quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Épica beleza do mundano

Um episódio literário grandioso, destacado num poema ainda vivo após quase três mil anos desde a sua origem, revisto e adaptado por várias vezes.
Um episódio igualmente violento, graficamente explorado sempre que possível, e que assombra todas as memórias da Guerra de Tróia, como se só ele fizesse digna de nota uma luta que durou dez anos.
Deste episódio entre Aquiles e Príamo a propósito da recuperação do corpo violentado de Heitor, consegue David Malouf retirar uma extraordinária beleza.
Uma beleza, desde logo, literária com cada frase a ser tratada como um material precioso e posicionada no conjunto com o cuidado que merece a filigrana.
Os fundamentos desta excelente narrativa nunca surgem fragilizados por essa beleza permanente que David Malouf procura e atinge.
Uma beleza que se aproxima da poesia - o que, talvez, seja a forma mais própria e nobre de escever com base n'A Ilíada - e que é capaz de comover porque aproxima os mitos do humano.
Essa transformação completa dos dois protagonistas em seres humanos, retirando-lhes o peso do que têm a mais - "herói" e "monarca" - através de histórias de vida que os trouxeram até ao momento do encontro e que o transformam num momento de cruel sentido para a experiência que eles carregam consigo.
As descrições da vida comum vivida nas infâncias e juventudes de Aquiles e Príamo são vívidas e transformam-nos em personagens que são já mais - por serem primeiro menos - do que os símbolos de nobreza e tragédia que continuarão a ser.
Claro que é a identificação mútua pelos sentimentos de perda que depois permitem a estes mitos tombarem humanos um perante o outro - e perante o leitor - dentro daquela tenda.
A tenda onde um pai em sofrimento vai resgatar o corpo do filho das mãos de um "irmão" em igual sofrimento.
Tão simples quanto isto, a Guerra, a História e a Humanidade sintetizadas no encontro de dores que tornam a humilhação própria ou a bondade hospitaleira em meros adereços.
A manipulação até à simplicidade de Aquiles e Príamo não impede que Malouf revisite o tema central de todos os poemas épicos: a imortalidade.
Estes dois nomes nunca serão apagados da História porque intervieram num poema contado vezes sem conta.
Malouf faz o mesmo com Sómax, o condutor da carroça que transportaria Príamo e o corpo do filho, explorando aqui as possibilidades dramáticas que guarda para sempre o 
A forma como Sómax convence o seu rei a mergulhar os pés no lago tem a força de carácter de uma figura igualmente imortal.
Com esse gesto apenas ele não só alivia o sofrimento do homem a seu lado, como revela a normalidade que está por detrás de qualquer ser humano, não importando a sua ascendência.
A sua marca é a de impôr uma pausa potencialmente caricata a um dos percursos mais trágicos já feitos por alguém, logo a tornando indispensável.
Se Príamo e Aquiles se transformam com Malouf em duas figuras ainda mais extraordinárias do que já eram, é através da intervenção de Sómax que Malouf nos leva a compreender por inteiro o que faz o talento de Malouf, o de adicionar a beleza do mundano ao que é épico e conseguir uma unidade fortalecidade entre ambas.


