domingo, 27 de outubro de 2013

Vampiros e referências

Departamento 19 é uma história de acção protagonizada por um adolescente e que usa os vampiros como contexto e chamariz.
Apesar de ser uma leitura mais bem classificada como livro para "jovens adultos" do que romance de vampiros, não deixa de ter características interessantes como material que referencia outras obras sobre vampiros, embora maioritariamente se tente remeter a uma linha directa dos mitos que têm origem na obra de Bram Stoker.
As referências estão no estilo de história contada e das próprias personagens, podendo-se dizer sem medo que são cinematográficas.
O autor não as nega, trata mesmo de as assumir e celebrar nos detalhes, como nos apelidos de algumas das suas personagens: Carpenter e Browning.
Tod Browning tendo sido quem definiu o modelo cinematográfico (anglo-saxónico, para ser mais preciso) definitivo para Drácula no cinema; e John Carpenter quem fez dos vampiros matéria de Western num estilo de herói solitário que aqui tenta.
Na construção das história há muitas outras referências a vir ao de cima, talvez algumas delas casuais (a relação entre o protagonista e a vampira remete para Låt den rätte komma in) mas quase sempre associadas a um meio visual, seja a televisão (uma sociedade vampírica ao estilo de True Blood) ou a banda desenhada (um exército que poderia pertencer às páginas de Blade).
Há um certo gosto em ser levado por esse contínuo de referências, tentando posicionar este livro num universo ficcional individual construído ao longo dos anos e esperar que, pelo contrário, quem por aqui comece a sua incursão no mundo dos vampiros consiga recuar até à obra de Bram Stoker.
O que este enumerar de referências não deixa transparecer é que Will Hill conseguiu criar um universo sólido, ao estilo de uma série de acção mas com espaço para capítulos muito apelativos que levam a história até ao passado e que são os mais bem escritos do livro.
Nesses capítulos o autor chega ao ponto de colocar em cena Scott Fitzgerald ou Aleister Crowley, naquilo que é o seu verdadeiro risco e que repete de formas similares ao longo do livro.
Risco porque, mais do que personagens reais, são as personagens ficcionais de Bram Stoker que ele traz para novas histórias - e que tomam Drácula como uma referência livresca real escrita como um manual de tácticas de combate - reinventando-lhes o percurso ou criando-lhes descendência.
De Bram Stoker mas, igualmente, de Mary Shelley, com a Criatura a ser uma personagem fulcral nesta história mas, da mesma forma, bastante diferente do que era no texto original.
Há algo desta estratégia de reunir personagens de outros livros e de com elas criar algo de novo que me recorda a estratégia de The League of Extraordinary Gentlemen.
Claro que os talentos do autor não podem ser comparados com o génio de Alan Moore, mas a verdade é que ele nem chega a colocar-se num patamar para tal.
Ele diverte-se com esse jogo de apropriação das personagens alheias mas fá-lo mais em nome da criação de uma linha mitológica mais simples de compreender ou de um cenário mais apelativo.
A pena que me fica é que o autor tenha assegurado que os riscos que corre sejam aplacados por ficarem contidos por uma história que tem a acção - e as vendas a um público
Tivesse ele aprofundado as possibilidades de relacionar Aleister Crowley com a existência de vampiros, mesmo sujeitando-se a leituras muito mais críticas, e teria conseguido um livro para um público com outro grau de exugência e de referências.


