terça-feira, 29 de outubro de 2013

Aviso bom de ler

No posfácio do livro a autora diz que quis escrever como se libertada de todas as regras. Que a "escrita fosse como uma febre" e o resultado um "rock 'n' roll" literário.
Ler isto no posfácio proporciona uma clarividência sobre aquilo que se leu e que não se saberia desde logo enquandrar.
Um texto de uma energia ininterrupta que é um relato biográfico  bastante preciso - jornalístico até certo ponto - interrompido por momentos em que a objectividade sobre o passado dá lugar a um discurso directo e torrencial que penetra profundamente na realidade da depressão do qual o distanciamento não nos pode dar uma visão completa.
Pode-se dizer que é como a letra de uma canção funcionando como uma narrativa (poética, eventualmente) interrompida por refrões menos controlados mas emocionalmente mais ferozes.
Capítulo a capítulo, estrutura-se um álbum em movimento contínuo. Um estrutua de canções entre o êxtase e a dormência, mas sempre feitas de refrães que não dão descanso à alma.
Essa dimensão emocional pauta o livro como manifesto sobre a depressão e como ela se manifesta nas formas mais intensas.
Adiciona ao livro um sentido de interiorização que deve chegar a todos, acerca da consciência do que é a depressão e, não sei se como  dos limites que devem imperar sobre o uso de tal palavra por leigos.
Sobretudo aos jovens imersos numa cultura de glorificação da depressão.
Essa é, aliás, uma implicação importantíssima do livro - ainda que não explorada em demasiada - sobre a exploração comercial que se alimenta das fases depressivas dos jovens. E, portanto, as promove.
Não só pela parte da indústria farmacêutica mas também cultural, com o caso do rock (e, em particular à época a que a autora se refere, o grunge) a servir de exemplo liderante.
Não se trata, em qualquer dos dois casos, de uma exploração cínica em busca de polémica, pois a autora não despreza os muitos casos reais de depressão que exigem medicação ou que se exprimem pela criação.
A autora não despreza a necessidade das receitas prescristas ou a autenticidade das letras escritas, lança o aviso a todos os que acabarão por lidar com uma doença cada vez mais comum e que não necessita de exageros.
Chamada de atenção para a falta de ponderação nas implicações das decisões comerciais - cuja prioridade é colocada ao nível dos doentes/consumidores.
Um aviso escrito pela exposição total de quem viveu em depressão desde que, aos dozes anos, tentou concretizar uma primeira tentativa de suicídio e que experimentou todos os tipos de medicação.
Há que respeitá-lo pela coragem com que é feito mas creio que, sobretudo, há que lê-lo pela maneira como é conseguido.


Nação Prozac (Elizabeth Wurtzel)
Editorial Presença
2ª edição - Novembro de 2003
360 páginas

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A matéria dos vampiros

De novo vampiros, mas desta vez a abordagem tal como ele deve ser, em que o mito é o romance e não uma componente dele.
O livro debruça-se sobre o mito dos vampiros para se arriscar a reinventá-lo, fazendo da espécie mais uma à superfície da Terra e sob o jugo de um deus criador.
Estes vampiros são criaturas colocadas em espera durante muito tempo, que aprenderam a viver em aceitação da espécie humana, sujeitando-se a permanecer discretos e humilhados.
O seu poder é uma ferramenta que servirá a decisão de deus em apagar a sua criação que deveria comandar o mundo mas que o encaminha para o ponto de insustentabilidade.
Estes são vampiros liderados pelo Marquês de Pombal e para os quais o próprio Drácula é somente uma figura tutelar.
Mais do que figura de poder símbólico, Drácula é o primeiro deles mantido vivo e, como tal, aquele que ainda mantém a ligação aos desígnios que deus tem para eles.
A assinatura de Drácula é requisito para que os vampiros cheguem a falar com deus, mas o político português lidera as negociações.
Esta é uma forma dos vampiros que está entre o mito e a realidade, entre o extraordinário e a decepção. A força do mito original domada e sujeita a negociatas com a vontade de um ser criador que viu o poder destes seus filhos e se amedrontou do que com ele poderiam alcançar.
A força maior deste livro é a de reinventar o mito do vampiro e, ao mesmo tempo, elaborar uma reflexão cujos contornos simbólicos permitem uma vasta gama de conclusões acerca da existência humana: Drácula pode ser o erudito cuja descendência (intelectual) durará por décadas até que conquiste o mundo; ou a sociedade dos vampiros é uma classe que espera silenciosa pelo momento da revolução.
A leitura metafórica do poder será das mais fortes, a um tempo política e a outro tempo do definitivo carácter humano, de que os vampiros são a raça que espera e se humilha para arrebatar o governo da Terra.
Sejam um grupo (políticos?) à espera do momento em que os humanos falham ou uma personalidade humana à espera que a moralidade se esfume, são o lado negro da vida humana e da geral ignorância com que se lida com a consciência da realidade.
Se o Drácula permanece como um contínuo de vida modelada e fiel a um deus, os seus discípulos fazem a vez de ardentes revoltosos: injustiçados mas à beira de perderem o domínio de si mesmos.
O livro é breve, mas foi trabalhado durante quase uma década, ficando por "polir" devido à morte de Furio Jesi.
Mesmo assim é um livro de enorme força, uma surpresa exigente que não satisfará leitores expectantes de mordidelas e estacas, mas que levará a que se aprofundem as noções que se tem das mitologias de todo o mundo antes de serem afectadas pelo cristianismo.
Estão lá as figuras dessas outras cosmogonias invocadas pelo nome, na reunião das muitas famílias de vampiros, pelo que para perceber plenamente este pequeno volume e a sua radical inovação, há que a ele voltar com esse estudo feito.
Mesmo que leve uma vida inteira, há que fazê-lo em nome de uma iluminação e uma independência que evite que nos tornemos os vampiros aqui descritos e elevemos a condição humana.


