terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Livro, esse formato errado

A propósito de Até que o Mar Acalme, independentemente das considerações sobre a obra, há algo sobre o qual reflectir num ponto de redefinição do conceito do Livro.
Na minha opinião esta obra deveria existir em muitos formatos excepto no formato de livro impresso.
Tal como está, o livro exige que o leitor se afadigue lidando com dois objectos ao mesmo tempo, o livro e um companheiro tecnológico: um smartphone para ler os códigos QR impressos em cada capítulo (ou, em alternativa, o CD que o autor editou).
Manipular ambos de forma coordenada não é agradável e, desde logo, retira o interesse pelo livro a uma geração não interessada na interactividade.
Tal como o retira a uma geração muitíssimo interessada na interactividade, que veria com melhores olhos que o livro estivesse em formato digital e as músicas fossem acessíveis directamente no seu interior.
Este livro deveria ser daqueles que existia exclusivamente em formato de livro digital, para ser lido num aparelho que corresse o texto e, ao mesmo tempo, permitisse ligar uns auscultadores.
A experiência que o livro pretende transmitir num único "objecto" e numa única forma de manipulação.
Mesmo um audiolivro era, aqui, uma solução muito melhor. Era a oportunidade certa para utilizar as canções numa verdadeira simbiose com as palavras escritas (e lidas, neste caso).
A canção tocaria por completo no ponto do capítulo onde estava situada mas ao longo do capítulo a melodia da canção poderia ser usada como acompanhamento de fundo.
Uma verdadeira banda sonora como o autor a imaginou que permitiria dar diferentes tonalidades e ritmos a uma mesma melodia para a cada momento do capítulo sugerir emoções diferentes e até para gerir a velocidade da narração.
Tal como existe, livro e música, a experiência é sempre bipartida. A leitura até um certo ponto e, depois e depois de uma transição de um objecto para outro, a audição da música.
Capítulos houve em que não tive a paciência de o fazer e me limitei a ler os versos da letra da canção (sempre impressos) deixando para mais tarde e à parte a audição da canção.
Continuo a ser averso aos livros digitais, limitando-os a um uso profissional ou a momentos em que nenhuma outra opção está disponível.
O livro continuará, para mim, a ser uma invenção excepcional e um objecto eterno do qual não abdicarei.
Mesmo em tempos pós-apocalípticos o livro servirá, no limite, de combustível, enquanto um leitor de livros digitais servirá de espelho...
Mas estou sempre expectante do próximo passo de aproveitamento das hipóteses que o livro digital apresenta. Passos que rasguem com o conceito aproximado que o livro digital continua a ter perante o livro.
Ainda que seja um livro desinteressante, este poderia ser o livro certo para conseguir ir mais adiante, tornando o processo de leitura numa experiência revolucionária que sugerisse um novo caminho para a própria criação de novos livros ou a "recriação" dos já existentes.
A partir dele quantos livros, mesmo clássicos, quereríamos ouvir com bandas sonoras criadas por músicos de enorme afinidade com os autores? Muitos, certamente.
Seria possível realizar com os livros o mesmo que já se faz com vários filmes mudos, por exemplo, criar obras sonoras inspiradas por eles mas capazes de os questionar pela modernidade das composições.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Da dissonância

