quinta-feira, 13 de março de 2014

Ninguém fica incólume

As datas, as datas nos dois extremos do seu serviço militar. O que quer que sucedesse entre elas era enfeite e ar, e não mudaria o sítio ao qual ela iria dar.

Está na página 222 o trecho acima, que me parece o momento fulcral para este livro e para compreender as suas personagens.
A história de um conjunto de amigas, adolescentes e israelitas, que têm de ir cumprir o serviço militar e que durante todo esse período se mantém como até aí.
E como até aí é como para a maioria das adolescentes: despreocupadas, inocentes, divertidas, namoradeiras, irreverentes.
Para elas o serviço militar é um período como o da escola, um período de regras e constrangimentos no qual devem conseguir fazer valer a sua personalidade.
O espírito adolescente não admite vergar-se ao peso da responsabilidade, crê que é o contrário que acontecerá, que bastará continuar a ser como sempre foi para atravessar o período que vai contra o seu natural descomprometimento.
Shani Boianjiu tratou cada uma das suas personagens individualmente, sendo cada uma das adolescentes única e convincente.
As vozes são distintas mas partilham o que é comum à idade - vivacidade com um ou outro momento de angústia, dúvida resolvida seguindo adiante - e isso aproxima cada personagem das outras.
Afinal cresceram como amigas e separaram-se apenas por obrigação. Cada uma no seu posto leva uma porção da mesma essência, deixando o seu comportamento individual perceber as diferenças que cada uma já tinha dentro de si mas, também, do cenário onde foram parar.
Revistas diárias e atentados eminentes, expressão real dos ódios de muitas décadas que vêm de antes delas e que depois delas permanecerão. Ainda que elas pareçam ignorá-lo, em parte.
Pelos olhos delas as relações que criam com os Palestinianos ou os Egípcios podem conter um grau de simpatia e bondade.
Não conseguem compreender que aos olhos alheios, envergando aqueles uniformes elas já não são as raparigas de olhos simpáticos de outrora, são inimigos armados e prepotentes.
O maior dos feitos da autora é o de conseguir alcançar a magníficência das existências de cada uma das suas personagens, capazes de nos fazerem esquecer da duas realidade em que servem.
Perante isto, o trecho da páginas 222 reforça o seu papel essencial de revelação do livro. Não porque seja verídico, mas porque define a ilusão que elas - e nós, leitores, que somos seduzidos pela alegria destas raparigas - acarretam quase até ao final.
Até ao final... do serviço militar... do livro.
Até àquela indesejada surpresa que deveria ser a mais esperada das consequências.
A lembrar que nenhuma realidade em que tudo se confronta - a idade com a obrigação, um povo com outro, a inocência com o horror - pode deixar incólumes aqueles sobre os quais se abate.
Nem estas raparigas, que durante tanto tempo e contra a pior realidade do seu serviço militar, se mantiveram o maravilhoso desabrochamento das suas exitências.
Por mais surpreendente que seja no momento da leitura, torna-se na única expectativa realista que poderia haver para a ideia concreta do que é um serviço militar imposto indiscrimidamente a todas as pessoas ao atingirem os 18 anos.
Na verdade, de entre todos os que cumprem o serviço militar em Israel, talvez sejam mesmo as raparigas que a ele melhor "sobrevivem", com um salutar descomprometimento pessoal para com ele.
A autora consegue o mais difícil, impôr a maldade no último momento da história sem que tal pareça uma cena de efeito-choque.
Acreditamos no que acontece a estas raparigas, como acreditámos nelas durante todo o livro. Seguimos adiante mas ficamos com pena do que aconteceu a estas personagens que foram pessoas concretas durante tantas páginas.


O Povo da Eternidade não tem Medo (Shani Boianjiu)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Agosto de 2013
368 páginas

