quinta-feira, 27 de agosto de 2015

América, personagem

Galveston começa com o estabelecimento de um cenário que se poderá quase considerar um clichê do noir.
Um homem de mão de um mafioso de Nova Orleães coloca-se em fuga depois do que parece ter sido um atentado à sua vida mandatado pelo homem a quem responde.
Consigo leva uma prostituta cuja vida salvou e que não passa de uma jovem rapariga perdida na vida.
As personagens soam como os arquétipos do género e correndo estrada fora parecem destinados a uma variação mais dentro do género.
Isso muda depois de Nic Pizzolatto esboçar o seu cenário, económico e reconhecível.
Afinal, na peugada destes dois vai o medo que eles sentem. Se alguém para além desse sentimento não o sabemos.
Juntos não dão por si atraídos um para o outro, ele sujeito à pulsão para com um corpo jovem, ela sujeita à segurança de um corpo gasto.
Nem sequer vão sozinhos, Roy o homem à procura de redenção e Rocky a rapariga à procura de aceitação.
A irmã dela, Tiffany, junta-se-lhes e é Rocky quem se coloca numa situação periclitante, arrancando-a às garras do seu padastro à força de bala.
O que eles percorrem é a América esquecida, procurando um lugar onde eles próprios possam assim permanecer.
O seu refúgio é um motel em Galveston onde as pessoas não estão de passagem. Lá vive uma comunidade de inadaptados - um adjectivo mais simpático do que o mais instintivo falhados.
Logo a comunidade vê em Tiffany a hipótese de se recuperar, de produzir alguém de bom que possa dali recuperar e retornar à sociedade.
Cuidam dela, apaparicam-na, chegam a levá-la à praia - que está logo ali mas parece tão distante do motel no Texas como um qualquer destino paradisíaco do outro lado do mundo!
Roy adquire confiança de que pode confiar àquela gente as duas raparigas, mesmo se o passado delas vem para atormentar o idílio (à escala do que o cenário pode oferecer).
Todos os passados podem, afinal, ser apagados quando se chega a um novo local. Só a perspectiva do que virá interessa quando se está perdido no coração da América.
Para Roy o que virá é um cancro prestes a matá-lo. E com ele a vontade de deixar um legado que recupere a sua imagem para si próprio: um futuro, não para ele, mas para elas as duas.
Claro que sabemos que não será bem assim, pois as prolepses que nos trazem de 1987 ao presente dizem-nos que Roy permanece vivo e carregando o tormento da sua sobrevivência - não só psicológico mas também físico.
Não sabemos o que terá acontecido mas sabemos que a história daquela fuga terá um desfecho tormentoso. Tal como a tempestade que em 2008 se encaminha para Galveston promete tudo destruir!
Roy não pôde selar a sua vida num momento de redenção antes de uma morte precoce e dolorosa como talvez ache que merece.
Afinal, como leremos, o passado não pode ser reescrito por vontade exclusiva dos que o carregam. Há que garantir que os à sua volta o apoiam e nem todos são como as duas irmãs encatadas pela pureza de Tiffany.
Roy tem de recorrer aos seus talentos antigos enquanto Rocky vai escorregando de novo para o papel a que ele pensava tê-la afastado.
Nesse momento ficamos com a certeza que Nic Pizzolatto escreve a essência da América neste noir. Um banho de sangue para uns para que outros possam ter direito ao seu naco de esperança.
Nem mesmo esse corte brutal com o passado evita que a ilusão do futuro deixe uma dúvida na sua origem.
Roy sabe-o e espera que o passado o reencontre. Teme que seja o passado que reclama a sua vingança, espera que seja o passado que lhe deve um agradecimento.
Pela pena de Nic Pizzolatto toda esta história é voraz e imparável, escrita numa vertigem que emula a velocidade alimentada pela mistura de receios e vícios dos seus personagens.
As personagens são como são e tomam decisões como quem não tem opções nem pode hesitar. As razões ficam para quem tem tempo de parar para pensar. Aqui só podem agir e seguir adiante.
Nic Pizzolatto faz valer o seu estilo e escreve na senda de Raymond Chandler, reconhecendo que é o espírito do conjunto (e do tempo e do lugar) que interessa e que sai como grande personagem do seu livro.


