quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

No altar da procura

Na capa está explícito que este livro é um Romance mas a sua forma - com peças tão distintas - é outra que temos de aprender a conhecer melhor.
Este texto guarda espaço para a poesia, uma aproximação ao ensaio, um teatro do pensamento e a ideia de conto.
A autora surge à procura da maneira como todas estas formas são capazes de existir dentro da etiqueta tão abrangente do Romance.
Essa é a demanda a que mais facilmente responde, com uma crença nas possibilidades do Romance que a levam a este trabalho de experimentação.
A procura mais firme não é a dessa ideia geral do que pode estar num Romance, mas de que todos estes textos possam estar juntos e formar este romance em particular.
O livro procura que a independência de cada uma das suas narrativas - em sentido lato - permaneça intacta num percurso ordenado dentro da globalidade que leva o nome de Ara.
Ara é uma daquelas palavras que se aprendem por acaso por via de umas palavras cruzadas feitas num tempo que a memória perdeu.
Sinónimo de altar e recurso recorrente para ligar outras palavras, dando nome à obra fala-nos, nem que seja inconscientemente, de uma reverência à Língua Portuguesa e à forma de a potenciar - radicalizando-a dentro de normas conhecidas -; e de uma ligação por intersecção de várias narrativas para um conceito final que possa ser chamado de romance.
E o que se coloca num altar? Amor e sacrifício.
Esses são os pontos de intersecção que definem como estas histórias se tornam unas.
Ana Luísa Amaral está à procura de falar do que une duas pessoas - sem que importe o género, embora num dos momentos memoráveis do livro essas pessoas sejam ambas mulheres - e que também une todas as pessoas deste mundo.
Amor como sinónimo de humanidade e como matéria universal de escrita, sem reduções do seu sentido absoluto.
Daí o sacrifício como contraparte desse amor, a individualização de cada vivência que seria banal de tão comum estado de graça.
Os temas maiores do romance estão em consonância plena com o exercício de estruturação do mesmo, uma busca indissociável da outra: como voltar a falar de Amor não sem repetir o que foi escrito e como foi escrito.
Essa busca da autora é, também, a sua busca pelo leitor, de que este se cruze pessoalmente com os sentimentos vividos pelos personagens e mesmo assim seja surpreendido por tudo o resto que é inerente ao trabalho puro de escrita que nunca está domado por uma ideia de romance mas extende-se até àquilo que poderíamos chamar de argumentação dialogada sobre a condição feminina.
Ara é um daqueles livros que nos abençoa com uma condenação, a de a ele voltar ainda várias vezes dentro da procura das possibilidades para o seu efeito de conjunto.


Ara (Ana Luísa Maral)
Sextante Editora
1ª edição - Outubro de 2013
88 páginas

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A Europa. E Portugal?

