sábado, 16 de maio de 2009

Caminhos da memória

O Regimento dos Espectros é contado na primeira pessoa naquilo que podemos apenas chamar de um longo relato de memória onde pensamentos, acções e diálogos seguem encadeados como um único e extenso fio.
Mas um fio que, naturalmente, começa num novelo, mas surpreendentemente também acaba num outro.
Trata-se de um pedaço de memória perturbado e perturbador, onde presente e passado se enredam e onde apenas conseguimos descortinar algumas das voltas que compõe tais novelos, sem nunca lhes ver o âmago.
Ficamos sempre a meio caminho de ambos, numa estrada de questões. Uma estrada que nos interessa, onde permanecemos entre avanços e recuos, mais intrigados do que perdidos.
A tudo isto não será estranha a vocação psiquiátrica de Lydie Salvayre, que consegue fazer um retrato das hesitações, idiossincrasias e perturbações que marcam um indivíduo.
E consegue-o sem descair no facilitismo de fazer uma tese comportamental ou um compêndio de sintomas.
Fá-lo com talento, cuidado e singularidade, revisitando a Mente, a História e a Sociedade do seu país.


















O regimento dos espectros (Lydie Salvayre)
Terramar
1ª Edição - Março de 1998
154 páginas

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Deliciosa perdição

A terrível e saborosa submissão ao desejo é uma vitória cruel e uma deliciosa derrota.
Os jogos de sedução, de que a Lola que cada um de nós encontra é capaz, são sofrimento, castigo, tortura. São, no fim de contas, compensações ténues que aceitamos com tanta insaciedade.
Como se só da crueldade - mútua, que nenhum castigo deixa de marcar ambos os corpos - nascessem sentimentos mais sinceros e pungentes.
Sim, certamente resistimos, forçando-nos a ser lógicos, desprovendo-nos de emoções, como se fôssemos os nossos próprios mestres.
Mas não há autodomínio que vença a inabalável vontade de nos rendermos nas mãos de quem não conseguimos entender, mas por quem sentimos sem medida.
O livro, um relato feito com toda a lógica, quase um relatório consciencioso, não consegue esconder a natureza sedutora e irresistível da mulher que está por detrás de tanto infortúnio.
O livro, como o próprio ser humano bem sabe, demonstra que a força da razão perderá sempre para o mistério da emoção.
Lola é a insinuação da perdição de cada um de nós.

Mas mais do que as minhas palavras, é a voz lânguida, insinuante e lúbrica de Sarah Vaughan que tão perfeitamente resume este livro, ainda que a canção não fale desta Lola.
Talvez, no final de contas, todas as Lolas sejam assim...




















Um obscuro objecto de desejo (Pierre Louys)
Bico de Pena
1ª Edição - Abril de 2009
112 páginas

domingo, 10 de maio de 2009

Da vida que poderia ser


O Caderno Secreto de Leonardo é um livro riquíssimo. Um livro completo, arrisco dizer.
O seu retrato de Leonardo é quase vivo, quase palpável. Leonardo é complexo, o seu drama amoroso não é um mero fait divers, é uma importante componente daquilo que vivemos a seu lado. As suas acções definem a sua essência e definem um rumo que se vai criando perante nós. Ele é homem tanto quanto é artista, rende-se à incerteza dos seus sentimentos tanto quanto explora a precisão da engenharia.
A existência da Florença, terrível e fascinante, ameçadora e irresistível, é uma certeza. Cada parágrafo que Jack Dann lhe dedica transporta-nos sem esforço para uma realidade que acabamos de descobrir mas nos parece familiar.
As personagens que orbitam neste mundo, inimigos e amigos de Leonardo, entre outras personagens largamente dúbias, são igualmente fascinantes. Não são meros joguetes, não compõe um tempo com a sua mera referência. Antes existem ali, complementando o retrato do protagonista com a réplica de vida que lhe dão!
E quando as máquinas que nos habituámos a conhecer dos esboços de Leonardo passam a ser objectos reais e poderosos nas páginas do livro, quando ganham aplicação, não podemos deixar de sentir um súbita estupefacção pelo seu potencial.

Tudo neste livro tem uma vida que não é negligenciável, antes é a prova de uma verdadeira dedicação a uma personagem, a uma era e a uma hipótese. É uma prova de como nenhuma personagem se esgota senão pela extinção do nosso entusiasmo.
O prodígio do que consegue vem da maneira como torna Leonardo numa personagem que nos interessa sem ser necessário apelar ao seu papel na História, nem na sua mitificação.
Claro, é tudo um jogo de imaginação, um "então e se..." que, agradavel e surpreendentemente, poderia realmente ter sido e, por isso mesmo, nos leva a interrogar o nosso próprio entendimento de Leonardo.
Delicioso por isto tudo e por mais ainda, que só lendo se pode perceber.