segunda-feira, 10 de março de 2014

Limitações do moderno

A leitura solitária, indiferente ao que a rodeia e cuja única gratificação é o prazer pessoal pode muito bem ser o método mais ajuizado e significativo para um thriller conspirativo que se alimenta da realidade moderna da postura internética: uma fome de protagonismo conseguida muitas vezes através da impunidade do anonimato.
Esta história funciona precisamente porque explora essas duas fraquezas humanas, a necessidade de aprovação e a tendência para a (pequena) maldade.
A primeira costuma estar relativamente satisfeita mas na possibilidade de ser levada ainda mais adiante para satisfazer um orgulho que tentam que não esteja em evidência, tal é feito. A segunda está controlada pelas regras sociais mas no caso de poder ser saciada sem consequências, assim é.
N'O Jogo tudo começa como uma série de partidas executadas pelo protagonista, HP, admiradas por vários utilizadores anónimos e cumpridas sem um momento para reflexão. Até que uma dessas partidas afecta pessoalmente o protagonista e coloca em risco a vida da sua irmã. 
Claramente, só o egocentrismo poderia mudar o rumo assumido por HP e transformá-lo num paranóico movimentando-se contra as teorias da conspiração sobre as secretas intervenções sociais e políticas das grandes corpoorações.
A "perseguição" excitante que leva HP de um telemóvel sem informação a uma grande conspiração é uma leitura agradável e despretensiosa. Não se pode, só por isso, deixá-la sem alguma avaliação mais ríspida.
O livro assenta numa estrutura de dois pontos de vista, separados capítulo a capítulo e sempre intercalados, mas que acabam por se cruzar várias vezes.
De irmão para irmã e de novo em sentido contrário, não é a melhor solução para o desenvolvimento da acção, pois se funciona bem quando os dois vão "colidir", funciona mal quando os dois estão em momentos tão diferentes da trama que a cena de um interrompe a cena do outro. E, claro, ainda tem o dom de ser inútil quando os dois estão em progressão conjunta.
A estrutura do livro é inspirada pela montagem cinematográfica, uma conclusão tão óbvia como fácil de fazer. Afinal, o livro tem mesmo uma cena copiada de North by Northwest e se o seu título não é a confissão da inspiração no filme de David Fincher com o mesmo nome, não sei o que possa ser.
No entanto essa inspiração cinematográfica não dá a liberdade ao narrador para se movimentar sem limitações entre cenas e entre personagens (secundárias).
Se os thrillers literários querem pegar nas soluções que garantem o sucesso do género no cinema, têm depois de conseguir para lá delas e utilizar as possibilidades que escapam ainda ao que é feito para a tela.
Entre elas contam-se a falta de limitações orçamentais e de duração impostas à história.
Mais ainda do que essas, a possibilidade de intercalar na acção elementos desestabilizadores, que ramifiquem as conspirações que se podem imaginar a partir da história individual de Henrik Petterson. Algo tão óbvio quanto a reprodução de artigos de jornais ou fóruns de internet (onde boa parte do que importa neste livro se passa) ou mais inventivo quanto a revelação de cenas do Jogo quando os telemóveis ainda não eram forma de comunicação convencional.
Elementos esses que reforçariam o contraponto entre a sede de protagonismo de quem está na internet hoje em dia e outro tipo de satisfação que foi ficando para trás.
Que uma história que se fez thriller e que procurou uma temática tão "modernaça" se limite com uma estrutura tão monótona é a sua falha mais grave.
Coloca em evidência que são as duas personagens centrais que estão ao serviço da trama e não que as suas histórias - e a de outras, como Faroock - possam ser verdadeiramente pensadas com um Passado e um Futuro que afectem a porção de tempo em que elas enfrentam o Jogo e em que nós as acompanhamos, ainda que se deva dizer em favor de Anders de la Motte que este não as reduziu a figuras sem espessura.


O Jogo (Anders de la Motte)
Bertrand Editora
1ª edição - Janeiro de 2014
328 páginas

sábado, 8 de março de 2014

Os livros que tornam os outros melhores


Para se estar satisfeito mesmo perante os problemas que os livros de James Patterson possam ter, basta ler o equivalente de Alex Cross: A Caça da década de 1960.
Esse livro é Cadáveres para Cuba, material que merece estar arquivado na categoria de Exploitation.
Trata-se da história de um detective nascido ainda nos penny dreadfuls do final do século XIX e cuja existência se prolongou por tantas décadas que deixou de ser um personagem para passar a ser uma figura adaptada a qualquer situação por mais implausível que seja.
Neste caso, uma aventura na Cuba de Fidel Castro onde serve de guarda-costas a uma herdeira britânica.
O início do livro assemelha-se ao de um policial britânico. Depois, com a chegada a Cuba, torna-se numa espécie de thriller político. Mais adiante assume a centralidade das cenas de guerra. E isto antes de terminar com um regresso à história que marcava o início do livro.
O problema, claro, é que nenhum destes momentos combina, ficando como arcos narrativos que foram agregados no livro mas que nunca poderiam combinar-se.
Um livro que está ao nível dos piores dos filmes Euro War (para esta comparação era mais singificativo chamar-lhes pelo seu outro nome, Macaroni Combat) que a Itália produzia quase sem orçamento na mesma década a que este livro pertence.
Parece mesmo incompreensível que o livro partilhe com esses filmes, além da má escrita, os cenários esquemáticos e a falta de meios para as cenas centrais.
Isso fica pela culpa do autor, seja lá ele quem for... Certamente que Arthur Kent é o pseudónimo de um autor, senão de mais ainda, e nem se pode ter a certeza se o texto não terá sido alterado pelo editor antes de ser impresso.
Os males da obra parecem contaminar a própria edição, cheia de gralhas e sem cuidados de revisão. Num certo sentido, a edição faz justiça ao livro, exponenciando os seus (muitos) defeitos de origem.
Um quantidade absurda de gralhas, falta de revisão e um descuido absoluto na tradução que torna algumas frases totalmente incompreensíveis.
No espaço de quatro páginas, Karl Marx consegue ser "Carlos Mark", "Carl Marcos" e (finalmente) "Carl Marx". E as pessoas da direita (política) começam por ter ideias "fascinantes" para depois serem "fascistas" convictos.
Por momentos ainda se julga que a causa destes momentos estranhos era de alguma censura do Estado Novo, mas são apenas erros clamorosos.
Junte-se-lhe o papel de má qualidade, as páginas cortadas de forma desigual e as palavras impressas em desalinho, e a experiência com este livro só pode mesmo ser a de guilty pleasure (que será sempre muito ocasional), nas más condições em que um livro destes deveria ser lido.
Para culminar tudo isto, a capa da edição nacional não tem nada que ver com o conteúdo, pois não há vestígios de um espião ao estilo James Bond rodeado de mulheres atraentes.
Uma experiência divertida (ou, pelo menos, curiosa) mas que nos leva a ter condescendência com os thrillers de acção que são escritos cinco décadas depois.