Quando me dediquei a ler um volume de trezentas páginas acerca da prolongada crise económica - e política - que é vivida neste continente sabia que a experiência terminaria depressa a menos que uma (esperada) surpresa se afigurasse nesta abordagem escrita ao tema.
Dado que acompanho com regularidade diária, na imprensa escrita, os muitos tópicos envolvidos nos problemas europeus estão bem compreendidos e o seu tratamento jornalístico está bem conhecido.
A minha exigência ia para um relato que tivesse algo de literário, ainda que com toda a exigência jornalística que deve acompanhar o editora para a Europa da BBC.
Gavin Hewitt consegue fazer isso mesmo e conseguir a tal surpresa, dando conta simultânea das duas dimensões que importam na realidade da Europa em crise, a das "altas esferas" e a do "homem na rua".
A ligação que é capaz de estabelecer entre as decisões que os políticos tomam e as reacções que os manifestantes têm nas ruas não é meramente hipotética ou colocada como um sensionalismo mal investigado.
A lógica da relação entre as várias dimensões desta "história" relacionam-se como num romance histórico de grande envergadura - embora nada épico, reconheça-se.
Tal funciona porque Gavin Hewitt consegue dar dimensão humana também às figuras políticas de quem é hábito fazer uma leitura limitada ao aspecto de decisor político e, por isso, muitas vezes condicionada por um preconceito.
As limitações que a lei alemã coloca a Angela Merkel e a maneira como Nicolas Sarkozy foi estabelecendo uma relação com ela para superar esses problemas são alguns dos pontos fortes que o livro consegue estabelecer para uma compreensão profunda dos meandros da política que envolvem directamente as modelações pessoais de cada um dos intervenientes
Essa capacidade faz com que o livro mantenha o seu interesse em alta a cada capítulo, mesmo à medida que se aproxima do período actual.
Os momentos mais recentes - aqueles em que os problemas se agravaram e que obrigaram a um resgate financeiro em Portugal - acabam por ser aqueles em que o livro é menos esclarecedor, mas apenas porque são também aqueles que levaram a uma atenção mais intensa às notícias.
Já a explicação da cadeia de acontecimentos iniciais que encaminharam a Europa para a crise e para os muitos erros que a intensificaram é extremamente esclarecedora, tornando o livro num texto essencial onde o didactismo vem da elegância da escrita em vez de a vir condicionar.
Vale a pena acrescentar um parágrafo particular a propósito da relevância do livro para os leitores do nosso país.
Uma conclusão importante que o livro permite, e que deve ser destacada por vir da visão que tem alguém que está "de fora" a olhar para a Europa, é a de que Portugal conta pouco para a História que ficará deste período.
Portugal é referido de passagem perante os capítulos longos dedicados aos outros dois países sujeitos a resgates - além daqueles dedicados às situações hesitantes de Espanha e Itália.
Somos um país modesto e moderado que tem sofrido mas a quem faltou a grande luta contra o que por cá se chama "protectorado".
Uma grande luta travada na esfera diplomática pelos políticos muito orgulhosos da sua independência conquistada, como no caso dos Irlandeses, ou travada directamente nas ruas com tácticas terroristas, como no caso dos Gregos.
Aquilo que se vê aqui - e sem leituras políticas que não é essa a intenção desta crítica - é que aquilo que o registo português na História mostrará é uma insuficiência da manifestação da vontade quer do povo quer dos políticos.
Se por um lado é bom que tal tenha acontecido, porque não se registaram os ataques destruídores e assassinos da Grécia, é também mau porque demonstra que a classe mandante local é apenas um conjunto de figurantes a que falta a personalidade que é encontrada pelos jornalistas nos governantes dos restantes países.
Falta de personalidade que nos governantes portugueses acabou por anular a personalidade que o povo português apresentava.
É pela falta de um capítulo sobre Portugal que o livro mais esclarece sobre a situação do país quem por cá o leia.


O Continente Perdido (Gavin Hewitt)
Editorial Bizâncio
1ª edição - Outubro de 2013
336 páginas

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ler com água na boca

Esta é uma introdução à Gastronomia que deve ser saboreada. Os seus textos breves devem ser degustados com moderação e não consumidos em catadupa, para melhor se poder registar os muitos dados excepcionais que os pratos revelam.
Aliás, o ideal seria ter a hipótese de, a cada história lida, ir provar o prato num local onde este fosse tratado
com a mesma dedicação e preparado com o mesmo conhecimento que Fortunato da Câmara coloca na revelação das suas origens.
Como não é possível fazê-lo, temos de nos contentar com a acção que as palavras são capazes de ter sobre as papilas gustativas, despertando memórias de antigas refeições ou criando a imaginação de refeições que estão por vir.
A proeza do autor é dedicar tanta atenção aos pratos quanto às suas possibilidades literárias, ou seja, de explorar pratos que se notam ser do seu agrado, mas sempre contendo passados que lhes permitam conquistar um leitor que possa não ter desejos antecipados por eles.
Pode dizer-se que há histórias para figurar em todos os géneros - e, logo, para convencer qualquer tipo de leitor.
Das dúvidas que permanecem em torno do verdadeiro criador ou do ponto de origem de um prato - como convém a qualquer obra de arte - ao toque de humor crítico que se pode encontrar no visionarismo do Abade de Priscos em utilizar palha num dos seus repastos.
Neste livro há disputas pelo direito de chamar "O original" a um prato, revelações bisbilhoteiras de tempos mais ousados, reivindicações de patos entre estratos sociais, várias ousadias - e mais acidentes - a passarem a mito, realidades que provam que as nossas preconcepções são absurdas e homenagens extraordinárias a verdadeiras divas.
Um pouco de tudo o que a realidade tem de extraordinário e de absurdo, como é próprio tanto do quotidiano como da Arte, dois domínios a que as refeições pertencem simultaneamente.
Mesmo que o leitor não creia que o relato de um determinado prato lhe interessa, assim que inicia a leitura rende-se à inevitável assimilação de uma outra realidade humana que se banalizou - o Croquete - ou tornou raro - Pêssego Melba -; que se degenerou - Bifes stroganov - ou se apurou - Fondue.
A Gastronomia surge como um mapa das Eras, do que foi e que não pode voltar a ser, do que teve de se transformar para ceder às condições actuais e até mesmo do que se perdeu por não se antecipar o futuro - exemplar o caso do Abade de Priscos que muito bem dá título ao livro e o encerra com uma última extraordinária história de sucesso culinário e derrota memorialista.
Sendo filho de um gastrónomo que sempre guardou uma prateleira para os livros de e sobre a Cozinha, sinto ter falhado ao demorar tanto tempo a render-me aos prazeres da boa literatura da boa mesa.
Ou talvez o que fizesse falta há mais tempo fosse esta maneira sedutora de entrar no domínio escrito daquilo que dá prazer provar, ou seja, através de relatos que valorizam os mistérios, os logros e os duelos que ainda vivem em torno de cada prato.
Uma introdução mais emocionante para um tema que exige estudo - não só o que é feito em direcção ao estômago - como a bibliografia deste livro prova.
A documentação do autor é notável, como é notável que ele resuma o muito que teve de conhecer em crónicas tão pequenas mas tão plenas, sempre com uma prosa expedita. 
Um livro apetitoso, que vale a pena ser lido em voz alta em partilha como se de uma refeição em comum se tratasse! É esse o grau de encanto que esta selecção de pratos tem.


