terça-feira, 22 de julho de 2014

O prazer do conhecimento

Este é um livro que lida com o grande mistério do conhecimento, habilmente representado pela dúvida sobre o verdadeiro destino da Biblioteca de Alexandria.
Dos aspectos a abordar neste livro, o mais destacado é a defesa do conhecimento feita pelo seu autor, um académico que aproveita para explanar as muitas histórias da História ao longo do livro com declarada capacidade de as manter interessantes e enquadradas.
O facto da sua heroína ser, tal como ele, uma académica sobre quem cai a responsabilidade de preservar o conhecimento parece uma inevitabilidade e permite que este thriller se desenrole acima de tudo pela mente.
Claro que o exagero está sempre subjacente a este tipo de personagens, saídas de uma piscina genética onde o raciocínio lógico de Sherlock Holmes foi potenciado até um ponto de impossível brilhantismo.
Mas a forma que assume o jogo de pistas neste caso é assaz interessante, pois não envolve apenas enigmas deixados ao longo de um percurso exótico, acrescenta-lhe a decifração do condicionamento a que a protagonista foi sujeita por um seu colega, entretanto morto. Um verdadeiro jogo Pavloviano entre altas inteligências.
Estes pontos de maior interesse do livro acabam por ir disfarçando as fraquezas que A. M. Dean revela neste seu primeiro livro.
Afinal, sendo um académico e como o próprio tema denuncia, o seu interesse pelo conhecimento torna-o um pouco avsso ao entendimento da desenvoltura humana.
São muitos os diálogos que acabam por servir o propósitos expositivos das temáticas que o autor aborda. Os restantes mostram-se sempre constritos por uma falta de fluência natural(ista).
As personagens, como os diálogo, estão muitas vezes ao serviço de revelações - históricas e da trama - e não são desenvolvidas em conformidade com a importância que assumem.
Felizmente que entre o par mais importante do livro - a protagonista e o mestre que lhe passou a responsabilidade pelo conhecimento no Mundo - esses detalhes de caracterização são completados no processo da acção, ajudando a manter o interesse.
Apesar dele ser morto no início do livro, o homem que lhe passa a ela a responsabilidade vai-se revelando nas memórias do que fez nos poucos momentos em que se cruzaram, revelando um planeamento preciso e uma certa dose de mistério.
Já a protagonista, Emily, revela-se uma mulher determinada e sedenta de viver uma aventura que a leve para lá da limitação da teoria em que sempre trabalhou e do bom senso que a parece conter.
Perante a "interacção" entre estes dois personagens, a trama paralela à da dominação do conhecimento - de dominação do poder mundial - poderia ter sido mais comedida.
Um certo risco de irrealismo - sobretudo quando a salvação terá de ficar nas mãos de uma mulher recém integrada na ordem secreta dos que defendem a Biblioteca de Alexandria - leva a leitura ao limite do aceitável.
O balanço é a de um desequilíbrio com potencial futuro. E se o leitor nunca pousa o livro é porque ele próprio está seduzido pela aventura que o representa, sedento acumulador de conhecimento que se vê justificado e elevado à condição de aventureiro.
O conhecimento que o leitor obtém aqui, ainda para mais, versa sobre o seu tema favorito: livros e bibliotecas. Fica difícil resistir, convenhamos.


O Bibliotecário (A. M. Dean)
Clube do Autor
1ª edição - Março de 2014
404 páginas

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Um sítio familiar aonde nunca fomos