Cadáveres para Cuba (Arthur Kent)
Editorial Ibis
1ª edição - Maio de 1969
168 páginas

quarta-feira, 5 de março de 2014

O habitual e o radical

Passaram-se menos meses desta vez, mas o apelo deste vício escapista já se voltava a fazer sentir e não há motivos para o contrariar.
Com uma mesma personagem a ser protagonista de livro para livro não há já muito a analisar sobre isso, sendo a variação de cenário que dá pistas de leitura interessantes. Sobretudo acerca da gestão do público e das intenções do autor ao longo de uma série com um grande número de tomos e vendas de enorme .
Desta vez Cross enfrenta um crime macrabo e de enorme crueldade - o massacre e a mutilação de uma família inteira - que o leva a uma teia de assassinatos que servem de controlo político aos líderes de poderes instituídos em países africanos cujos regimes variam entre a democracia duvidosa e a confessa ditadura.
O livro beneficia de um cenário tão diferente dos anteriores para ganhar uma certa frescura. Ainda só tivemos três livros da série editados por cá, mas suponho que essa seja uma das necessidades constantes (embora um ou outro livro possa não conseguir começar com tanta originalidade como esperado) para a série durar vinte e um tomos até agora.
Claro que essa frescura significa, no caso deste thriller, descrições desinibidas de cenas violentas. Isso é um risco perante um público generalista como é o desta série, mas a motivação para tal torna-se entendível perante as intenções do autor - e nem pode ser julgada sem as ter em conta.
Essas intenções passam pela consciencialização para as atrocidades cometidas naquela zona do mundo - depreendendo-se que a um público norte-americano pouco informado sobre o que não seja a sua realidade local.
A impressão violenta da escrita serve, precisamente, para vincar o quão a realidade é ainda mais violenta. E surge combinada com cenas de exposição, como aquelas em que Cross tem de visitar e servir num campo de refugiados no exacto momento em que este é atacado.
Haverá quem não goste de ver o personagem a servir de vazão à moralidade do autor - que, por outro lado, tem por norma incluir nos seus livros referências elogiosas a obras que sejam do seu agrado - e não porque esta não seja a mais correcta, porque gera uma variação que pode existir mal sob o nome de Alex Cross.
Essa dimensão de denúncia leva Cross a um destino e a uma actuação que são um desvio acentuado ao que é hábito na série.
A forma como Alex Cross pretende actuar - a solo! - num país que lhe é estranho tem mais que ver com um herói de acção desligado de bases reais do que a de detective urbano recorrendo à sua análise de psicólogo.
Parece tratar-se de uma aproximação a um papel misto entre espião e mercenário, em que a coerência da personagem é levada ao limite - se o atravessa ou se fica microscopicamente aquém dele é uma decisão que cada leitor fará no momento de ler o próximo volume.
Sabendo o leitor que Cross não poderá morrer ou a série terminaria, é preciso que este comece por aceitar o extraordinário desta situação.
Sendo verdade que Patterson não deixa que, desta vez, Cross se safe imaculadamente ou sem ajudas alheias da situação em que se envolveu, também o é que há uma leitura egocêntrica - e um pouco egoísta num protagonista cujos filhos já perderam a mãe e cuja família é colocada em perigo várias vezes - de Cross acerca do seu papel de herói do mundo todo.
Por isso, uma certa despreocupação com o nome do personagem que comanda a série e uma atenção quase exclusiva aos acontecimentos poderá ser a combinação ideal para o apreço deste livro. Depois se verá se a série evoluiu.
Afinal, de todas as criações de Patterson que até agora conhecemos, Alex Cross continua a ser a mais interessante (ainda que o potencial de Private - Agência Internacional de Investigação possa vir a mudar essa opinião).


