quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Um verdadeiro storyteller

Esta é uma história que, no essencial, equilibra duas vertentes: o estreitamento de uma relação entre pai e filho e a exploração da sobrevivência em ambiente hostil.
Esse equilíbrio é bem conseguido, num ambiente de ficção científica com consciência ambiental que só acresce ao interesse da história.
Fá-lo tornando a Terra num ambiente hostil apontada contra os próprios seres humanos e mostrando elementos de uma tecnologia futura mais consciente do que espectacular.
Em geral isto era o que já havia dito sobre o filme, que vi antes desta leitura. Mas o livro beneficia de acrescidas qualidades para merecer atenção mesmo depois de se conhecer o filme.
Claro que essa situação levou a que a leitura se parecesse muitas vezes como uma reposição. Mas se os momentos dramáticos mais importantes são os mesmos, há uma muito melhor composição narrativa.
Além de que, não importa o talento de M. Night Shyamalan como contador de histórias (no sentido lato que tem ser argumentista e realizador ao mesmo tempo), Peter David bate-o em experiência e em talento, até mesmo quando ao domínio da palavra acrescenta o da imagem, como a sua excelente primeira passagem por Hulk demonstrou.
Peter David consegue tornar as persongens mais do que arquétipos ao serviço de uma ideia final, dando substância aos seus comportamentos com uma assinalável economia de meios que não descura o cuidado que a mesma merece a todo o momento.
O trabalho de Peter David benificia ainda da importante inclusão de elementos significativos que não terão tido espaço no filme e que acrescentam à relação entre pai e filho aqui descrita.
Esses elementos são os vários capítulos que se referem ao passado, desde os momentos ainda antes da Terra ter de ser evacuada, saltando por várias gerações até ao Presente.
A palavra gerações é mesmo a mais correcta, visto que esses capítulos se referem sempre a elementos da linha da família Raige.
Assim, esses momentos do passado servem para mais do que exposição dos elementos essenciais do Universo em questão - mesmo se as questões tecnológicas continuassem a precisar de mais contextualização - mas, ainda mais do que isso, serve para criar um peso do nome daquela família que tem uma súbita clivagem na relação entre este pai que a leva por diante com enorme brilho e aquele filho que lhe sobra e que não crê estar à altura e que acha ter sido o culpado da morte da sua irmã - ela sim a digna continuadora daquela família.
Peter David controla todos os elementos que tem em mão com um enorme talento. Trata-se daquela qualidade de um escritor de talento que sabe quando tem de se dedicar a contar uma história o melhor possível ainda antes de procurar o melhor das palavras.
No fundo, aquilo que a palavra inglesa resume melhor do que o nosso "contador de histórias", um storyteller de talento.


After Earth - Depois da Terra (Peter David)
Saída de Emergência
1ª edição - Junho de 2013
240 páginas

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Tolkien para ter à mão


Este livro é, sobretudo, uma boa enciclopédia introdutória para os que se iniciam no universo de J. R. R. Tolkien.
Mas não deixa de ser, para um público generalista que já tenha lido O Senhor dos Anéis - ou que, entretanto, tenha visto os filmes - um recurso útil e rápido para se ter à mão para uma consulta.
A informação é breve mas não tem lacunas evidentes, sendo valorizadas por aquilo que é o melhor do livro, as ilustrações.
Apesar da influência dos filmes de Peter Jackson - o que poderá ser uma conexão inevitável na mente de quem viu os filmes que aproxima as feições dos actores às das personagens desenhadas - e, claro, as semelhanças entre abordagens visuais à conta das descrições detalhadas do próprio Tolkien, há margem de manobra para que o resultado do trabalho de Peter Mckinstry se distinga do que nos habituámos a ver.
Um exemplo claro disso mesmo é o seu Fangorn, cuja excelente ilustração abre esta crítica.
Os desenhos a preto e branco são muito bons, mas são as páginas duplas totalmente coloridas que criam os efeitos mais vistosos. A vista de Mordor, bem como o Balrog sendo provavelmente aquelas duas que mais "enchem o olho".
Tudo conjugado numa bela edição, um álbum de grande formato e de capa dura, que vale a pena ter à mão para a tal consulta que será sempre mais rápida do que procurar a cena ou a passagem que se quer.
Claro que é um álbum muito mais apontado a um público jovem e para quem Tolkien ainda virá a ser uma surpresa, mas não há adulto que não lhe vá pegar.


