ª edição - Setembro de 2009
288 páginas

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Pequenos papéis de um homem maior

Seria a leitura mais proveitosa se eu conhecesse melhor o texto integral de A Origem das Espécies?
É uma pergunta importante que não terá resposta até que (eventualmente) percorra esse outro livro, mas não deixei por isso de encontrar entendimento sobre um homem importantíssimo para o conhecimento moderno, algo que só fica provado pela polémica que o seu trabalho ainda provoca em locais dominados por fanáticos.
As suas cartas e os seus apontamentos mostram-no como um pensador perpétudo, um homem para o qual a ciência não parava à porta de casa.
Provam-no as cartas que troca com a mulher reflectindo sobre o próprio sacramento que vão partilhar ou os apontamentos regulares que mantém sobre a vida dos seus filhos depois continuados pela mulher.
Isto prova também que ele encontrou uma companheira capaz de o desafiar e de o compreender. Um pensado tem, muitas vezes, uma incapacidade para ser feliz, mas não parece ter sido o caso deste homem.
Os seus papéis mostram isto. Se tal é verdade passará por ler uma biografia mais detalhada de Darwin, mas acima de tudo, acredito que fica por ler a sua obra essencial onde ele investiu tanto de si.


















Escritos Íntimos (Charles Darwin)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
112 páginas

Com um olho no ecrã


Eis um livro que se deve ler com um olho no ecrã. Um livro que vive melhor quando o conjugamos com a visualização dos filmes de Herzog.
Mas mesmo este livro tem de ser apenas um livro e se é preciso falar dele como tal, devo dizer que as reflexões de Grazia Paganelli são excelentes leituras por si mesmas.
Diria que são, como espero que os textos que aqui escrevo sejam, pedaços independentes de literatura que nos enriquecem o pensamento e que saiem valorizados pela relação com as obras do realizador.
À falta da possibilidade de visualizar as obras lado a lado com os textos, a entrevista com Herzog entrelaça-se na reflexão, acentuando as melhores ideias desta.
Sendo verdade que a entrevista é conduzida em direcção às ideias expressas pela autora, acontece também que esta tome caminhos próprios pela voz do realizador que se encontra desafiado a reflectir sobre si próprio como não fizera até aí.
Ao longo da entrevista, Herzog faz quase um ensaio sereno sobre si próprio, sobre o seu cinema e sobre o cinema que o rodeia.
Muito honesto, fala da criação de um cinema feita por si e que se tornou numa obra. A falta de linhas orientadoras com as quais se identificasse, perseguiu temas, recusou associações e inventou formas.
Na sua entrevista explora as particularidades da obra que criou da forma que apenas ele conseguiria, sem tentar criar um mito de si próprio, mas oferencendo um ponto de entrada a um pensamento demorado sobre a própria arte do seu cinema, um pensamento que poderá depois ser enriquecido pelo retorno às teses apresentadas por Grazia Paganelli e, finalmente, por serem confrontados com os filmes de onde nasceram.


















Sinais de Vida - Werner Herzog e o Cinema (Grazia Paganelli)
Edições 70
Sem indicação da edição - Abril de 2009
270 páginas

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sangrar culpa

Desenhado com uma certa anonímia que permite que o espaço onde a história se passe se assemelhe à assunção de de ruralidade nacional feita por qualquer leitor, independentemente da sua nacionalidade (ou não tivesse sido primariamente publicado em França), o livro permite que a sua leitura seja enquadrada na familiaridade de um universo pessoalmente entendido.
É verdade, também, que conhecendo a restante obra de Rui Lacas saberemos situar os elementos deste seu mundo, bem como a evolução dos traços de originalidade da sua utilização particular da onomatopeia como parte integrante da estrutura da página desenhada.
Mas faz sentido falar da história como universal, deslocalizada no tempo e espaço - passado local ou presente de países inominados -, mas cujo fulcro é o percurso que vai da tentação ao crime e deste à penalização.
Uma medida do passar do tempo, que é sempre curto para chegar da tentação ao crime e muito longo para chegar depois à punição, e que a história trata de contar em sentido inverso, tratando demoradamente o primeiro período e desenlaçando o segundo tão subitamente quanto merece acontecer.
Nesse aspecto o livro revela não ser tanto sobre a vingança, como a primeira impressão fará parecer, antes sobre a retribuição.
Não há nada para ver nessa retribuição a não ser o seu momento final. Por comparação, conhecer e medir o acto é muito mais importante.
Vemos o preço que cada um paga pelo seus actos quando, a pouco e pouco, admite a ignomínia dos mesmos.
A retribuição chega por mão própria, quando a acumulação desses pequenos pedaços de admissão de culpa é suficientemente forte para que o pecador se revolte contra eles. A absolvição é impossível e nesse momento arca, finalmente, com as consequências por completo.
A vingança, se continuarmos a querer chamar-lhe assim, está em sangrar lentamente tudo ao alvo da mesma até que apenas sobre a culpa e esta pese demais.
A concretização física de todo este acto é um efeito e não um objectivo.


















Obrigada, Patrão (Rui Lacas)
Edições Asa
1ª edição - Outubro de 2007
96 páginas