Alex Cross: A Caça (James Patterson)
Topseller
1ª edição - Novembro de 2013
384 páginas

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quem escreve?

Chamar para protagonistas um par de detectives da brigada especial dedicada a crimes cujas vítimas têm grande exposição púbica é uma ideia com potencial para fazer um comentário à sociedade contemporânea e as suas obsessões.
Claro que isso é uma expectativa própria para livros que não sejam os de James Patterson, cujas intenções são as de proporcionar a leitura de thrillers de acção intensa a ritmo rápido.
Isso é cumprido, como quase sempre acontece com o que o autor publica, mesmo se no final a leitura se assemelhe muito a uma "tarefa cumprida": não é um livro mal escrito mas é apenas mais um entre a produção do autor; não é um livro de que se desgoste, mas no final sobra-nos alguma indiferença por ele.
Para servir essa dose de acção e ritmo, Patterson aproximou-se desta vez das regras do cinema, ou não fosse o nome do seu parceiro de escrita o de alguém que já escreveu argumentos e que mantém uma série policial passada em Los Angeles.
Nesse sentido, Patterson coloca Hollywood em Nova Iorque e cria uma investigação em que o vilão se rege pelas regras de um argumento que ele escreveu na sua cabeça para provar a todos que está ao nível daqueles que o rejeitam sistematicamente.
Esta ideia não é nova e não é levada a bom termo (veja-se aqui um exemplo da mesma e melhor usada) por um conjunto de motivos que são importantes de assinalar - e que, talvez não por acaso, se assemelham aos mesmos males que se assinalam nos argumentos de várias grandes produções cinematográficas actuais.
Identifica-se desde logo uma inverosimilhança pelo exagero de habilidades dadas ao vilão. Não só ele é um mestre do disfarce como tem conhecimentos de explosivos e dos meandros do funcionamento da cobertura televisiva de eventos. Tudo vindo, somente, de anos a ser usado como figurante.
Depois é apercebido o vazio das personagens que se comportam na medida exacta daquilo que a história precisa e nada mais. O caso de como a parceira do vilão se conduz até à sua própria morte o exemplo acabado de como não chegam a construir-lhe uma personalidade pois a sua utilidade é limitada e breve.
Finalmente, é notório que o livro tem como objectivo maior lançar as bases de uma parceria com tanto de romântica como de profissional - o detective recebe como parceira temporária (para se tornar definitiva) uma antiga namorada por quem nunca deixou de ter sentimentos - e não criar um verdadeiro perfil de departamento policial que lida com os extremos da popularidade moderna e da ilusória familiaridade.
Estes aspectos denotam uma menor falta de cuidado de Patterson com os seus livros que, não desmerecendo a sua assinatura no quanto a sua leitura possa ser chamativa, não parecem justificar o enorme sucesso que outrora garantiu para si.
Aqui se levantam questões de outra ordem quanto aos livros em que o nome de James Patterson surge a par de um outro autor.
Se estruturalmente - capítulos sempre breves, escrita na primeira pessoa para o protagonista e na terceira pessoa para os restantes, história auto-conclusiva sempre com uma abertura a sequelas - o esquema do livro é o que Patterson tornou reconhecível como seu, o uso das palavras denota grandes diferenças de livro para livro.
Forma-se a ideia de que Patterson fornece as ideias e o cunho vendável do seu nome a cada livro, mas depois esse fica a cargo do co-autor.
Se compararmos os diálogos deste livro com outros assinados por Patterson, temos aqui os menos inspirados (num ou noutro momento aproximando-se do ridículo) enquanto que a sucessão de cada acto está, provavelmente, entre as tratadas com mais vigor narrativo.
Se antigamente se falava nos "negros" como essenciais para que o miolo do livro se encorpasse, hoje esses "negros" podem ter começado a exigir que o seu nome não fique apagado na obra final.
Só que, ao invés de melhorarem os pontos que eram as fraquezas do autor principal, podem estar igualmente a adicionar-lhe as suas.
Fossem mais significativas as obras em que tal está em causa e valeria a pena investigar como funcionam realmente estas simbioses/aproveitamentos.


NYPD Red (James Patterson e Marshall Karp)
Topseller
1ª edição - Agosto de 2013
336 páginas