quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os absurdos da solidão

Os primeiros contos d'Os Objectos Chamam-nos confirmam desde logo as muitas obsessões de Juan José Millás como a relação com a mãe, as histórias de homenzinhos ou a mutação do ponto de vista da realidade.
Todo o livro é um catálogo dessas obsessões, mas de uma acima de todas: a de encontrar na realidade mais banal aquilo que é quase o surrealismo da interpretação humana.
Um misto de absurdo e extraordinário que tudo transforma quando a realidade se filtra pela mente humana.
Do primeiro ao último conto está lá essa transformação, da simples frase do amigo do narrador, em A Morta, que lhe diz "Olha para ela, está morta." e leva o amigo a descobrir como se distinguem entre os que percorrem o mundo vivos e mortos, à bizarra tarefa (coxear) de uma vida toda para adiar a morte da irmã de Rodrigo Fuertes em A morte retroactiva.
Há uma única distinção entre os muitos contos, a dos seus protagonistas. Crianças e jovens na primeira parte, adultos na segunda. Dessa divisão resulta a ideia de que as crónicas agrupadas sob o título As Origens são melhores do que aquelas agrupadas sob o título A Vida.
A relação de Millás com as suas memórias de infância são uma fonte de material melhor do que a vida adulta, como também se verificava comparando O Mundo com O Que Sei dos Homenzinhos.
Talvez porque a infância revista à luz idade adulta é uma fonte (muito) maior de matéria de absurdos. Mas nada trava o olhar deturpador do escritor ao longo de toda a vida.
Deturpador por fazer a modificação da realidade de forma a melhor servir os moldes que o escritor tem em mente concretizar.
Neste caso os moldes são a da fantasia que lança ao caos cada vida assim escrita e, com elas, a consciência do leitor é exponenciada para a solidão das personagens.
Porque quase todos os momentos em que decorrem as absurdamente maravilhosas releituras da realidade se dão quando as personagens estão à espera.
Isoladas ou mesmo quando acompanhadas, é nos tempos mortos que as personagens ocupam o silêncio interno com ideias que uma conduta impoluta impediria de serem expressas.
Felizmente que não há essa pureza de comportamento, ou estaríamos privados dessa transformação do mundano em extraordinário, que pela mão deste escritor é tudo o que queremos ler durante muito tempo.
Contados de outra forma, todos estes contos seriam piadas com uma valente tirada final. Mas nas mãos de Juan José Millás são comoventes e desarmantes estruturas de enorme precisão, escritas de tal forma que engolem para o seu pequeno universo o leitor.
Cada três páginas são pequenos universos auto-suficientes, mas no acumular de realidades paralelas, temos uma visão da imensidade que é incomparável.
Não há quem saia deste livro sem encarar o quotidiano como material de onde escaranfuchar ideias sobre os outros e si mesmos, formas de falar da realidade como quem fala na abstracção da sua própria imaginação.
Estamos todos a sós com as nossas próprias ideias, resta usá-las para à nossa volta criar tudo o que nos retirará da solidão.