Um livro de viagens costuma ser o relato da partida ao encontro de um local desconhecido ou o relato do reencontro com um lugar de fascínio.
Este livro de Brendan Behan é algo de muito diferente, um conjunto de crónica pessoalíssimas de quem não só habita Nova iorque como é parte da cidade.
O seu texto é um delírio de memórias, sobretudo de eventos regados a álcool e repletos de personagens da fauna mais marcante e/ou bizarra da famosa cidade.
A combinação da narrativa na primeira pessoa com uma energia vinda da oralidade - como Vilas-Matas nos revela no prefácio - dá ao relato o poder de um êxtase.
A verdade é que o leitor não fica fascinado pelo cenrário que lhe é descrito, sente-se a vivê-lo.
Parte desse efeito deve-se à própria cidade, um antro fascinante, eterno desconhecido mas com uma familiaridade facilmente criada.
Só que esta não é uma cidade que se destaque pelos seus monumentos de excepção ou por uma beleza a cada esquina.
Antes pelo contrário, entre algumas luzes fortes são os traços negros encobertos ou vividos em privado que lhe aumenta o poder sobre quem a olha.
O que a distingue acima de tudo são as vidas que se destacam no seu interior, sobretudo as que estão repletas da boémia que conduz ao génio criativo.
Brendan Behan encontrou-se, confrontou-se e entendeu-se com boa parte dos que deram (a sua) vida a Nova Iorque, daí que esta sua crónica seja tão intensa num jogo de tirada e resposta entre ele e as figuras fasntásticas com quem ele se cruza.
A Nova Iorque de Brendan Behan é parte tenebrosa, parte resplandecente, e tão mais interessante por isso.
É a Nova Iorque em que parece haver uma tão precisa confluência das pessoas ao longo dos bairros de encontro ao escritor que a cidade parece a sua aldeia em que domina pela sua notória indiferença para tudo o que não seja o seu próprio interesse.
Com ele vagueamos pela realidade que vai de Greenwich Village à Bowery e ficamos convencidos de que somos capazes de associarmo-nos a pessoas que nunca conhecemos e responder-lhe com uma elevada dose de snobismo de verdadeiros nativos de Nova Iorque.
Com o livro a ter sido escrito pelos corredores do Chelsea Hotel, ele é o que o próprio mostra da sua cidade, uma criação bêbada e genial feita no local onde as grandes personalidades vieram descobrir Nova Iorque e acrescentar-lhe o poder dos mitos gloriosos e tombados.
Como Vilas-Matas o disse no prefácio melhor do que eu o tentei aqui, este livro deixou em mim uma estranha saudade de bares onde nunca entrei.
Esta Nova Iorque é de todos nós, que nunca lá estivemos nem poderemos estar.


Nova Iorque (Brendan Behan)
Tinta da China
Sem indicação da edição - Setembro de 2010
152 páginas

domingo, 20 de julho de 2014

E o papel do leitor?

Tenho uma relação difícil com José Luís Peixoto, daquelas relações que estão por criar. Depois de Morreste-me nunca mais o li, afastado por uma certa sensação de aplauso constante que o fabrica como figura de marketing literário cuja confirmação pode não acontecer.
Livro confirma-me que estou em dívida (comigo mesmo) por não ler mais regularmente o escritor, pois a sua escrita atinge picos de uma assombrosa beleza.
Livro confirma-me, ao mesmo tempo, que os receios têm algum fundamento e que terá de ser com cuidado que voltarei a ler José Luís Peixoto.
Da beleza dá-nos conta a forma como constrói uma realidade alargada a partir de um conjunto reduzido de personagens vivendo um conjunto disperso de episódios.
Essas personagens representam realidades grupais mas acima de tudo traçam-se a si mesmas numa complexidade que tem tanto de realismo como de literário e que proporciona a compreensão de uma realidade a par de um maravilhamento de imaginação.
Os episódios em que vão existindo são pequenas maravilhas contidas em si mesmas, micro universos literários que merecem uma atenção isolada para si mas que vão fazendo a caracterização de dois países (Portugal e França) e da realidade que os une ainda (a emigração).
Há um fascínio nas ideias que José Luís Peixoto revela, acontecimentos que nos parecem só poder terem nascido da imaginação mas que vão demonstrando que podem ser assomos de realidade trabalhada.
Sobretudo porque esses episódios estão ligados e nessa deambulação entre Portugal e França começa a encontrar-se um fio condutor de uma narrativa maior que é destes personagens e dos homens e mulheres que viveram essa mesma deambulação.
Só que à realidade adiciona José Luís Peixoto o amor literário que é seu, dos leitores e, entretanto, dessas personagens que criou.
Essa relação com os livros adiciona uma camada de impossibilidade e magia ao sofrimento que ele descreve, numa hipótese de salvação que só pertence à esperança de quem revê em histórias a História, adicionando-lhe "acasos felizes".
A ambição que José Luís Peixoto cola às páginas é a de uma elevação que a literacia, a Literatura e o livro concedem às personagens - logo, às pessoas.
Como aquele jogo de palavras sublinhadas num livro, mensagens codificadas, bilhetes de amor, conversa facilitada pelo interface de um livro. Como se as capas do mesmo protegessem aquelas pessoas e fizessem perdurar os seus sentimentos.
Tudo isto é magnífico e nele se vai vendo a promessa do que o autor enceta numa segunda parte do seu livro, um exercício de concretização literária (e gráfica) do que ele escrevera antes.
Algo para lá da metalinguagem, algo a caminho da metarealidade - que seria interessante saber se acontece igualmente nos seus livros de não ficção.
O problema é que este exercício de experimentalismo acontece em ruptura e não em integração. Fosse todo o livro um misto de espanto literário e 
Nada tenho contra o experimentalismo. Apenas neste caso esse experimentalismo surge como acrescento. Um acrescento em busca de sentidos maiores para esta execução literária.
A busca de um passo adiante na modernidade dos livros que funciona mal dentro do objecto por não estar integrada na sua totalidade.
O leitor fica com a dúvida sobre que livro está a ler. É possível reconciliar ambas as partes de Livro - estão, afinal, a rementer de uma para outra; narrativa infinita embora não necessariamente numa forma cíclica - mas não é possível acreditar que sejam ambas partes do mesmo livro.
Há um livro passado de mão em mão entre personagens e que é, no final, passado para a mão do leitor. Está, portanto, o autor a passar ao leitor o livro pela mão das suas criações.
Sendo isso uma verdade permanente dos livros, esta explicitação do processo quer ser construtiva de uma relação mais intensa do leitor com os livros, mas parece autofágica.
Falando de si mesmo - também por via do autor elencar as suas referências (quase exibindo-se) - o livro está a roubar ao leitor parte do seu papel. Um papel que este é chamado a executar na primeira parte do livro e que deveria ter sido chamado a executar com maestria se o "jogo" da segunda parte existisse com a devida imposição na primeira parte da escrita.
Por isso o papel do leitor perante este livro está manco, tal como o livro está manco com uma das suas partes desequilibrada contra a outra.
Na minha opinião é a segunda em relação à primeira parte, para outros leitores será a primeira parte em relação à segunda (embora este caso pareça mais difícil). Impossível é ficar satisfeito sem se ter recebido um desafio - um livro, o Livro - devidamente equilibrado.