Galveston (Nic Pizzolatto)
Editorial Presença
1ª edição - Fevereiro de 2015
240 páginas

sábado, 1 de agosto de 2015

Não excita

O título nacional deste livro de Karen Dolby engana o leitor. A sua formulação complexa sugere bem mais do que a verdade do seu título original, History's Naughty Bits.
Nesse outro título está toda a verdade sobre esta ser uma compilação de detalhes picantes sobre aqueles que ao longo da História foram sujeitos àquilo que hoje se chamaria atenção mediática.
Isso só se torna evidente a partir do quarto capítulo, todo ele dedicado aos Excessos da Realeza.
De facto é um excesso a atenção que a autora dá à quantidade de amantes tidas pelos reis e, sobretudo, os reis de Inglaterra.
Além da autora ter vistas geograficamente curtas - talvez não esperando que o seu livro se vendesse para lá do país original de publicação - a sua selecção de interesses sexuais nem sempre tem o efeito titilante que procurava.
Claro que é interessante saber que os reis alemães, influenciados pela moda real de Inglaterra e França, tinham de assumir amantes públicas e ora as escolhiam gordas e baixas ou altas e magras mas sempre feias (por terem pouco uso para elas...) ao ponto de serem gozados por isso.
Só que o foco não está nessa forma global de como a sexualidade se expressava nas cortes Europeias, está sempre nos pequenos casos individuais.
Associados a uma escrita sempre dividida numas crónicas breves (de duas páginas no máximo) e com o seu relato que quer ser mais evocativo do que preciso, fica-se com a sensação de estar a ler uma coluna de mexericos dos séculos passados.
Esta sensação não é perpétua, mas como se forma no capítulo que é o âmago do livro, espalha-se pelo que vem depois e, pior, pelo que veio antes.
Antes desse capítulo sobre a realeza, o livro até parece ir de encontro ao seu título português, pondo em evidência os equívocos que são até aos dias de hoje usados para descrever a sexualidade na Grécia Clássica ou de como foi sendo feita, ao longo da História, a assepsia das ruas dedicadas à prostituição, não só na presença das trabalhadoras do sexo mas igualmente nos nomes que indicavam a que se dedicavam as pessoas ali.
Neste último tema já há indícios de uma dedicação à cultura anglófona cuja consciência vai sendo mitigada por informação mais abrangente e que não se fica no domínio da prostituição, vai também ao amor inconcretizado que os cavaleiros expressavam em textos ou actividade física às suas amadas.
Depois do capítulo sobre a realeza há ainda lugar aos fetiches, à homossexualidade (e a sua perseguição) e, finalmente, ao papel da mulher.
São capítulos cada vez mais curtos porque cada vez menos "picantes". A seriedade dos temas, pelo contrário, deveria suscitar um maior fluxo de informação.
A autora não parece ter feito uma pesquisa intensiva, antes correndo atrás dos detalhes mais óbvios, seja da condenação de Oscar Wilde ou da invenção do vibrador para tratar a Histeria Feminina.
Claro que há sempre informação que não se conhecia e detalhes surpreendentes, o que não significa que a leitura alimente o intelecto.
Se era para ser esta coluna de revelações sexuais informativa e não de exploração - ou, pelo menos, exploração detalhada - valia a pena escandalizar o leitor pela súbita consciência de que todas as revoluções sexuais surgiram do esquecimento a que as anteriores foram condenadas.
A verdade é que, na forma como está feito, este livro não excita!


O Sexo ao Longo dos Tempos: Debaixo dos Lençóis da História Universal (Karen Dolby)
Vogais
1ª edição - Outubro de 2014
224 páginas