O Mundo (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2009
176 páginas

terça-feira, 30 de julho de 2013

O Homem que queria ser Homenzinho

Em comum com O Mundo este livro tem a demanda por uma forma distinta de encarar a realidade. Aqui trata-se de uma experiência fora do corpo: uma pequeníssima versão do autor que deambula com uma consciência autónoma e, por vezes, em comunhão.
O conjunto destes dois livros sugere que, para Millás, a missão do escritor seja a de descobrir novas formas de encarar a sua realidade para justificar escrevê-la para os leitores.
Mas O Que Sei dos Homenzinhos também tem diferenças substanciais para com o livro anterior do autor, sobretudo porque a descoberta de um ponto de vista novo para a realidade não pretende recriar a visão alternativa de outra idade.
Na verdade este ponto de vista do Homenzinho é uma concretização já adulta. Adulta porque perversa, cheia de impulsos que a infância não reconhece.
O Homenzinho é quase como a libertação do Diabinho da consciência, com a liberdade para concretizar as fantasias do Homem. Aquelas inaceitáveis pela sociedade e pela lei: do voyeurismo ao assassinato.
Estamos perante a mesma dualidade entre Bem e Mal d'O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, com versões diferentes do mesmo homem a viverem autonoma mas intricadamente vidas próprias.
Num processo em que as duas consciências ora se fundem ora existem sozinhas, há disputas e comunhões perante as perversidades à disposição.
O Homenzinho é sempre quem quer ir mais longe, adulto recém-criado, logo sem noção das regras mas com toda a noção das pulsões.
Mata primeiro e depois exige ao Homem que mate igualmente. E o Homem dá-lhe excessos (tabaco e álcool) e cozinha uma lagosta tentando adiar a obrigação.
Combate interiormente as pulsões - que pode imputar ao Homenzinho - com as restrições morais. Pode querer ceder às primeiras mas receia as consequências práticas das segundas: não a culpa, mas a prisão.
Ao mesmo tempo, esta questão das duas consciências serve para ridicularizar a masculinidade tornada machismo.
O Homem enxofra-se com a partilha da sua mulher com o Homenzinho quando as consciências estão unidas, mas depois quase que exige ao Homenzinho que este se apresse a repetir o ritual de acasalamento com a única Mulherzinha (uma espécie de Rainha).
O que é do Homem deve ser só do Homem, mas a possibilidade deste ter acesso a prazeres que não lhe pertencem nunca está excluída.
Será para isto que o Homem - que não um escritor, neste caso - reinventa a sua realidade, dá justificações e racionaliza para poder trair, errar, prevaricar?
Ouvem-se expressões que tudo justificam e que criam Homenzinhos sem ser necessário o processo de replicação alcançado neste livro: Não tenho em casa aquilo que preciso ou Isto não é algo que faça com a minha mulher.
São temas que Millás quer tratar sem fazer tombar o livro para a forma de ensaio. Quer cativar sem deixar de lado as suas obsessões.
Esta, dos Homenzinhos, causa uma magnífica ânsia. Pois se um Homenzinho podia ser esmagado como um insecto na palma da mão, porque domina a vida do Homem?
Este Homenzinho é algo demasiado significativo do Homem e aquilo que se sabe dos Homenzinhos é que são uma raça demasiado estranha.
Podem alcançar o que quiserem por serem quase sempre invisíveis, mas procuram os vícios habituais. Têm para si a melhor das mulheres e o mais intenso dos êxtases mas desejam as mulheres grandes: aquelas que não podem ter.
São tal e qual (ou quase) os Homens, mas causam estranheza a quem os vê. Excepto aos escritores, pois a literatura está cheia destes Homenzinhos, diz-nos Millás. Certamente uns maiores que outros, mas todos excelentes protagonistas para um livro.


O Que Sei dos Homenzinhos (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Março de 2012
136 páginas