A crítica a Até que o Mar Acalme sairá sempre fora do âmbito mais habitual da crítica literária, por levar em consideração a música que o acompanha e o distinge.
Não é o âmbito deste blogue fazer crítica musical e, portanto, tal não acontecerá. Apenas uma tentativa de avaliar o romance pela sua concretização em dois patamares artísticos.
Até porque uma crítica musical revelaria desde logo a incompatibilidade para com o estilo baladeiro enjoativo do autor que, mesmo assim, ouvi atentamente ao longo do livro.
Começando por falar exclusivamente do livro escrito, é um romance no sentido mais típico que a palavra hoje tem e que impeça que seja usada para toda a literatura.
Não é tanto pelas suas histórias de amor (em sentido lato) que o escrevo, mas pela sua dependência excessiva da serendipidade encaminhada para um final feliz apesar de alguns pontos de infelicidade.
Um conjunto muito limitado de personagens passam a vida em encontros e desencontros por si mesmos ou por intermédio dos seus parceiros.
Os casais - nem sempre amorosos - vão variando ao longo do livro, com o homem e a mulher dos casais que no final permanecem a terem fugido de infortúnios anteriores com aquela mulher e aquele homem que entretanto constituíram um outro casal.
Isto de permeio com uma porção de realismo extremo em que o desemprego coloca o protagonista na via de ser sustentado pela prostituição da mulher sem conseguir lidar com isso, enquanto outro personagem vê o seu casamento desfazer-se porque vive na expectativa de encontrar algo "mais" que só tarde demais perceberá que tinha em casa.
Este cruzar constante dos personagens tem sempre um estilo muito variado, indo do romântico em exagero ao divertimento provocatório.
Os capítulos dedicados aos diálogos entre dois amigos, homens, são os melhores com o autor a fazer uso de uma coloquialidade cheia de à vontade entre ambos. O reconhecimento da forma de intimidade por via de alguma dose de parvoíce acontece e consegue momentos divertidos.
Já os capítulos dedicados aos encontros românticos tornam muito evidente a origem de escritor de letras para canções do autor, com um abuso do lirismo sem efeitos práticos. O estilo de pensamento romântico, verbalizado ou não, está para lá da própria personalidade das personagens, não se distinguindo de umas para outras e não estando de acordo com a sua existência até aí.
Estamos muito mais perto de entender os capítulos como partes - canções? - individualizadas unidas pela retoma de personagens e não pela coerência da voz ou do estilo.
Nesse aspecto tenho, pelo menos, de reconhecer que este romance musical não é um artifício, é uma tentativa do seu autor de trabalhar a ideia de narrativa que se espraia pelos tempos vazios entre canções.
O problema é que as verdadeiras canções que ele escreveu estão quase em desacordo total com as "canções" que são cada capítulo.
Um desacordo de apreço, pois as canções que funcionam melhor são as de tema romântico que, pela sua brevidade e porque não estamos obrigados a crer que há poesia na pop, fazem melhor serviço do que os capítulos pouco interessantes a que correspondem.
Sobretudo, um desacordo de expressão. As letras e o próprio tom das canções chegam a contradizer o ambiente que o capítulo tentou expressar.
Não é necessário ir mais longe do que o primeiro capítulo que descreve uma cena de um homem à beira (literal) do suicídio e termina com o cliffhanger da dúvida sobre se ele o concretizará.
A música associada a esse capítulo (e que está no final do mesmo, o que é a forma mais habitual de surgirem associados) tem uma melodia animada e versos como Para um novo futuro/Que eu possa chamar meu.
A canção contradiz e elimina a tensão que o capítulo tentou criar, dizendo-nos que este personagem certamente continuará vivo por um qualquer milagre de último segundo (confirma-se!).
Lembramo-nos de um formato narrativo do cinema norte-americano mais mainstream que a noção de banda sonora pop só reforça.
A ideia interessante - ou não me teria disposto a ler o livro - teria de ter alguém mais capaz para a concretizar. Alguém que fosse tanto escritor como músico, experimentado em ambos os campos e capaz de trabalhar ambas as vertentes numa separação dialogante.
Miguel Gizzas fica-se apenas pela separação entre escrita e música.


Até que o Mar Acalme (Miguel Gizzas)
Gradiva
1ª edição - Setembro de 2014
292 páginas