Não poderia acabar sem referir a excelência da tradução.
Feita por David Soares, ele próprio escritor e bedéfilo de créditos firmados, empenhou-se verdadeiramente, tornando a obra um pouco sua.
As suas notas de tradução chegam a corrigir os (pequenos) enganos do autor e demonstram a sua erudição e talento.
A combinação da obra com o seu tradutor foi um encontro perfeito.


















O caderno secreto de Leonardo - Tomo I (Jack Dann)
Saída de Emergência
1ª Edição - Março de 2009
336 páginas



















O caderno secreto de Leonardo - Tomo II (Jack Dann)
Saída de Emergência
1ª Edição - Abril de 2009
288 páginas

domingo, 3 de maio de 2009

A telenovela num sopro

José Rodrigues dos Santos não é um mau escritor.
Quando o li pela primeira vez, em A Fórmula de Deus, fui surpreendido pela agilidade da intriga.
Pedi, logo de seguida, a quem me tinha emprestado esse livro - dizendo que me interessaria pela sua temática - os outros dois protagonizados por Tomás Noronha. Aquilo que encontrei foi uma repetição exacta da fórmula narrativa e uma constante rememoriação dos mesmos dados e das mesmas informações.
Mas acima de tudo, aquilo que encontrei foi um escritor que não consegue abstrair-se da sua condição de jornalista, obrigado que está a incluir minuciosamente toda a investigação que fez, incapaz de filtrar o que apenas atrapalha o romance.
Isso fez de O Codex 632 um camuflado ensaio, insistente e aborrecido, e de O Sétimo Selo um aviso que cai no campo do absurdo de um filme-catástrofe.
O porquê de ter voltado a este escritor prende-se, possivelmente, com um incontornável desejo de afundar-me numa certeza de falhanço, que me permitisse zurzir no livro em convívio social.

Depois de terem sido indulgentes com esta introdução, falemos do livro.
A vida num sopro é largamente diferente dos títulos que lhe conhecia.
A vida num sopro é, no fundamental, uma (tele)novela tornada livro.
O seu desenvolvimento, na essência um boy meets girl, looses girl, finds girl esticado até aos limites, pretende ser ao mesmo tempo um retrato de Portugal durante a década de 1930.
Mas na sua estrutura em partes, separadas no tempo e fundamentalmente episódios que no seu acaso determinístico discorrem a trama do par central, ficamos mais pertos de ver um postal-resumo de Portugal, vazio de complexidades mas rico em episódios-choque.
O mais perto que A vida num sopro está do tal retrato de uma época acontece nas páginas dedicadas à Guerra Civil Espanhola, que decorrem com inusitada economia de meios e riqueza de detalhes verosímeis.
O resto do tempo, mesmo quando a trama não é previsível, é largamente denunciada.
Como o protagonista anuncia desde muito cedo, para ele viver é sofrer e o livro está decidido a demonstrar isso mesmo até ao fim, com todos os seus (grandiosos) infortúnios.
Há muitos romances portugeses, bons romances portugueses, com tal inclinação para o melodrama barato, mas são mais ricos na sua atmosfera e, sobretudo, escapam à limitação maior de A vida num sopro, ser escrita sobre a influência das obras visuais do nosso tempo.
Será provável que, em breve, A vida num sopro dê origem a "uma grande produção televisiva".
O seu conteúdo e a sua forma estão mesmo a postos para isso.


















A vida num sopro (José Rodrigues dos Santos)
Gradiva
5ª Edição - Novembro de 2008
616 páginas

sábado, 2 de maio de 2009

Tempo de feira

Não tenho acesso a dados estatísticos, nem posso com justeza fazer uma avaliação peremptória da 79ª Feira do Livro de Lisboa.
Por isso mesmo limitar-me-ei a alguns apontamentos de opinião sobre o assunto, após ter lá passado o dia 1 de Maio.

Em tempo de crise - e em qualquer outro tempo, confessemos - espera-se que a Feira seja um bazar de genuínas oportunidades e uma confluência de vontades - a de comprar e a de vender.
Não parece ser o caso (generalizado) desta Feira.
Em muitas livrarias pratica-se ao longo do ano descontos que superam muitas vezes os costumeiros 10% e não é raro ver "promoções", "feiras" ou "oportunidades" lançadas a vulso em diversos meses.
Para que as pessoas se apressem a comprar em quantidade, como só a Feira do Livro possibilita e incentiva, é necessário apresentar argumentos de atração inegável.
Esses argumentos costumam ser dois.
O primeiro, o do reencontro com títulos para os quais as livrarias já não guardam espaço quando a avalanche de novas capas as invade ou de iniciativas verdadeiramente intrigantes.
O segundo, promoções de encher o olho, inquestionáveis e apelativas.
Falemos então desses argumentos olhando para casos particulares, das editoras que mais atenção me mereceram.