Departamento 19 (Will Hill)
Topseller
1ª edição - Junho de 2013
416 páginas

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

À procura de um editor

Depois da experiência dolorosa de No teu deserto não poderia haver outro livro de Miguel Sousa Tavares que tivesse um tal efeito negativo.
Isso não redime Madrugada Suja que se lê com uma irritação crescente até ao seu final.
Essa inicia-se com a percepção de que o autor tem a deformação profissional de jornalista demasiado entranhada na sua escrita, enumerando informação a mais - e pela boca de quem não a deve dar, como a velha e analfabeta senhora que fala de motores Rolls-Royce usado em aviões que sobrevoaram a sua aldeia - e repetindo-a desnecessariamente a cada contextualização de um cenário já traçado.
A irritação aumenta sempre que essa informação que deveria ser precisa, é usada para efeitos de ficção com uma indevida casualidade que gera pequenas incongruências cronológicas - ou apenas de lógica.
Um rapaz nascido em 1968 rezando pela saúde de Salazar ou uma mescla pouco precisa das décadas de 1990 e 2000 para o tempo presente do romance (variando entre uma e outra conforme dá mais jeito) são alguns dos muitos detalhes que arrancam o leitor à sustentada imersão no universo criado.
Não podendo ser considerado uma incongruência, mas tornando ténue a lógica da realidade, surge um personagem com a quarta classe mal acabada e que vai lendo Moby Dick.
Tal personagem é o sintoma mais óbvio do factor preponderante para tanta irritação: a falta de voz dos personagens que mais não são do que porta-vozes diferenciados para as considerações, pessoais e sociais, do autor.
Basta dizer que esse mesmo personagem, sem benefício à trama ou à sua própria caracterização, tem de ser adepto do Futebol Clube do Porto quando esse clube nada ganhava.
Deixo por analisar mais extensamente uma ou outra situação - como o capítulo feito de excertos de um diário de considerações políticas que recorre a narração quando uma entrada mais pessoal acerca de uma noite de sexo num palheiro teria bastado; ou os diálogos transcritos com travessão e tudo mais na carta de uma moribunda escrevendo emocionada ao filho - que se afiguram como menores perante a combinação das três anteriormente descritas.
Tudo isto se afigura triste perante os parágrafos dedicados à infância passada na aldeia ou à relação entre um neto e um avô que nem o são de verdade. Parágrafos com uma carga intensa do autor, muitas vezes comovendo pela sua simplicidades.
Como o romance se deforma em direcção ao libelo das muitas décadas de política e corrupção - novamente ao serviço das opiniões do homem que não do trabalho do escritor - esses parágrafos andam por ali um pouco perdidos.
Isso pode funcionar relativamente bem quando o autor fala do passado e está, assim, a elucidar leitores mais novos sobre a reforma agrária (escolhida a título de exemplo, mas no seio da qual até decorre um dos episódios mais interessantes mesmo se desnecessários ao produto do romance).
No entanto, mesmo desse tema podemos dizer que já o conhecemos porque ainda está muito presente um documentário como Torre Bela, então dos temas mais recentes e que continuam a arrastar-se nos jornais, o livro faz pouco mais do que neles insistir e, quanto muito, usá-los como ferramenta do melodrama.
Porque é disso que se trata, um melodrama com alguma ingenuidade cinematográfica que já não se usa e algum exagero telenovelístico que insiste em não morrer.
Acreditar que um arquitecto possa descobrir sozinho as contas offshore do futuro Primeiro-ministro é difícil. Que ele tenha um momento Capriano em que afasta o corrupto do poder porque é, igualmente, seu fillho (recém descoberto) é quase impossível de aceitar.
Menos difícil, ainda assim, do que o final em que uma vítima de violação - incapaz de contacto físico com um homem desde então - se renda ao amor por um dos presentes na cena do seu trauma (mas não violador...) a quem, com dezasseis anos e bêbada, pedira um beijo vai para dez anos.
De todo este livro, amálgama de elementos tão dispersos que nunca resultam sequer em pequenos conjuntos entre eles, retiro uma conclusão, de que faltou ao livro um editor que discutisse, corrigisse e melhorasse o livro.
Dessa conclusão nasce outra, já não sobre o livro mas sobre o comportamento do mercado nacional e a reacção das editoras a ele.
Creio que será pelo estatuto de escritor com vendas de um milhão de exemplares - e das expectativas que um seu manuscrito cria numa editora - que Miguel Sousa Tavares pode ser dispensado de ter o seu trabalho à prova antes da publicação.
Com estatuto de infalível, se não mesmo de intocável, sendo garantia de vendas e tendo "fugido" à sua editora habitual para outra que lhe garantisse mais liberdade (por ser, necessariamente, mais pequena no meio editorial nacional), parece-me mesmo impossível que o livro não tenha ido directamente das mãos do escritor para o prelo.
E, portanto, o que faz falta são editores que coloquem em sentido os escritores e o mercado. Mostrando a uns como devem escrever melhor e ao outro como pode lher melhor.


Madrugada Suja (Miguel Sousa Tavares)
Clube do Autor
2ª edição - Junho de 2013
352 páginas