A Última Noite (Furio Jesi)
Publicações Dom Quixote
Sem indicação da edição - 1988
148 páginas

domingo, 27 de outubro de 2013

Vampiros e referências

Departamento 19 é uma história de acção protagonizada por um adolescente e que usa os vampiros como contexto e chamariz.
Apesar de ser uma leitura mais bem classificada como livro para "jovens adultos" do que romance de vampiros, não deixa de ter características interessantes como material que referencia outras obras sobre vampiros, embora maioritariamente se tente remeter a uma linha directa dos mitos que têm origem na obra de Bram Stoker.
As referências estão no estilo de história contada e das próprias personagens, podendo-se dizer sem medo que são cinematográficas.
O autor não as nega, trata mesmo de as assumir e celebrar nos detalhes, como nos apelidos de algumas das suas personagens: Carpenter e Browning.
Tod Browning tendo sido quem definiu o modelo cinematográfico (anglo-saxónico, para ser mais preciso) definitivo para Drácula no cinema; e John Carpenter quem fez dos vampiros matéria de Western num estilo de herói solitário que aqui tenta.
Na construção das história há muitas outras referências a vir ao de cima, talvez algumas delas casuais (a relação entre o protagonista e a vampira remete para Låt den rätte komma in) mas quase sempre associadas a um meio visual, seja a televisão (uma sociedade vampírica ao estilo de True Blood) ou a banda desenhada (um exército que poderia pertencer às páginas de Blade).
Há um certo gosto em ser levado por esse contínuo de referências, tentando posicionar este livro num universo ficcional individual construído ao longo dos anos e esperar que, pelo contrário, quem por aqui comece a sua incursão no mundo dos vampiros consiga recuar até à obra de Bram Stoker.
O que este enumerar de referências não deixa transparecer é que Will Hill conseguiu criar um universo sólido, ao estilo de uma série de acção mas com espaço para capítulos muito apelativos que levam a história até ao passado e que são os mais bem escritos do livro.
Nesses capítulos o autor chega ao ponto de colocar em cena Scott Fitzgerald ou Aleister Crowley, naquilo que é o seu verdadeiro risco e que repete de formas similares ao longo do livro.
Risco porque, mais do que personagens reais, são as personagens ficcionais de Bram Stoker que ele traz para novas histórias - e que tomam Drácula como uma referência livresca real escrita como um manual de tácticas de combate - reinventando-lhes o percurso ou criando-lhes descendência.
De Bram Stoker mas, igualmente, de Mary Shelley, com a Criatura a ser uma personagem fulcral nesta história mas, da mesma forma, bastante diferente do que era no texto original.
Há algo desta estratégia de reunir personagens de outros livros e de com elas criar algo de novo que me recorda a estratégia de The League of Extraordinary Gentlemen.
Claro que os talentos do autor não podem ser comparados com o génio de Alan Moore, mas a verdade é que ele nem chega a colocar-se num patamar para tal.
Ele diverte-se com esse jogo de apropriação das personagens alheias mas fá-lo mais em nome da criação de uma linha mitológica mais simples de compreender ou de um cenário mais apelativo.
A pena que me fica é que o autor tenha assegurado que os riscos que corre sejam aplacados por ficarem contidos por uma história que tem a acção - e as vendas a um público
Tivesse ele aprofundado as possibilidades de relacionar Aleister Crowley com a existência de vampiros, mesmo sujeitando-se a leituras muito mais críticas, e teria conseguido um livro para um público com outro grau de exugência e de referências.