O Mundo de Tolkien (Gareth Hanrahan e Peter Mekinstry)
Arte Plural Edições
1ª edição - Novembro de 2012
80 páginas

domingo, 11 de agosto de 2013

O homem que "quase"

Os Monty Python na sua abordagem ao Santo Graal tinham um Sir Robin que era a personagem que quase lutara com o Dragão de Agnor, que quase enfrentara a Galinha de Bristol e que quase se mijara pernas abaixo na batalha de Badon Hill.
O homem sobre quem Jô Soares agora escreve é o seu equivalente no campo da anarquia política mundial do século XX.
O homem que quase matou o Arquiduque Francisco Fernando, que quase perdeu a virgindade com Mata Hari, que quase safou Al Capone de acabar na prisão...
A sua vida é feita destes maravilhosos quases, dos quais ele não fugia, antes se via incentivado a procurar outro quase a que aceder.
Claro que ele nunca desejou ficar-se pelo quase, mas certamente que ter tido sucesso teria impedido que ele persistisse e orbitasse todos esses grandes momentos da História.
Até aquilo em que ele é bem sucedido - e pelo que ele é protagonista deste livro - é um sucesso que é um falhanço.
Pensando nas muitas acções empreendidas por  Dimitri Borja Korosec ao longo dos anos, o seu único sucesso a ser contabilizado é mesmo uma "invenção de merda". Uma forma de comunicar entre celas de prisão através da tubagem das sanitas, implicando que qualquer descarga do autoclismo interrompia o sistema.
Jô Soares gosta de encadear a História e olhar para os falhanços. São, não só mais humorístico, são mais humanos.
Os absurdos que preenchem esse lado da História que não conta para ninguém - a não se, eventualmente, para os próprios intervenientes, ou não haveria um diário do protagonista para consultar - torna a realidade extraordinária por envolver esses episódios extraordinariamente absurdos.
Por cada assassino que acerta há dez que falham de forma ainda mais exuberante.
Que um único homem possa, então, ter falhado sozinho por tantas vezes e contra o seu destino - nasceu com dois polegares em cada mão que o tornavam num atirador ainda mais exímio que os seus companheiros - é ainda mais assoberbante... mas também excitante de seguir e delicioso de gozar.
Ele atravessa a linha do trágico para chegar de novo ao cómico.
Como não poderia deixar de ser quando o seu jurado arqui-inimigo é um assassino anão com tendência para voar de janelas de comboio.
São estas as personagens extraordinárias que só a ficção pode resgatar ou acrescentar à História, que detalha sempre os sucessos.
Mas os sucessos são pontuais - mesmo se são eles a afectar a História de forma definitiva - enquanto os insucessos marcam o quotidiano sem qualquer descanso.
D'O Xangô de Baker Street para este livro, nota-se que Jô Soares se tornou mais escritor - a narrativa tem mais coesão - sem perder o mais puro da sua condição de humorista.
O falhanço parece ser aquilo que Jô Soares mais reivindica como matéria para ser um humorista "por escrito". E assim está à vontade para brincar com a realidade sem a desrespeitar.
Tal como o Brasil é o local que melhor lhe serve para ser cómico e terno ao mesmo tempo - é lá que os melhores momentos deste romance acontecem.


O Homem que Matou Getúlio Vargas (Jô Soares)
Editorial Presença
2ª edição - Abril de 2013
256 páginas

sábado, 10 de agosto de 2013

Fora do cânone

Um humorista é um criativo a tempo inteiro, que tem de olhar para a realidade - Presente e Passado - para lá encontrar matéria que remolda aos efeitos que pretende alcançar.
Normalmente, efeitos de espanto por uma visão nova de absurdas conjugações entre as muitas hipóteses que o mundo contém em si.
Jô Soares não se poupou na pesquisa nem nos muitos tons de matéria que juntou: Sherlock Holmes, Dom Pedro, Josephine Baker e Jack, o Estripador (além das muitas personagens da vida pública brasileira).
Sendo personagens culturalmente instituídas, têm de se lhe encontrar momentos dignos de ficção - ou nova ficção no caso de Holmes - nos interstícios dos registos oficiais. E de humor.
Parodiar figuras admiradas sem as ultrajar enquanto foge aos cânones e torna detalhes da História brasileira acessíveis e interessantes a todos, essa é a grande conquista de Jô.
Quem pega no livro tem de aceitar que é tanto leitor de uma obra como é público de uma performance de humor.
A narrativa, entendida como uma estrutura cerrada de eventos, não chega a ser o objectivo central de Jô Soares, que prefere manter a liberade de escolher e moldar os episódios que melhor servem os seus dotes de humorista.
Só depois vem a missão de escritor que ele assume, inevitavelmente ou não tivessem sido alguns dos grandes escritores brasileiros os primeiros revisores e críticos da obra que estava a ser escrita.
Por isso, o livro nunca se torna pouco "sólido". A história é concluída sem deixar pontas soltas - excepto as que o autor quer, mas já lá vamos - e as várias personagens permanecem intactas em direcção às suas vidas ou aos seus cânones.
Concluir a história é a função última - mas cuidada - do escritor, que prefere primeiro colocar em posição os muitos elementos de humor.
Os jogos de palavras, as associações de situações casuais a protagonistas ficcionais/ficcionados, a comédia de costumes ou a afectação e vulgarização do grande detective.
(Sobre a comédia de costumes vale a pena destacar em como, usando um género próprio do seu país, Jô Soares revela todo o prazer que tem em criticar o seu país, de então e de agora, mas revelando nessa crítica quanto afecto lhe tem.)
A estrutura em torno das muitas piadas pode ser um pouco frágil, mas aguenta-se contra análises pessimistas, pedindo que se aceite aqui um ligeiro grau de implausabilidade que melhora o percurso pelo livro.
Até porque só acelerando livro fora, se descobre essa piada maior, a do "falhanço" do policial. A investigação não progride bem, Holmes distrai-se com uma bela mulata, Watson mal consegue dar conta do seu estômago e, no final, o criminoso escapa impune.
Esta é uma aventura que nunca poderia entrar no cânone de Sherlock Holmes, até porque os seus brilhantes poderes dedutivos são afectados pelo contexto que é o errado para as suas conclusões estarem certas.
Pelo contrário, é uma deliciosa história de origem para o vilão Londrino, feita de cartas marcadas que Holmes, jogando em campo alheio, nunca teve realmente hipótese de descobrir.
A tirada final da piada é apontada ao leitor, que se ilude com o título e vai atrás da personagem errada. Mas não tem mal, pois é uma piada da qual não há como não rir!