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mais perto

Muito embora o tema do livro de Ana Zanatti esteja um pouco para lá do que eu consideraria a minha zona de conforto enquanto leitor, devo reconhecer que ela criou uma situação ideal às suas intenções.
Nesta espécie de "Corações-Partidos Anónimos" (que, de anónimos, nada têm), a autora faz um retrato global dos muitos descasos e infortúnios que as pessoas causam a si mesmas e aos outros em nome do Amor.
E do que a sociedade ora vende como conceito ora exige como modelo do que seja esse Amor.
Para concretizar isso, Ana Zanatti cria uma dinâmica de grupo muito interessante cuja função primordial é permitir que cada personagem tenha sempre a sua personalidade colocada em questão a cada nova revelação.
As mais inesperadas reacções surgem dos personagens que já pareciam ter preenchido um modelo social dominante e identificável.
Revelações que poderiam soar a falso ou a lugar-comum ficcional funcionam exactamente porque ainda conseguem gerar surpresa.
Até porque o grupo, em que todas as personagens se colocam num mesmo grau de revelação de falhanço pessoal a partir do momento em que estão presentes, faz mais do que permitir a revelação dos personagens: transforma-os.
O grupo cria um ambiente protector, de falsa intimidade, que faz com que as personagens baixem as suas defesas por saberem que não se reencontrarão depois do fim daquela noite.
Mas leva também a falsidades - melhoramentos próprios quase inócuos, na verdade - em nome da impressão imediata que ali cada um dá de si mesmo.
Assim, nenhuma personagem se torna num estereótipo e é no conjunto que elas revelam imagens completas em que cada leitor - se assim o entender - consegue recompôr um retrato de si mesmo.
Um retrato que se faz sobretudo de atitudes e escolhas e não de experiências amorosas específicas.
Toda esta dinâmica de grupo vale-se, acima de tudo, da voz própria que Ana Zanatti consegue criar para cada personagem.
As suas personalidades distinguem-se e funcionam activando umas nas outras reacções cénicas inspiradas.
Os diálogos são a mais-valia desta pequena obra, dado que eles são a própria "acção" e a dinâmica em construção da história.
Creio que a experiência da escritora como actriz não será alheia a esse controlo dos personagens por via dos seus diálogos.
O que neles ela faz é conseguir um equilíbrio dramático do qual extrai um humor saudável e desopilante - do risco da telenovelização existente quando tanto se fala de Amor num livro só - que quase parece ter surgido naturalmente em vez de ser trabalhado por quem escreve.
Humor que só falha na cena final, curiosamente a única cena passada nos momentos em que o grupo já se desfez.
Aí Ana Zanatti parece ter forçado uma situação de coincidência - dentro do próprio grupo, mas também de algo mais abrangente a que chamarei Destino - para um efeito final de revolta brusca - e femininista, sem qualquer tipo de visão negativa do termo - que contraria o efeito do que veio antes.
Dentro do grupo as personagens libertaram-se numa transição pacífica por via do diálogo, aceitando-se e à sua situação porque os outros as aceitam primeiro.
Estamos um passo mais perto da "Grande Ficção" cuja busca assumimos - editora e leitores - com estas edições.
Boa parte do prazer está em acompanhar esse processo para lá se chegar e confessar que, pelo tamanho das propostas, há autores (neste caso, e até agora, autoras) que acedemos a ler em jeito de descoberta.


E onde é que está o amor? (Ana Zanatti)
Guerra & Paz
1ª edição - Maio de 2013
368 páginas

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Do romance e da História

Não sendo um leitor habitual de romances históricos foi com alguma surpresa que me rendi a esta leitura com a cena de abertura.
Tratava-se da descrição da Batalha de Aljubarrota com um equilíbrio emocionante e elucidativo das incidências individualizados da batalha e as estratégias gerais nela envolvidas.
Estratégias oficiais e casuais. As territoriais aplicadas por Nuno Álvares Pereira e aquelas que dão um novo colorido à rectaguarda da batalha, baseadas em peixe salgado e bebida abundante fornecidos aos invasores Castelhanos por Adelaide - uma ficcional amante devota de D. João I.
João Fernando Ramos sabe que usar tal cena como gancho - antes de uma analepse nos trazer de volta ao ponto inicial da trama que exigirá do Mestre de Avis a sua proposição ao poder - tem um efeito benéfico sobre o interesse do leito, mas com ela demonstra logo algumas das suas qualidades como romancista, a saber, uma precisão baseada na economia da escrita sem descurar a emotividade que essa tem de gerar. Ou seja, as qualidades do jornalista com a noção precisa (talvez mesmo o talento, a confirmar num próximo romance) do labor de escritor.
Como esse equilíbrio fala em vários jornalistas portugueses tornados escritores, não é algo de desprezar, mesmo se ainde precise de lapidação.
A essas características da escrita, o autor adiciona a capacidade de destacar traços valorosos das personagens - ou criá-los, claro está - para que elas preencham arquétipos maiores da literatura ao mesmo tempo que a sua individualidade resiste.
D. João I é o rei ponderado mas decidido, com tanto de sábio como de ouvinte atento, e por isso capaz de se tornar no pai de um império.
D. Nuno Álvares Pereira revela-se um guerreiro e estratega digno do título de herói visionário, com bardos cantando acerca dos seus feitos.
D. Filipa de Lencastre é a rainha que partilha amor e sabedoria com o marido, uma figura de estado ao lado do rei e não uma mulher apagada.
Adelaide é o "grande Amor" que se sabe sacrificar em nome do reino, figura com algo de mágico temperando a beleza terrena.
Em certos momentos estes quatro personagens mostram que merecem figurar em relatos que se equiparem aos mitos Arturianos. Com o benefício destes se basearem na realidade e o único inconveniente (dramático) de não haver um atrito interno do grupo.
Menos satisfatória só a aceleração final para abarcar o mais extenso período, até ao fim da vida de D. João I, sobretudo para que ainda sejam referidos os primeiros feitos da geração dos seus filhos.
Toda essa segunda parte do livro passa pelas personagens e pelos eventos com menos intensidade, apenas pretendendo situá-las no friso cronológico da vida do protagonista que dá nome ao livro.
Nada que impeça que o autor crie um livro que serve de tónico para a atenção que não estou a prestar à nossa História, para a personalização e para a aproximação ao romance glorioso que ela já contem.
Sem que o romance seja tão detalhado como um livro de História tem de procurar ser, certamente ficarei a ganhar com a transição, recuperando um gosto pela História nacional que a escola e as suas muitas datas nunca souberam preservar.