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Mais um que sai da fábrica

Um pai encobre o facto do seu filho adolescente, sem carta e tendo consigo erva ter atropelado uma rapariga.
Na tentativa de refazer a relação com o filho, permitiu-se o descuido de o deixar guiar, que a sua mulher muito censuraria. Ela está prestes a ascender à posição de juíza federal.
Não antes que o FBI lhe vasculhe a vida para se certificar que a história daquela família é imaculada!
Por um bom terço deste livro Lisa Scottoline parece usar o cenário de coincidências exageradas - telenovelescas, que é como quem diz da má ficção - para preparar terreno a uma visão da fractura marital num cenário extremo.
Nesta altura é mais difícil aceitar algumas das decisões do pai do que a probabilidade dos eventos coincidirem no tempo.
Fica-se porque há a expectativa de um cenário em que o adolescente quer confessar o que fez e toma decisões irreflectidas, o pai quer sacrificar a sua consciência para dar um futuro tanto ao filho como à mulher e ela é mantida na ignorância tentando garantir para ela a normalidade que os investigadores devem encontrar.
Um jogo potencialmente curioso que, dentro da mesma casa e numa comunidade pequena, tem tudo para se valer de uma claustrofobia que projecta o que de mais psicopático há nos elementos masculinos de uma família.
Não é por aí que o livro segue, antes começando a acrescentar elementos que o encaminham para algo diferente.
Descobre-se que a rapariga era colega do condutor e logo surge em cena uma chantagem feita ao pai por alguém que tem provas do que aconteceu, com o pai e chantagista a perseguirem-se mutuamente.
Quando a mulher descobre o que aconteceu, uma antiga traição que ela cometeu surge como o segredo que a torna menos digna de censurar o marido.
O que daí resulta é uma fachada, normalidade a cobrir o poço de ódio que se gerou, um casamento que é mantido em nome do filho.
Ganha papel principal a racionalidade da mãe, que entretanto abdica da sua promoção, e planeia sistematicamente os passos a dar para lidar com a chantagem e não perder a liberdade do filho.
Nessa altura o grau de coincidências vai para lá do absurdo que pensávamos já ter atingido e o chantagista aparece morto (talvez tenha sido a mãe...) porque era um voyeur da adolescente atropelada e tinha provas de que ela mantinha um caso com um homem mais velho.
Em pleno modo thriller, o livro continua adiante sem voltar a abrandar para reflectir numa devida construção, trata apenas de atirar elementos novos sobre os que já lá estão.
O desenlace é implausível ao jeito de cada vez mais thrillers, com um grande confronto onde tudo é explicado e cada interveniente sofre ainda mais um pouco.
Já a resolução que vem depois disso é pior de tão preguiçosa. A autora apresenta uma nova situação surgida sem que nenhuma pista para ela fosse apresentada até aí.
Um final feliz para a família que leva uma reguada, só para não sobreviver sem consequências, mas tem direito a reconstruir a sua relação e olhar o futuro com ânimo.
O final simplesmente afirma que nada do que se leu sobre as personagens interessou, acontecesse o que acontecesse iriam estar unidos, vivendo com menos posses mas desfrutando mais da companhia mútua.
Claro que, como a autora não se esforçou na caracterização dos elementos da família, pouca empatia se criara antes disso e a desilusão é nenhuma.
Cada um deles pode reduzir-se à grande decisão que toma, o que os torna em elementos funcionais do livro e não em personagens.
Elementos pouco funcionais, note-se, como a própria escrita que é indistinta de qualquer outra dos que escrevem este género de ficção.
Os diálogos ora estão no limite do aceitável ora se tornam ridículos e as suas descrições podem ser quase integralmente ignoradas sem que se perca atmosfera ou psicologia.
Espanta-me saber que Lisa Scottoline ganhou um Edgar Award, tão mau é o seu domínio do mistério.
Sendo um prémio de vinte anos antes deste livro só posso concluir que a autora se foi enredando num fabrico regular mas não metódico de bestsellers.
Desconfio que com esta escolha, talvez a pensar que pode capitalizar no estilo de sucesso de Gillian Flyn em mostrar o lado tenebroso de todos, Lisa Scottoline teve o seu primeiro e último livro traduzido para Língua Portuguesa.


Não Contes Nada (Lisa Scottoline)
Bertrand Editora
1ª edição - Julho de 2015
344 páginas

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Finalizar em grande

Depois de um começo que me suscitava dúvidas seguiu-se uma melhoria que me avivou o interesse para o final da trilogia.
A previsão que fiz a propósito deste livro revelou-se apenas metade ajuízada. Este tomo é, de facto, o mais interessante da trilogia mas, pelo contrário, Anders de la Motte está já bem perto de ser um escritor com domínio do seu labor.
A trilogia veio sempre em crescendo de ideias em vez de "espectáculo", o contrário do que é comum e precisamente o que se quer de uma boa saga.
Da dissipação de limites (morais) para o individualismo que o anonimato online permite chega-se agora à promiscuidade entre interesses privados e manipulação pelo Estado da informação dos cidadãos.
Um tema para o qual os alertas são cada vez maiores e que o autor não só integra na trama como o transforma num motivo global que se integra no percurso individual de Henrik Petterson.
Obviamente que um homem contra o "mundo" é uma imagem ainda exagerada no seu heroísmo, sobretudo porque não se reduz a uma acção de denúncia mas continua a depender de uma acção directa.
Acção cada vez menos significativa na trama, reduzida a um único grande evento. E essa é uma das situações em que uma adquirida sabedoria do escritor se faz notar.
O autor deu a HP parceiros na sua luta, fechando o círculo, pois são um grupo de indivíduos intentados em vingar o abuso que sofreram às mãos do Mestre do Jogo.
A sua discussão sobre o plano de acção leva-os a um ponto em que terão de ser dignos de um episódio de Mission: Impossible. E aí a ironia de HP desvia o grupo e o livro desse exagero.
Com menos cenas de acção, o livro dá-nos algo muito mais interessante, dúvida e tensão continuadas.
A paranóica crescente de HP transmite-se ao leitor pela forma como Anders de la Motte escreve. Ainda variando o ponto de vista entre HP e a irmã, é neste livro que essa variação funciona melhor pois as vozes estão cada vez mais definidas e o frenesim dele é contrariado pelo maior controlo dela.
É mesmo na última reviravolta da saga que a variação entre os dois pontos de vista tem o seu melhor desempenho, transmitindo uma dúvida que deixa o leitor em suspenso para conhecer o final do arco narrativo de Henrik Petterson.
Ele, claramente, evoluiu ao longo dos livros e a sua história pessoal recebeu o mesmo cuidado que os detalhes da trama sobre a aproximação de uma versão do big brother. Em parte foi necessário terminar a trilogia para concluir que o personagem era tão importante para manter o interesse como a inteligência dos meandros destes thrillers.
Meandros que o autor leva ao limite, fazendo malabarismo com muitas hipóteses e personagens mas conseguindo concluir o espectáculo sem deixar cair nenhuma. Une-as com lógica e eficácia e responde a todas as questões sem fechar por completo a porta a algumas sugestões que oferecem ao leitor algo para o acompanhar para lá do final.
Não se trata de deixar espaço aberto a uma sequela mais, apenas não negar ao leitor o prazer da reflexão.
Bolha é a devida recompensa para quem acompanhou toda esta história, tenha ou não aderido com ânimo desde a primeira folha. Quem chegou aqui não fica desapontado.