Departamento 19 (Will Hill)
Topseller
1ª edição - Junho de 2013
416 páginas

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

À procura de um editor

Depois da experiência dolorosa de No teu deserto não poderia haver outro livro de Miguel Sousa Tavares que tivesse um tal efeito negativo.
Isso não redime Madrugada Suja que se lê com uma irritação crescente até ao seu final.
Essa inicia-se com a percepção de que o autor tem a deformação profissional de jornalista demasiado entranhada na sua escrita, enumerando informação a mais - e pela boca de quem não a deve dar, como a velha e analfabeta senhora que fala de motores Rolls-Royce usado em aviões que sobrevoaram a sua aldeia - e repetindo-a desnecessariamente a cada contextualização de um cenário já traçado.
A irritação aumenta sempre que essa informação que deveria ser precisa, é usada para efeitos de ficção com uma indevida casualidade que gera pequenas incongruências cronológicas - ou apenas de lógica.
Um rapaz nascido em 1968 rezando pela saúde de Salazar ou uma mescla pouco precisa das décadas de 1990 e 2000 para o tempo presente do romance (variando entre uma e outra conforme dá mais jeito) são alguns dos muitos detalhes que arrancam o leitor à sustentada imersão no universo criado.
Não podendo ser considerado uma incongruência, mas tornando ténue a lógica da realidade, surge um personagem com a quarta classe mal acabada e que vai lendo Moby Dick.
Tal personagem é o sintoma mais óbvio do factor preponderante para tanta irritação: a falta de voz dos personagens que mais não são do que porta-vozes diferenciados para as considerações, pessoais e sociais, do autor.
Basta dizer que esse mesmo personagem, sem benefício à trama ou à sua própria caracterização, tem de ser adepto do Futebol Clube do Porto quando esse clube nada ganhava.
Deixo por analisar mais extensamente uma ou outra situação - como o capítulo feito de excertos de um diário de considerações políticas que recorre a narração quando uma entrada mais pessoal acerca de uma noite de sexo num palheiro teria bastado; ou os diálogos transcritos com travessão e tudo mais na carta de uma moribunda escrevendo emocionada ao filho - que se afiguram como menores perante a combinação das três anteriormente descritas.
Tudo isto se afigura triste perante os parágrafos dedicados à infância passada na aldeia ou à relação entre um neto e um avô que nem o são de verdade. Parágrafos com uma carga intensa do autor, muitas vezes comovendo pela sua simplicidades.
Como o romance se deforma em direcção ao libelo das muitas décadas de política e corrupção - novamente ao serviço das opiniões do homem que não do trabalho do escritor - esses parágrafos andam por ali um pouco perdidos.
Isso pode funcionar relativamente bem quando o autor fala do passado e está, assim, a elucidar leitores mais novos sobre a reforma agrária (escolhida a título de exemplo, mas no seio da qual até decorre um dos episódios mais interessantes mesmo se desnecessários ao produto do romance).
No entanto, mesmo desse tema podemos dizer que já o conhecemos porque ainda está muito presente um documentário como Torre Bela, então dos temas mais recentes e que continuam a arrastar-se nos jornais, o livro faz pouco mais do que neles insistir e, quanto muito, usá-los como ferramenta do melodrama.
Porque é disso que se trata, um melodrama com alguma ingenuidade cinematográfica que já não se usa e algum exagero telenovelístico que insiste em não morrer.
Acreditar que um arquitecto possa descobrir sozinho as contas offshore do futuro Primeiro-ministro é difícil. Que ele tenha um momento Capriano em que afasta o corrupto do poder porque é, igualmente, seu fillho (recém descoberto) é quase impossível de aceitar.
Menos difícil, ainda assim, do que o final em que uma vítima de violação - incapaz de contacto físico com um homem desde então - se renda ao amor por um dos presentes na cena do seu trauma (mas não violador...) a quem, com dezasseis anos e bêbada, pedira um beijo vai para dez anos.
De todo este livro, amálgama de elementos tão dispersos que nunca resultam sequer em pequenos conjuntos entre eles, retiro uma conclusão, de que faltou ao livro um editor que discutisse, corrigisse e melhorasse o livro.
Dessa conclusão nasce outra, já não sobre o livro mas sobre o comportamento do mercado nacional e a reacção das editoras a ele.
Creio que será pelo estatuto de escritor com vendas de um milhão de exemplares - e das expectativas que um seu manuscrito cria numa editora - que Miguel Sousa Tavares pode ser dispensado de ter o seu trabalho à prova antes da publicação.
Com estatuto de infalível, se não mesmo de intocável, sendo garantia de vendas e tendo "fugido" à sua editora habitual para outra que lhe garantisse mais liberdade (por ser, necessariamente, mais pequena no meio editorial nacional), parece-me mesmo impossível que o livro não tenha ido directamente das mãos do escritor para o prelo.
E, portanto, o que faz falta são editores que coloquem em sentido os escritores e o mercado. Mostrando a uns como devem escrever melhor e ao outro como pode lher melhor.