O Xangô de Baker Street (Jô Soares)
Editorial Presença
6ª edição - Março de 2013
280 páginas

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Um bom primeiro exercício

Quando a Chuva Parar toruxe-me à memória Os Afogados pela proximidado do mecanismo que os faz funcionar: uma conversa tida no carro, em viagem.
Diferenças à parte, como o facto de aqui apenas uma das personagens estar em viagem e a sua interlocutora estar na outra ponta de um telemóvel.
O diálogo é a essência de ambos. Mas onde no outro livro a descontextualização era o fenómeno principal, isolando o diálogo para que as opiniões, a geografia e a realidade fossem de um qualquer espaço europeu.
Aqui, pelo contrário, o contexto - sobretudo do que veio antes - é o essencial, pois o diálogo é o método pelo qual as personagens avançam de um estado para o outro. A viagem ajuda a tornar essa ideia de percurso pessoal a materializar-se, a tornar-se fisicamente mensurável em distância, tempo e velocidade.
O diálogo é um processo de clarificação e análise. Nada de novo nessa ideia, apenas o contexto muda. A viagem de carro e o telemóvel (os elementos destacados como sendo usados pela primeira vez num romance) limitam-se a formar um contexto distinto de uma tarde numa esplanada ou de uma consulta num psicólogo.
A viagem afecta o diálogo - é expressa preocupação acerca do excesso de velocidade e dos perigos de falar ao telemóvel enquanto se conduz - mas não fica incorporado nele, nem o transforma.
Não se gera a sensação de que o diálogo se altera com as transformações do caminho (difíceis, é verdade, visto que a viagem é quase toda por auto-estrada) ou com as particularidades do método da viagem. Afinal, há duas crianças no banco de trás, mas nenhuma chega sequer a parecer que vai acordar e fazer soar a sua voz entre a das duas amigas.
O diálogo tem um tom que não se altera. Depende apenas de quem o está a ter porque não chegam a existir circustâncias externas. Os elementos novos deste romance parecem contribuir, involuntariamente, para um encerramento do diálogo naquela pequena via de comunicação oral entre as duas amigas. Se estivessem ambas fechadas no carro, a simbologia do que escrevo seria ainda mais óbvia.
Não que o diálogo não tenha o seu interesse, tanto que se lê à mesma velocidade excessiva a que o carro vai. Até porque surge como um desperdiçado bom ponto de partida para marcar o tempo do romance, afectando-o da velocidade do carro e dos momentos de paragem - um reabastecimento de gasolina com a impaciência a nascer do outro lado da linha...
Expedito e realista, é uma expressão sincera daquilo em que se tornou o "amar português", de marialvas meninos da mamã e de discretas senhoras impúdicas.
Capta a forma moderna do diálogo sem deixar de atentar em detalhes que o adjectivem de literário em vez de se aproximar de uma mera transcrição.
Não sei se as referências perdurarão no tempo, mas no futuro poderá ser capaz de funcionar como registo "limpo" de outros tempos.
Não cumpre ainda com o epíteto de "Grande Ficção" que a Guerra & Paz deu à colecção, mas é um interessante exercício.
Espera-se que os próximos funcionem ainda melhor nesta brevidade imposta, pois as limitações sempre se superaram pelo aguçar da criatividade.


Quando a Chuva Parar (Joana Pereira da Silva)
Guerra & Paz
1ª edição - Abril de 2013
96 páginas