Livro (José Luís Peixoto)
Quetzal
3ª edição - Outubro de 2010
264 páginas

domingo, 13 de julho de 2014

Dos que não são Dan Brown

Uma conspiração de contornos fantasiosos no limite do impossível é sempre capaz de apelar a qualquer leitor, em qualquer ponto do mundo.
O exotismo da localização da acção e das peripécias descritas aliam-se a um tema "quente" de tal maneira que uma qualquer pequena variação continua a vender, por mais que os livros se mostrem como exibições dos talentos de pesquisa e manipulação de dados do seu autor.
A hipótese de contrariar este ocupação global das livrarias, sobre a qual ouvi um certeiro "Credo, isto está cheio de Dan Browns", pode passar por livros como este O Terceiro Bispo.
Desde logo um livro que aparece com uma lógica de abordagem local, trazendo a acção até Lisboa - mesmo se com ligação directa ao Vaticano - e dando o protagonismo a uma figura realista e exemplar da actualidade nacional.
Para o leitor português poderá ser caso para estranheza inicial, este de não encontrar um protagonista que seja quase um herói, brilhante a nível intelectual se não igualmente a nível físico, vagueando pelo mundo ao sabor de uma conta sem fundo à vista.
A estranheza só pode vir a transformar-se num prazer de descobrir o modelo de um investigador nacional que poderia ver-se perpetuado.
Se nos falta a tradição da detective privado, um jornalista desempregado que tem de aceitar um trabalho de investigação secreto da parte de um advogado seu amigo pode ser uma ideia para continuar a explorar.
Com "esperteza de rua", contactos antigos e uma rede de colaboradores em potência feita de todos os seus colegas igualmente no desemprego, este é um investigador cuja eficácia está dependente de vários elementos e cujo trabalho não é imune a falhas.
Ele investiga um caso que vai interligar as profecias de São Malaquias, o terceiro Segredo de Fátima e a situação excepcional de haver dois Papas vivos.
Esta criação literária apontada em específico ao público português firma-se também no aproveitamento de uma série de elementos religiosos do nosso país - e que não são poucos, como se reconhecerá - para a trama global.
Os jogos de poder no Vaticano vêm dar com o já revelado último Segredo de Fátima, o que torna ainda mais interessante o que sucede no livro.
Não é uma grande descoberta de segredos por revelar que toma o protagonismo do livro, antes a forma como toda a informação pode ser (re)interpretada para dar sentido a uma manipulação "do povo".
O livro torna-se numa antítese do que costuma ser este género literário, dando conta de como se pode convencer o leitor com uma narrativa que é, na realidade, uma mentira com vários elementos verdadeiros - e, por isso, vendida como uma revelação e não apenas uma ficção.
A conclusão é que estamos perante uma versão realista - até cínica - do mistério investigativo mas que na sua subversão continua a cumprir para com as expectativas do género.
Sobretudo porque tem a inteligência de optar pela brevidade eficaz em lugar da exaustiva demonstração de conhecimentos do seu autor (coisa que por vezes se assemelha a uma arrogante exibição do autor perante o leitor).
Apesar desta destacada eficácia que a narrativa mostra, ficou um corte por fazer ao livro.
Os capítulos que descrevem aquela que é uma das teorias sobre o que realmente aconteceu na Cova da Iria são dos mais bem escritos do livro e dos que mais captarão o interesse dos leitores.
No entanto não fazem falta, não acrescentam nada que não tivesse sido escrito de forma mais sucinta noutro ponto do texto e parecem uma exibição de Frederico Duarte Carvalho do seu talento para a recriação histórica.
Isso acontece porque surgem como capítulo soltos no meio da narrativa que depois ficam esquecidos, sem uma utilização daquele cenário para a conclusão do livro.
Espera-se que possa haver um próximo livro protagonizado por Joaquim Barata para saber se Frederico Duarte Carvalho continua a criar um género em estilo próprio e se esse estilo está apurado ao máximo.