Resgate (David Malouf)
Bertrand Editora
1ª edição - Março de 2013
192 páginas

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Dos livros para os livros

Há muito de distinto entre Ara e Cinerama Peruana, mas há igualmente muito de semelhante. Isso será um sinal do porquê de serem ambos dois dos melhores livros que saíram o ano passado (independentemente da nacionalidade de origem, se é preciso dizê-lo).
Aquilo que têm de semelhante será um ponto de partida interessante para esta crítica, tal como a leitura em sequência destes livros permitiu que um e outro crescessem perante o leitor que assim teve a sorte casual de lhes pegar de seguida
Ambos os romances estão estruturados em peças independentes que se unem pelos sentidos que só se podem encontrar no momento em que todas elas foram lidas pela ordem estabelecida.
E ambos são agregações da essência das possibilidades da Literatura, citando e inovando fontes essenciais.
Se no caso de Ara a citação era das próprias forma literárias, em Cinerama Peruana é das referências, autores essenciais a uma aprendizagem da "Gramática Unviersal" da melhor Literatura: aquela que cresce, também, pelas pequenas falhas.
Rodrigo Magalhães é leitor, livreiro e agora escritor, pelo que ganhou em primeira mão as múltiplas experiências do prazer de se relacionar com as palavras, os livros e os autores.
Quando remete para um dos escritores da sua (p)referência é porque não tem embaraço de confessar que foram eles a ensinar-lhe e inspirar-lhe o que agora lemos.
A revelação das bases serve para demonstrar o que conseguiu inventar a partir delas, aquilo que é ensinamento da leitura e aquilo que é inspiração da escrita.
Depois cada um dos contos que constituem o livro encontram-se nos temas e distanciam-se na expressão dos mesmos.
Herança, Violência, Literatura. Combinados ou desirmanados, dão mote a cada personagem - ou conjunto de personagens - trazidos a uma ribalta de interesse ficcional que nasce do lado humano negro.
Mais importante ainda entre os textos - porque se associa ao sentido geral do trabalho do autor neste livro - é o denominador comum da tentativa de superação da genealogia (teórica) que assombra cada um dos personagens.
E como essa tentativa gera lealdades - sempre em risco - para com obras permenanetemente inacabadas e que, sejam de colocar palavras no papel ou corpos na terra, continuam a ser fruto de trabalhos cansativos, exigentes e mecanizados.
Sendo Cinerama a visão cinematográfica abrangente de uma mesma realidade com base em três projecções simultâneas, não há dúvida que Rodrigo Magalhães muito se aproxima dessa ideia, dando conta de um mundo que lhe vem dos livros e que ele trabalha cerradamente com um domínio das melhores qualidades de escritor mas que tem uma abrangência que se percebe de imediato mas que só o tempo - e obras adicionais, crê-se e espera-se - poderão chegar a desvendar por completo.


Cinerama Peruana (Rodrigo Magalhães)
Quetzal Editores
1ª edição - Junho de 2013
232 páginas

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

No altar da procura

Na capa está explícito que este livro é um Romance mas a sua forma - com peças tão distintas - é outra que temos de aprender a conhecer melhor.
Este texto guarda espaço para a poesia, uma aproximação ao ensaio, um teatro do pensamento e a ideia de conto.
A autora surge à procura da maneira como todas estas formas são capazes de existir dentro da etiqueta tão abrangente do Romance.
Essa é a demanda a que mais facilmente responde, com uma crença nas possibilidades do Romance que a levam a este trabalho de experimentação.
A procura mais firme não é a dessa ideia geral do que pode estar num Romance, mas de que todos estes textos possam estar juntos e formar este romance em particular.
O livro procura que a independência de cada uma das suas narrativas - em sentido lato - permaneça intacta num percurso ordenado dentro da globalidade que leva o nome de Ara.
Ara é uma daquelas palavras que se aprendem por acaso por via de umas palavras cruzadas feitas num tempo que a memória perdeu.
Sinónimo de altar e recurso recorrente para ligar outras palavras, dando nome à obra fala-nos, nem que seja inconscientemente, de uma reverência à Língua Portuguesa e à forma de a potenciar - radicalizando-a dentro de normas conhecidas -; e de uma ligação por intersecção de várias narrativas para um conceito final que possa ser chamado de romance.
E o que se coloca num altar? Amor e sacrifício.
Esses são os pontos de intersecção que definem como estas histórias se tornam unas.
Ana Luísa Amaral está à procura de falar do que une duas pessoas - sem que importe o género, embora num dos momentos memoráveis do livro essas pessoas sejam ambas mulheres - e que também une todas as pessoas deste mundo.
Amor como sinónimo de humanidade e como matéria universal de escrita, sem reduções do seu sentido absoluto.
Daí o sacrifício como contraparte desse amor, a individualização de cada vivência que seria banal de tão comum estado de graça.
Os temas maiores do romance estão em consonância plena com o exercício de estruturação do mesmo, uma busca indissociável da outra: como voltar a falar de Amor não sem repetir o que foi escrito e como foi escrito.
Essa busca da autora é, também, a sua busca pelo leitor, de que este se cruze pessoalmente com os sentimentos vividos pelos personagens e mesmo assim seja surpreendido por tudo o resto que é inerente ao trabalho puro de escrita que nunca está domado por uma ideia de romance mas extende-se até àquilo que poderíamos chamar de argumentação dialogada sobre a condição feminina.
Ara é um daqueles livros que nos abençoa com uma condenação, a de a ele voltar ainda várias vezes dentro da procura das possibilidades para o seu efeito de conjunto.