domingo, 30 de novembro de 2014

Péssimo

Nunca tendo lido nada escrito por Frederick Forsyth não deixava de conhecer a boa opinião generalizada do seu livro O Chacal que deu origem a um filme que, esse sim, conheço e acho bem executado, The Day of the Jackal.
Por isso decidi-me a pegar neste A Lista da Morte e descobrir quais as qualidades que o tornaram reconhecido e que ele parece aplicar à realidade política contemporânea.
Mera curiosidade e nenhumas expectativas relativamente ao trabalho do autor e, mesmo assim, acabei desapontado.
Começo pelo mais notório, a escrita, que é causa de aborrecimento primeiro e sofrimento depois.
Se quiser ser bondoso direi que tem a falta de emoção que se aplica num relatório.
Se quiser ser maldoso direi que tem a falta de qualidade com que um jovem estudante despacha as suas composições.
Raramente Forsyth gasta palavras a trabalhar as emoções de uma personagem ou a sua personalidade, a sua tentativa é a de construir um realismo assente nas acções executadas.
No momento em que isso significa páginas consecutivas de descrição de como se prepara o equipamento para um salto de pára-quedas e um único parágrafo para descrever uma personagem com chavões, o realismo não resulta.
Falando de chavões, essa forma de usar as personagens em que elas são nomes humanos para engrenagens da trama, demonstra que o autor apenas consegue pensar no esqueleto do livro, quase se sentindo obrigado a entregar alguns dos seus desenvolvimentos a personagens.
Não há sequer uma ideia de trabalho literário neste livro, de tal maneira que as duas personagens centrais - que se deveriam estar a gladiar no tabuleiro da espionagem moderna - recebem nomes que são descritivos da sua função: Batedor e Pregador.
A lista dos nomes das personagens é, aliás, aquilo com que o livro abre e que permite que Forsyth nunca mais tenha de voltar a aplicar-se em tratá-los por outra coisa que não a sua patente.
Aliás, mesmo com as personagens reduzidas a ideias gerais, Forsyth consegue enganar-se em detalhes que os caracterizam.
Pouca atenção ou pouco interesse, mas a falta de consistência ao longo do livro tanto com os dados como com as personagens é talvez o aspecto mais grave de todo o mau trabalho feito.
Cada um destes elementos separados já a tornariam dura, mas em conjunto minam por completo a leitura do que deveria ser um estruturado thriller cheio de ligações.
Descarnado, não é mais do que uma história de um bom, um mau e os diferentes ajudantes a que podem recorrer.
Em vez de complexo o livro começa a parecer absurdo, ligando um terrorista islâmico a um tresloucado pirata somali ou um agente americano de topo a um adolescente que é o melhor hacker de que ninguém ouviu falar.
Impressionante é ainda haver algumas boas ideias no meio disto,
Como aquela em que os Americanos usam a sua arte cinematográfica para combater os terroristas no seu meio de divulgação favorito e desacreditando-os em vez de os bombardearem.
Uma visão da necessidade de inteligência e subtileza acrescidas que o jogo do contra-terrorismo cada vez mais exige entre as artimanhas dos inimigos e a consciência da sociedade.
São poucas essas boas ideias e ficam afundadas nas areias movediças de uma péssima narração - a todos os níveis!


A Lista da Morte (Frederick Forsyth)
Bertrand Editora
1ª edição - Julho de 2014
312 páginas

sábado, 29 de novembro de 2014

Informação e intenção

Vito Bruschini é um militante da sua própria consciência e, por isso, o que de mais interessante tem o seu livro é a informação que ele revela sem medos ou hesitações, mesmo que parte dela seja trabalhada como ficção.
As suas convicções são o motivo pelo qual escreveu um thriller sobre o domínio empresarial do mundo a partir do controlo da agricultura e da fome por todo o mundo.
O livro é muito interessante no seu início, criando um sentimento de tensão por conta das maquinações de uma sociedade secreta.
Se os planos lá descritos não foram reais, poderiam bem ter sido, com as consequências reais - ou, pelo menos, realistas - descritas no livro.
Atravessando décadas de acontecimentos que sugerem, sem dúvida, conspiração e manipulação, o livro vem até aos nossos dias e a uma sugestão de intenções perniciosas para acções de generosidade humana aparente tomadas pelas grande empresas.
Este entretenimento tem um lado de exigência ao leitor para que deixe de estar desatento e tente obter mais informação em fontes que a tratem como tal.
Não que depois dessa pesquisa se venha a colocar de lado o trabalho do autor - que é jornalista - neste livro, até porque como se tem visto o mundo acaba por procurar e receber cada vez melhor informação a partir de meios de comunicação que utilizam o divertimento como embrulho para ela.
Só mais tarde, a caminho do seu final, é que o livro toma contornos mais comuns, com impossíveis cenas de guerrilha protagonizadas por um grupo de amadores.
A substância que até aí enchera o livro desaparece para dar lugar às cenas de acção.
Aí o interesse do livro esmorece até porque Bruschini não é um executante exímio do género, mas sobra algo assinalável.
Um detalhe que o destingue e que o mostra ainda fiel aos seus princípicos de militância, o de trazer para o papel de heróis um grupo de terroristas com cujas intenções ele claramente se identifica.
Ou talvez seja o grupo a manifestação das suas intenções, a recuperação de um engajamento activo contra a cultura
Faz lembrar um Baader-Meinhof-Bande de índole mais bondosa mas com a mesma determinação, como se o autor tivesse algo como um sentimento de saudosismo com revisão utópica do que foram décadas passadas de luta contra o fascismo corporativo.
O livro não termina com heroísmo, termina com uma admissão de impotência. A ingenuidade não tem lugar neste mundo pois também disso podem as corporações servir-se para atingir os seus fins.
Se a intenção é apenas de alerta ou se há mesmo um incitamento ao retorno de um activismo político mais feroz, talvez só o autor possa garantir.
A maioria dos leitores ficará, sem dúvida, apenas pela qualidade da informação e de como ela é trabalhada em forma de conspiração.