Os Mistérios do Abade de Priscos (Fortunato da Câmara)
A Esfera dos Livros
1ª edição - Abril de 2013
328 páginas

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Não há paciência

Há muito tempo atrás, ainda este blogue era imberbe, confessei que concedia a cada livro trinta páginas para provar que merecia ser lido - ou, pelo menos, para mostrar que haveria "Vida" nas que se seguiriam - antes de o rejeitar por completo.
No entanto tenho cada vez menos paciência para os livros que não conseguem sequer esconder a sua mediocridade. As trinta páginas estão agora reduzidas a uma dúzia e suspeito que este tipo de julgamentos comece a ser feito com um par de páginas apenas.
Já têm sido vários os livros que nem chego a abordar neste espaço porque a falta de vontade continua de os ler para deles escrever.
No caso deste livro de Teresa Lopes Vieira, pelo contrário, escrever sobre ele deve ser feito como levantamento de algumas hipóteses acerca d(est)a literatura.
O que se passa com O Albatroz é similar ao que se passava com Irmã, com as referências a marcas a virem tentar dar um sinal de ligação do mundo do livro ao mundo do leitor.
É também diferente, porque se nesse outro livro as marcas serviam como referências de descrição, aqui são mesmo matéria de actualidade com que os protagonistas interagem.
Ao fim de algumas páginas, Jesus vai ao YouTube (e não Youtube como a autora escreveu, mas não se perca tempo com isso) ouvir uns relaxing piano tunes (assim mesmo, em itálico, embora YouTube não surja da mesma forma).
Na página seguinte já abriu o site do Sapo Empregos só por descargo de consciência pois já não procura lá nada.
Finalmente (até onde fui capaz de ler, claro) confessa a estranheza de ver a sua irmã seminua na capa das revistas expostas nas bancas do Pingo Doce.
Preocupa, desde logo, que esta achega à actualidade no livro coloque em causa o seu entendimento futuro quando todas estas marcas não forem sequer uma memória.
No entanto a pergunta que tem de ser feita perante esta pequena recolha (e mais situações do género haveriam para incluir) é o porquê destas escolhas em particular.
Será que ser o Sapo Empregos o site escolhido em vez do Net Empregos ou do Expresso Emprego tem algum significado que contribui para o entendimento da personagem?
Será que Jesus ir ao Pingo Doce e não ao Jumbo ou à mercearia da sua rua nos diz das escolhas pessoais que este desempregado fez ao longo da sua vida?
Sem ser pela frase "O pequeno anfíbio verde na parte superior do ecrã propunha-lhe um mundo de oportunidades, nenhuma delas aliciante." não se encontram usos específicos das escolhas da autora.
A ideia que ela deixa - não importa que seja a verdade exacta - é a de que só sabe escrever com a imaginação que vai até onde a sua vida alcança; de que é a própria escritora que vai ao Pingo Doce e corre os olhos pelas capas das revistas sobre vidas alheias e que fica desapontada com as ofertas de trabalho disponíveis no site de emprego do Sapo.
Isso afecta todo o livro, dizendo dele que nasce apenas da experiência que a escritora é capaz de reproduzir por palavras e, por isso, não é nada além de um registo mais ou menos preciso - afinal, espera-se que haja, pelo menos, um toque de criação envolvido - da realidade.
Sobre essa criação levanta-se a dúvida quando se atenta à linguagem usada, sempre resvalando para o calão actual.
Essa espécie de realismo perseguido pela autora parece colocar de parte um dos fenómenos essenciais da Literatura, a de retrabalhar a Língua mesmo que seja para reforçar a percepção de que o que está escrito nasceu da coloquialidade.
Sintomático disso é o fragmento final de texto lido antes da recusa do livro: "mas já se estava a cagar.".
Sendo, pelo menos, a segunda vez que a expressão era usada nas páginas que ficaram para trás, fica como uma sentença definitiva para este leitor em particular no momento em que havia cerca de trezentas páginas para diante.