Madrugada Suja (Miguel Sousa Tavares)
Clube do Autor
2ª edição - Junho de 2013
352 páginas

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mais perto

Muito embora o tema do livro de Ana Zanatti esteja um pouco para lá do que eu consideraria a minha zona de conforto enquanto leitor, devo reconhecer que ela criou uma situação ideal às suas intenções.
Nesta espécie de "Corações-Partidos Anónimos" (que, de anónimos, nada têm), a autora faz um retrato global dos muitos descasos e infortúnios que as pessoas causam a si mesmas e aos outros em nome do Amor.
E do que a sociedade ora vende como conceito ora exige como modelo do que seja esse Amor.
Para concretizar isso, Ana Zanatti cria uma dinâmica de grupo muito interessante cuja função primordial é permitir que cada personagem tenha sempre a sua personalidade colocada em questão a cada nova revelação.
As mais inesperadas reacções surgem dos personagens que já pareciam ter preenchido um modelo social dominante e identificável.
Revelações que poderiam soar a falso ou a lugar-comum ficcional funcionam exactamente porque ainda conseguem gerar surpresa.
Até porque o grupo, em que todas as personagens se colocam num mesmo grau de revelação de falhanço pessoal a partir do momento em que estão presentes, faz mais do que permitir a revelação dos personagens: transforma-os.
O grupo cria um ambiente protector, de falsa intimidade, que faz com que as personagens baixem as suas defesas por saberem que não se reencontrarão depois do fim daquela noite.
Mas leva também a falsidades - melhoramentos próprios quase inócuos, na verdade - em nome da impressão imediata que ali cada um dá de si mesmo.
Assim, nenhuma personagem se torna num estereótipo e é no conjunto que elas revelam imagens completas em que cada leitor - se assim o entender - consegue recompôr um retrato de si mesmo.
Um retrato que se faz sobretudo de atitudes e escolhas e não de experiências amorosas específicas.
Toda esta dinâmica de grupo vale-se, acima de tudo, da voz própria que Ana Zanatti consegue criar para cada personagem.
As suas personalidades distinguem-se e funcionam activando umas nas outras reacções cénicas inspiradas.
Os diálogos são a mais-valia desta pequena obra, dado que eles são a própria "acção" e a dinâmica em construção da história.
Creio que a experiência da escritora como actriz não será alheia a esse controlo dos personagens por via dos seus diálogos.
O que neles ela faz é conseguir um equilíbrio dramático do qual extrai um humor saudável e desopilante - do risco da telenovelização existente quando tanto se fala de Amor num livro só - que quase parece ter surgido naturalmente em vez de ser trabalhado por quem escreve.
Humor que só falha na cena final, curiosamente a única cena passada nos momentos em que o grupo já se desfez.
Aí Ana Zanatti parece ter forçado uma situação de coincidência - dentro do próprio grupo, mas também de algo mais abrangente a que chamarei Destino - para um efeito final de revolta brusca - e femininista, sem qualquer tipo de visão negativa do termo - que contraria o efeito do que veio antes.
Dentro do grupo as personagens libertaram-se numa transição pacífica por via do diálogo, aceitando-se e à sua situação porque os outros as aceitam primeiro.
Estamos um passo mais perto da "Grande Ficção" cuja busca assumimos - editora e leitores - com estas edições.
Boa parte do prazer está em acompanhar esse processo para lá se chegar e confessar que, pelo tamanho das propostas, há autores (neste caso, e até agora, autoras) que acedemos a ler em jeito de descoberta.


E onde é que está o amor? (Ana Zanatti)
Guerra & Paz
1ª edição - Maio de 2013
368 páginas