Ara (Ana Luísa Maral)
Sextante Editora
1ª edição - Outubro de 2013
88 páginas

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A Europa. E Portugal?

Quando me dediquei a ler um volume de trezentas páginas acerca da prolongada crise económica - e política - que é vivida neste continente sabia que a experiência terminaria depressa a menos que uma (esperada) surpresa se afigurasse nesta abordagem escrita ao tema.
Dado que acompanho com regularidade diária, na imprensa escrita, os muitos tópicos envolvidos nos problemas europeus estão bem compreendidos e o seu tratamento jornalístico está bem conhecido.
A minha exigência ia para um relato que tivesse algo de literário, ainda que com toda a exigência jornalística que deve acompanhar o editora para a Europa da BBC.
Gavin Hewitt consegue fazer isso mesmo e conseguir a tal surpresa, dando conta simultânea das duas dimensões que importam na realidade da Europa em crise, a das "altas esferas" e a do "homem na rua".
A ligação que é capaz de estabelecer entre as decisões que os políticos tomam e as reacções que os manifestantes têm nas ruas não é meramente hipotética ou colocada como um sensionalismo mal investigado.
A lógica da relação entre as várias dimensões desta "história" relacionam-se como num romance histórico de grande envergadura - embora nada épico, reconheça-se.
Tal funciona porque Gavin Hewitt consegue dar dimensão humana também às figuras políticas de quem é hábito fazer uma leitura limitada ao aspecto de decisor político e, por isso, muitas vezes condicionada por um preconceito.
As limitações que a lei alemã coloca a Angela Merkel e a maneira como Nicolas Sarkozy foi estabelecendo uma relação com ela para superar esses problemas são alguns dos pontos fortes que o livro consegue estabelecer para uma compreensão profunda dos meandros da política que envolvem directamente as modelações pessoais de cada um dos intervenientes
Essa capacidade faz com que o livro mantenha o seu interesse em alta a cada capítulo, mesmo à medida que se aproxima do período actual.
Os momentos mais recentes - aqueles em que os problemas se agravaram e que obrigaram a um resgate financeiro em Portugal - acabam por ser aqueles em que o livro é menos esclarecedor, mas apenas porque são também aqueles que levaram a uma atenção mais intensa às notícias.
Já a explicação da cadeia de acontecimentos iniciais que encaminharam a Europa para a crise e para os muitos erros que a intensificaram é extremamente esclarecedora, tornando o livro num texto essencial onde o didactismo vem da elegância da escrita em vez de a vir condicionar.
Vale a pena acrescentar um parágrafo particular a propósito da relevância do livro para os leitores do nosso país.
Uma conclusão importante que o livro permite, e que deve ser destacada por vir da visão que tem alguém que está "de fora" a olhar para a Europa, é a de que Portugal conta pouco para a História que ficará deste período.
Portugal é referido de passagem perante os capítulos longos dedicados aos outros dois países sujeitos a resgates - além daqueles dedicados às situações hesitantes de Espanha e Itália.
Somos um país modesto e moderado que tem sofrido mas a quem faltou a grande luta contra o que por cá se chama "protectorado".
Uma grande luta travada na esfera diplomática pelos políticos muito orgulhosos da sua independência conquistada, como no caso dos Irlandeses, ou travada directamente nas ruas com tácticas terroristas, como no caso dos Gregos.
Aquilo que se vê aqui - e sem leituras políticas que não é essa a intenção desta crítica - é que aquilo que o registo português na História mostrará é uma insuficiência da manifestação da vontade quer do povo quer dos políticos.
Se por um lado é bom que tal tenha acontecido, porque não se registaram os ataques destruídores e assassinos da Grécia, é também mau porque demonstra que a classe mandante local é apenas um conjunto de figurantes a que falta a personalidade que é encontrada pelos jornalistas nos governantes dos restantes países.
Falta de personalidade que nos governantes portugueses acabou por anular a personalidade que o povo português apresentava.
É pela falta de um capítulo sobre Portugal que o livro mais esclarece sobre a situação do país quem por cá o leia.