O Albatroz (Teresa Lopes Vieira)
Bertrand Editora
1ª edição - Julho de 2013
304 páginas

domingo, 29 de dezembro de 2013

Livros em série

Há mais justiça - e lógica, estou em crer - em falar de livros como este a partir de uma ideia de entretenimento que se associa a uma larga maioria de séries televisivas.
O Golpe torna-o mais óbvio dado que a sua premissa se assemelha em muito a dois exemplos ainda activos, White Collar (sobretudo este) e The Blacklist.
Também ele é um episódio de uma série - intitulada Fox and O'Hare - que funciona durante o tempo que demora, se afasta da mente pouco depois de terminar e voltar a vir à tona pela noção de continuidade que vem com o episódio seguinte.
Este é, portanto, o livro para quem gosta de ter direito às suas séries e tem apreço pela leitura - ou gosta da portabilidade de uma história com acção que só os efeitos especiais costumam permitir criar e exotismo que só os cenários feitos com bastante dinheiro permitem concretizar.
Obviamente que com a palavra escrita tudo isso é mais simples de conseguir e este livro leva isso ao limite, com lançamentos de pára-quedas em ilhas gregas onde as mulheres não estão autorizadas a entrar ou viagens de iate interrompidas por piratas por entre os milhares de ilhas indonésias.
As qualidades que o livro precisava de ter cumprem-se, tendo o ritmo que não o deixa chegar a ser aborrecido em momento algum e tendo a duração certa para que não se lhe exija algo mais do que a diversão que proporciona.
Os autores são económicos na construção do cenário que terá de permitir que dure em vários outros, porque confiam que terão páginas suficientes para moldar melhor os personagens.
Obrigatório neste livro era "agarrar" os leitores, tal como um episódio-piloto tem de conseguir. A abordagem explosiva vem primeiro e, se a audiência for em número suficiente, espera-se que dê lugar (mas não por completo...) à substância que faz os leitores continuarem a ler.
Nesse aspecto julgo que é essencial a cooperação de Lee Goldberg perante o cenário montado para uma relação amorosa entre o criminoso e a agente por ele responsável.
O estilo flamboyant - para dizer o mínimo - com que a escritora trata as suas heroínas quando chegam às suas cenas românticas, costuma levar a exageros perfeitamente ridículo que humilham as personagens.
Por isso a conclusão é que foi Lee Goldberg a amenizar esse tipo de exploração reduzindo a uma única cena de "beijo na eminência da morte" (não há quem ainda acredite nessa tensão da possibilidade dos protagonistas morrerem, mas finge-se que sim).
Mesmo quando a protagonista é sujeita a condições que não lhe agradam - exibir-se num fato de banho reduzido - parece que é Lee Goldberg a devolver-lhe uma certa independência com uma dose de testosterona - passando-lhe um lança-granadas para as mãos.
Suponho que o nome de Lee Goldberg - como a capa deixa patente - estará sempre secundarizado contra o d'a autora de policiais mais vendida em todo o mundo. Não sei se tal será justo, mas acredito que a pequena visibilidade que, apesar de tudo, a situação lhe proporciona lhe seja benéfica.
Não tinha qualquer intenção de pegar neste livro depois da mais recente leitura de um livro de Janet Evanovich, mas um inesperado envio por parte da editora acabou por ditar que fizesse o exacto oposto.
Graças a Lee Goldberg posso dizer que fiquei satisfeito com o par de horas esquecidas à conta deste livro. Não ficarei à espera do próximo volume, mas quando sair terei um pequeno alerta no fundo da memória para que lhe dê uma vista de olhos.
Tal como o novo episódio de uma série que só de semana a semana volta a entrar na minha memória, mas a que vou assistindo relaxado. Apenas o intervalo entre eles é maior aqui.


O Golpe (Janet Evanovich e Lee Goldberg)
Topseller
1ª edição - Outubro de 2013
320 páginas