O Terceiro Bispo (Frederico Duarte Carvalho)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Novembro de 2013
304 páginas

domingo, 25 de maio de 2014

Sob o género, outros temas

Quem queira estar atento descobrirá que há mais do que entretenimento despretensioso em Inferno no Vaticano.
A preocupação de Flávio Capuleto não é a criação de um thriller de temática religiosa que possa competir com os bestsellers que por aí pululam.
O seu objectivo com este livro é ponderar e convidar os leitores a fazê-lo. Que o utensílio para tal seja um género literário chamativo é um aproveitamente inteligente do panorama actual das livrarias.
Em torno de ouro mantido escondido pelo Vaticano o autor dá voz a duas correntes opostas sobre o que fazer com esses valores: usá-los para resolver os problemas da "Crise" ou guardá-lo para que a Igreja se mantenha.
A lita entre elas no plano físico, que envolve conspirações e assassinatos, vem companhada pela luta no plano intelectual à medida que o Papa é chamado a uma decisão.
Embora seja difícil acreditar que o Vaticano tenha pisos subterrâneos repletos de ouro, a existência de riquezas secretas - sem existência física - não é difícil de conceber no seio do Istituto per le Opere di Religione.
A discussão tem, por isso, razão de ser como tema mais premente em comparação com organizações que guardam a linhagem de Cristo ou psicopatas com agendas de poder.
Os lobbies em torno de um Papa disposto a mudar alguma coisa na actuação da institutição a que preside constituem matéria mais lógica para um thriller capaz de se explanar para uma preocupação externa ao domínio da ficção.
Contribui para ambos esses planos - embora possa haver algo de involuntário nisso - a forma como Flávio Capuleto tinge com imperfeições ambas as facções ao invés de reduzir a concepções de "Bem" e "Mal" aqueles que querem usar o tesouro para a causa social e aqueles que com ele querem preservar o estatuto do Vaticano, respectivamente.
Os primeiros pretendem salvar a Europa do flagelo do desemprego e pagar as dívidas soberanas excessivas. Como que esquecem o resto do mundo e defendem um continente onde o Catolicismo tem cada vez menos expressão mas que permanece o garante da influência política do Vaticano.
Os segundos vêem o mundo em crise e pretendem que a riqueza se mantenha intacta para a Igreja prevalecer como até aí. O poderio económico não é, contudo, em exclusivo para confortos pessoais, também para a preservação cultural da Igreja (que é do Mundo, igualmente) e para a continuação da caridade em larga escala como é feita na actualidade.
Sem vilões declarados o livro mostra o difícil que é atingir o meio termo exacto entre tais ideias.
Esta concepção bipolar da situação que ajuda a assentar na realidade o livro não é o que de mais interessante - literariamente - ele tem.
Esse título vai para uma outra situação de dicotomia: numa trama com tanto de moral a intensa sensualidade do livro é um desafio irreverente.
Não se tratam apenas das cenas mais memoráveis do livros, são os capítulos mais bem escritos - algo de importante quando há prémios literários de "mau sexo" - e à medida que o livro progride ocupam mais espaço do que a própria investigação - que por pouco não é resolvida fora das páginas do livro, demonstrando inequivocamente que não é esta que vem em primeiro plano nos intentos do autor.
Capítulos que constituem um outro "aviso" às instâncias religiosas, de que o corpo tem uma preponderância igual à da alma na vida moderna.


Inferno no Vaticano (Flávio Capuleto)
Guerra & Paz
1ª edição - Janeiro de 2014
280 páginas