O Continente Perdido (Gavin Hewitt)
Editorial Bizâncio
1ª edição - Outubro de 2013
336 páginas

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ler com água na boca

Esta é uma introdução à Gastronomia que deve ser saboreada. Os seus textos breves devem ser degustados com moderação e não consumidos em catadupa, para melhor se poder registar os muitos dados excepcionais que os pratos revelam.
Aliás, o ideal seria ter a hipótese de, a cada história lida, ir provar o prato num local onde este fosse tratado
com a mesma dedicação e preparado com o mesmo conhecimento que Fortunato da Câmara coloca na revelação das suas origens.
Como não é possível fazê-lo, temos de nos contentar com a acção que as palavras são capazes de ter sobre as papilas gustativas, despertando memórias de antigas refeições ou criando a imaginação de refeições que estão por vir.
A proeza do autor é dedicar tanta atenção aos pratos quanto às suas possibilidades literárias, ou seja, de explorar pratos que se notam ser do seu agrado, mas sempre contendo passados que lhes permitam conquistar um leitor que possa não ter desejos antecipados por eles.
Pode dizer-se que há histórias para figurar em todos os géneros - e, logo, para convencer qualquer tipo de leitor.
Das dúvidas que permanecem em torno do verdadeiro criador ou do ponto de origem de um prato - como convém a qualquer obra de arte - ao toque de humor crítico que se pode encontrar no visionarismo do Abade de Priscos em utilizar palha num dos seus repastos.
Neste livro há disputas pelo direito de chamar "O original" a um prato, revelações bisbilhoteiras de tempos mais ousados, reivindicações de patos entre estratos sociais, várias ousadias - e mais acidentes - a passarem a mito, realidades que provam que as nossas preconcepções são absurdas e homenagens extraordinárias a verdadeiras divas.
Um pouco de tudo o que a realidade tem de extraordinário e de absurdo, como é próprio tanto do quotidiano como da Arte, dois domínios a que as refeições pertencem simultaneamente.
Mesmo que o leitor não creia que o relato de um determinado prato lhe interessa, assim que inicia a leitura rende-se à inevitável assimilação de uma outra realidade humana que se banalizou - o Croquete - ou tornou raro - Pêssego Melba -; que se degenerou - Bifes stroganov - ou se apurou - Fondue.
A Gastronomia surge como um mapa das Eras, do que foi e que não pode voltar a ser, do que teve de se transformar para ceder às condições actuais e até mesmo do que se perdeu por não se antecipar o futuro - exemplar o caso do Abade de Priscos que muito bem dá título ao livro e o encerra com uma última extraordinária história de sucesso culinário e derrota memorialista.
Sendo filho de um gastrónomo que sempre guardou uma prateleira para os livros de e sobre a Cozinha, sinto ter falhado ao demorar tanto tempo a render-me aos prazeres da boa literatura da boa mesa.
Ou talvez o que fizesse falta há mais tempo fosse esta maneira sedutora de entrar no domínio escrito daquilo que dá prazer provar, ou seja, através de relatos que valorizam os mistérios, os logros e os duelos que ainda vivem em torno de cada prato.
Uma introdução mais emocionante para um tema que exige estudo - não só o que é feito em direcção ao estômago - como a bibliografia deste livro prova.
A documentação do autor é notável, como é notável que ele resuma o muito que teve de conhecer em crónicas tão pequenas mas tão plenas, sempre com uma prosa expedita. 
Um livro apetitoso, que vale a pena ser lido em voz alta em partilha como se de uma refeição em comum se tratasse! É esse o grau de encanto que esta selecção de pratos tem.


Os Mistérios do Abade de Priscos (Fortunato da Câmara)
A Esfera dos Livros
1ª edição - Abril de 2013
328 páginas