Os Segredos do Clube Bilderberg (Vito Bruschini)
Clube do Autor
1ª edição - Julho de 2014
420 páginas

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Por melhorar

Décimo sexto volume da saga de Alex Cross e há uma conclusão a tirar, mesmo sem ter lido todos os volumes para trás: isto já não é um policial.
Alex Cross já não é trabalhado aqui como o grande detective que, noutros volumes, se sente que ele terá sido.
Fisicamente e mentalmente imponente, Alex Cross faz cada vez menos trabalho, passando mais tempo a correr de arma em punho atrás de informações que lhe são dadas em vez de ele ter de as procurar.
Claro que há uma grande trama sobre como um político importante tem matado mulheres e os seus corpos são desfeitos num triturador de madeira.
Só que, tirando um final curioso em que o "ao serviço da nação" toma proporções interessantes, a trama funciona numa espécie de visão genérica de thriller de Thomas Harris com promessas de horrores e personagens arrebatadoras por todos os motivos (humanamente) errados.
Nem os horrores nem as personagens são explorados, substituídos por um avanço constantes da acção.
Aquilo em que James Patterson se foca a propósito da sua personagem é a família, numa exploração cada vez mais sentimental que parece ter invadido esta saga a partir de outras das suas obras mais recentes.
Desde logo ao colocar como primeira vítima uma sobrinha de Alex Cross, personagem que não chegamos a conhecer bem, mas que é capaz de colocar em polvorosa o detective que irá lutar mais vincadamente contra o secretismo do FBI e da NSA.
Essa personagem poderia ter sido uma mulher anónima pois na verdade o efeito emocional que ela traria a Cross seria, como é, sempre suplantado pelo causado pela ameaça de morte eminente que paira sobre a avó do protagonista.
A dirupção na família é o melhor componente deste livro e o que deveria ser um mecanismo secundário acaba por disputar o protagonismo com o restante.
Na verdade, ganha mesmo esse protagonismo porque é aquilo em que as personagens melhor são aproveitadas.
O que deveria acontecer é que a tragédia familiar deveria afectar os poderes de investigação de Alex Cross, mas como este não está a usá-los o drama acaba por funcionar por si só.
A velha senhora sobrevive ainda mais uns volumes pois parece ser o pólo oposto do detective nos momentos das discussões.
É duvidoso que ela alguma vez venha a morrer mas devia. Sobretudo neste volume, onde a sua morte teria adicionado ao drama do detective e obrigado-o a transformar-se o que daria novas possibilidades à série.
Está necessitada de se recentrar em casos que aproveitem a totalidade das capacidades do detective permitindo-lhe alguma amplitude de decisões no que concerne à família. Para o bem e para o mal, a avó dele continua a ser uma âncora para Cross.
Não deixa de ser um daqueles livros cujos capítulos curtos funcionam muito bem enquanto se viaja em transportes públicos.
Deveria ser mais do que isso mas James Patterson parece estar demasiado mecanizado num processo de criação que não lhe permite fazer mudanças importantes.


Eu, Alex Cross (James Patterson)
Topseller
1ª edição - Outubro de 2014
384 páginas