Bolha (Anders de la Motte)
Bertrand Editora
1ª edição - Abril de 2015
424 páginas

domingo, 26 de julho de 2015

Para acompanhar o que veio antes

Creio não se poder dar melhor elogio a um livro que não marca a primeira aparição do seu personagem principal do que este: deixou-me ansioso para ler todos os que o antecederam (e os que se seguirão, já agora).
Rui Araújo tem esse talento, de criar um personagem culto e arguto que dá vontade de acompanhar sistematicamente.
Um detective ao jeito daqueles que marcam a memória dos policiais que se têm por favoritos, ou seja, daqueles que transformam um crime num relato da sua própria intervenção.
O inspector Miguel Neves é desses, dos que marcam pelo que trazem, mesmo da sua vida privada, para a construção de uma história em que ele - e os personagens que o rodeiam - importa. Não se limita a ser um narrador que faz avançar a trama de um ponto de resolução ao seguinte.
Há que dizer que o processo de resolução é bastante detalhado, trabalhado como aquilo que, crê-se, é o método policial em vigor neste país.
Afinal estamos no campo da ficção que recorre a uma história verídica como base de trabalho que permita tornar a leitura engajante e, no final, deixar algo à consciência.
Nessa combinação de realismo e ficção, Rui Araújo usa as transcrições de interrogatórios ou as circulares de serviço de forma credível mas também muito escorreita.
Esses atributos são essenciais para um livro breve mas que, além do fio policial explora a personalidade do inspector, dando-lhe espaço para exibir a sua cultura - uma agradável extensão do autor, por certo, que já abrra o livro com o poema Farewell de Alexander Search/Fernando Pessoa como epígrafe - a par das suas relações pessoais, que confundem os meandros da sua mente investigativa.
Miguel Neves está casado com Tânea Sanz, jornalista de investigação que aponta o seu faro na direcção dos crimes de colarinho branco ligados a várias posições de Estado.
As ameaças que surgem podem ter origem no caso de qualquer um deles e o inspector terá de ser interventivo em ambas as descobertas para afastar o perigo que os ronda.
Esse perigo é um agradável tempero do livro, que nunca afasta por completo o seu protagonista dele, aliás deixando-o ir na sua direcção.
Não temos um herói em Miguel Neves, antes um homem cujas decisões deixam algo a desejar tanto no campo do planeamento das acções como da avaliação moral das mesmas.
Com isso o livro termina com um cliffhanger de verdadeira incerteza sobre se teremos um próximo volume dedicado ao inspector. Embora a racionalidade diga que assim será, é a esperança que o afirma com mais força.
A tragédia não parece ser inédita para o inspector. Percebe-se que no seu passado houve já a perda de outra mulher amada.
Isto revela não só a coragem do autor, mas também a inteligência com que torna conhecido o passado do seu protagonista para os novos leitores, integrando-o na narrativa para garantir contexto suficiente, sem escrever uma introdução que torne redundante a leitura dos seus outros livros.
Tudo isto combinado leva ao desejo que expressei logo de início, de acompanhar as investigações de Miguel Neves que já foram ficando para trás. Prometem e muito!


A Tentação do Abismo - Sanz Blues (Rui Araújo)
Gradiva
1ª edição - Fevereiro de 2015
196 páginas