Começo com a Presença e os seus múltiplos e grandes pavilhões.
As novidades da Presença apresentavam-se, geralmente, com 10% de desconto. Se não se espera nunca que as novidades sejam desbaratadas, a verdade é que os míseros 10% - que se encontram em qualquer livraria de grandes dimensões - surgem como pura arrogância de quem sabe que "faça o que fizer" irá vender.
É uma forma não declarada de desrespeito ao cliente e cria uma sensação de desconforto que se reflecte na abordagem a outros títulos, que ao contrário das novidades não têm direito a destaque mas têm já direito a desconto.

Da Cavalo de Ferro, lamento que tenha sucumbido ao mesmo mal.
Em anos anteriores era este o pavilhão em que gastava, alegremente, mais dinheiro, mas simultaneamente era mais recompensado.
As promoções da Cavalo de Ferro eram o que de mais parecido havia com o espírito feirante, reunindo "pacotes de autores" que permitiam trazer toda a bibliografia disponível por uma fracção do preço ou descendo os preços individuais dos títulos de fundo de catálogo na razão inversa do número desses que trazíamos connosco.
Só mais tarde, ao chegar a casa, associei as coisas e compreendi o porquê da Cavalo de Ferro não ter um pavilhão exclusivo nem promoções costumer friendly, ter sido comprada por um outro grupo editorial.

Falando em grupos editorias, abordemos a Leya, cuja teimosia do ano passado tem obrigado a uma interessante evolução geral.
Ao criar o seu próprio espaço, a Leya consegue gerar um fluxo de pessoas dentro da sua própria diversidade.
A centralidade das caixas, apesar de fazer aumentar o tempo dispendido nas bichas para pagamento, tem também o condão de fazer a pessoa circular mais antes de lá se dirigir.
No entanto, o sistema de loja, com alarmes e segurança precisa de ser revista, pois contraria o acolhimento e o envolvimento do espaço.
O facto é que o serviço de caixa é deficiente e não retira as bandas magnéticas aos livros, levando a que muitos dos clientes pagantes façam disparar o alarme e sejam abordados à saída pelo segurança para serem (ligeiramente, é verdade) revistados - situação directamente vivida por mim, também. No entanto, é estupidamente - e emprego este advérbio em plena consciência - fácil sair do espaço com livros por pagar - situação já não directamente vivida por mim, descansem as consciências - bastando para tal alguma paciência.
Mas dado que a Leya tem a seu favor a multiplicidade de "livros do dia" (com o costumeiro desconto de 40%) que se contam aos três por cada pavilhão, além de uma promoção generalizada que permite trazer 4 livros pagando apenas 3, o incómodo é esquecido por quem pretende, acima de tudo, ler.


Escuso-me a continuar a dissecar as minhas visitas aos pavilhões, com medo de que me vejam como um queixoso Tio Patinhas, para falar do que referi como primeiro argumento.
Há casos exemplares que este ano apostaram nele, tirando bom partido dos bem mais acolhedores pavilhões que se estrearam.
A Tinta-da-China, com a sua muito apelativa decoração - bem consoante as suas edições - e a sua associação à Penguin Books, da qual anunciou centenas de títulos a preço apetitoso, é um exemplo de valorização inquestionável.
Já na Praça Leya - e se a refiro duplamente de forma elogiosa é por achar que assim deve ser e não por disso me advir qualquer benefício - a oferta cultural, entre debates, workshops e concertos, e a oferta de entretenimento infantil, com teatros de marionetas e a dupla Astérix-Obélix em tamanho real, tem-se o gosto máximo do que a Feira deve contemplar além do livro.
Afinal de contas, a Feira do Livro é, acima de tudo, uma feira.
O seu tema central será o livro, mas este tem de vir complementado, pois é preciso satisfazer um público, muitas vezes familiar, que ali se dirige para passar algum tempo, a par dos que correm ao sabor dos livros.
Por reacção, então sim, esse público será tambem levado a comprar alguns itens.
É necessário apostar mais na interacção, para ambos os públicos, o especializado e o ocasional, talvez mesmo com maior acutilância para as crianças.
Assim se estranha que os dois palcos preparados para debates, onde a proximidade entre editores/autores e público é grande, se vejam desabrigados contra a voz feminina que anuncia os destaques do dia, sobrepondo-se ao que se pretende ali ouvir.
Mas também se reconhece o valor dos ateliers que a rede de bibliotecas preparou para as crianças darem lugar à sua criatividade e relação com o livro.
Afinal de contas, a Feira do Livro é, acima de tudo, uma feira, como as roulottes de bifanas e de churros bem demonstram.


As fotos que acompanham este texto foram desavergonhadamente retiradas do blog Blogtailors.