D. João I (João Fernando Ramos)
A Esfera dos Livros
1ª edição - Maio de 2013
368 páginas

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Thriller melhor, livro pior

Colisão é um thriller melhor mas um livro pior do que do que Pânico. A crítica que se segue tentará dar sentido a essa afirmação que parece conter uma inevitável contradição.
Jeff Abbott escreveu este livro, como o que li dele anteriormente (e embora me apeteça extrapolar acerca dos seus hábitos regulares, não o farei), usando alguns elementos gerais para desenvolver a narrativa: um personagem fora do seu meio em fuga e um grupo secreto dentro do universo das agências de segurança (e um grupo que as persegue).
Aqui, felizmente, cria uma dinâmica melhor em torno da base mais linear do jogo do gato e do rato, desde logo proporcionando ao fugitivo um parceiro dúbio e com quem manterá sempre uma relação atribulada.
Mas também adicionando elementos de reflexão acerca da política de guerra e dos lucros que ela cria e criando um plano geral que envolve um manipulação muito mais abrangente (do que em Pânico...).
Mesmo assim, Jeff Abbott não consegue evitar ter uma mão pesada com alguns dos elementos que tenta manipular em simultâneo, tornando a reviravolta final nada menos do que óbvia ainda o livro está no seu início - o mesmo defeito que deve ser ser apontado a Pânico.
Talvez a culpa dessa previsibilidade venha da maneira como se sabe que todas as linhas de desenvolvimento do livro, por mais dispersas que pareçam - e sejam, pois há mesmo uma dessas linhas que se mostra inútil -, vão correndo quase em paralelo mas obviamente inquinadas umas para as outras, como anuncia o próprio título do livro.
Sabe-se que esse é o método natural dos thrillers modernos, de tentarem manter as histórias compartimentadas e o leitor/espectador exaltado pela acção em vez de tentar fazer as conexões que sabe existirem.
Daí que o livro funcione como um guião (e novamente faço notar que tal não é bom) que vai saltando de cenário em cenário - ou de período em período - dando a ver apenas uns momentos isolados de cada personagem em capítulos/cenas breves.
Ou, neste caso, relativamente breves, o que só beneficiaria a leitura se o autor tivesse verdadeiro talento para desenvolver cenas de acção provocadoras da tal exaltação ou, preferível e alternativamente, apostasse na construção das personagens.
Mas revela-se tão penoso ler um capítulo de vinte e tal páginas com uma perseguição automóvel de escassa emoção, como continuar com um personagem central cuja única caracterização pessoal é o facto de ter visto a mulher ser assassinada durante a sua lua-de-mel.
Não sendo um personagem tão exagerado como o protagonista de Pânico, este negociador de contratos vai pelo mesmo caminho de capacidades de luta captadas "do ar".
Mas o pior é que o personagem não tem substância dramática para lhe dar credibilidade ou, pelo menos, para criar empatia com o leitor, que sabe que ele está condenado a sobreviver até ao final (feliz, se possível).
Tudo seria mais desculpável se fosse possível ao leitor ligar-se emocionalmente ao personagem central, mas esse é tão funcional, e daí descartável, como era o documentarista no outro livro.
O resultado é, portanto, um thriller mais interessante, mesmo se perdido em tramas demais nalguns momentos, mas um livro ainda mais aborrecido e pelo qual o leitor passa apenas para "saber como tudo acaba".


Colisão (Jeff Abbott)
Civilização Editora
2ª edição - Julho de 2009
486 páginas