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Alucinar a realidade

O Mundo é uma portentosa mas perigosa porta de entrada no mundo de Juan José Millás, aproximando-se da sugestão de uma forma de narrativa autobiográfica que convida a acreditar que o escritor tão abertamente se confessa ao leitor.
Caberia ao leitor, não só entrar na intimidade do autor, mas (psic)analisar os seus receios, as suas interpretações mais ou menos bizarras da realidade.
O leitor não pode acreditar que Millás está assim tão focado nessa ideia de que a literatura faz as vezes da psiquiatria.
Mesmo se é claro que os temas-chave, sobretudo da infância, são confidências do autor, a verdade é que o livro se expressa como o resultado de uma tese que ele procurou entender durante toda a vida para melhor poder explicar como vive e porque escreve.
O significado conclusivo que ele quer é para a sua demanda de um ponto de vista que modifique a realidade, para a tornar mais interessante e não mais simples.
Um ponto de vista que se altere e se renove para que o mesmo suceda a uma realidade que não é mutável.
Algo tão simples como olhar a rua a partir de uma janela de uma cave ou algo quase no campo do absurdo como render-se à febre para recordar as alucinações por ela proporcionadas.
Trata-se de uma procura da infância que o autor aprendeu a prolongar para a vida adulta. A inocência substituída pela imaginação, o sonho substituído pelo trabalho.
O resultado é o desta ficcionalização da realidade, alegre reinterpretação dos factos em nome do prazer da renovação.
Ou contra a visão estagnada de si próprio, da vida que não vai a lado nenhum. Porque se não vai é porque alguém - ele próprio, eventualmente - o vai impondo perante as circunstâncias.
A visão da criança não entende essa necessidade de realismo. O trabalho do escritor contraria essa necessidade de forma crónica.
Com isto tudo não quero excluir a possibilidade do autor estar a lidar com o seu passado, pois na sua forma de memória episódica, ele não deixa de abordar episódios tristes ou traumáticos.
Se a ficção também serve a essa purga, fá-lo dando a possibilidade a quem a cria de ter um novo ponto de vista para encarar o seu passado.
Um ponto de vista fantasioso que envolve esse trabalho intelectual de recriar intenções alheias e significados casuais.
Trata-se de expandir a realidade, de lhe acrescentar elementos inexistentes para que os outros tenham ainda mais força ao se reflectirem na imaginação.
Com Juan José Millás escrever é mais do que repensar ou reinventar, é verdadeiramente reviver. E reviver com outra consicência.
Escrever - com qualidade, detalhe, beleza e precisão - é manter a consciência da febre da infância, usá-la proveitosamente, ir mais adiante no Mundo. Porque se o Mundo é a rua da infância, com o crescimento, todo o Mundo se assemelha a esse pequeno microcosmos - ora releia-se Naguib Mahfouz.
O Mundo exige, então, que, em vez de o reduzir sistematicamente a esse estreito pedaço de vida (o da rua e o da infância), se use essa semelhança como rampa de lançamento para uma outra visão de tudo o que existe.
Como os delírios febris da infância que criam uma sensação de realidade intensificada. Mas, pela literatura, contraria a fragilidade - de bolha de sabão diz o próprio autor - dessas visões.


O Mundo (Juan José Millás)
Paneta Manuscrito
1ª edição - Janeiro de 2009
176 páginas

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Meia dúzia é muito pouco

Esta crítica inicia-se com uma aproximação a uma "nota de intenções". Tudo porque evitarei ao longo do texto o transtorno de abordar os contos de que não gostei.
Apontarei dois motivos para tal. O primeiro é a falta de vontade de conduzir textos que possam descambar para a enumeração cruel de defeitos quando a intenção do blogue é reforçar o prazer dos livros.
O segundo e mais significativo, é o facto de em vinte e um autores aqui agrupados uma minoria apenas - seis! - merecer um verdadeiro destaque.
Não quero com isto dizer que entre os contos dos quinze autores que não serão referidos abaixo não haja textos de leitura agradável, mas não se distinguem senão pela capacidade de não aborrecerem o leitor.
É necessário assinalar, também, que a par desses contos agradáveis há também vários com uma estrondosa falta de qualidade para figurarem neste volume.
Até porque se os contos maus fossem purgados do livro este seria, como um todo, visto com mais bondade, sendo o "agradável" aceite com agrado como o nível mais baixo da selecção.
O coordenador do volume, Miguel Almeida - a quem dedico esta breve nota por ter lido A Cirurgia do prazer e que no conto aqui presente repisa o mesmo terreno sem novidade -, cita Gabriel García Márquez no seu prefácio: "O conto... pega ou não pega".
Mas desta ideia o coordenador não retira o critério essencial para a sua selecção. Ficaram demasiados contos que "não pegam" a somar páginas ao volume que poderiam ter servido para dar pequenas bio-bibliografias de uma selecção mais breve de escritores.
Até porque esses contos que "não pegam" contrariam as características que o autor associa ao conto (que não lhe advém da forma): fulgor narrativo e essencialidade da linguagem.
Vários são os contos em que nem narrativa há, em que o conto é uma página auto-congratulatória de um diário de pensamento (não por acaso esses contos surgem quase sempre escritos na primeira pessoa).
Outros tantos - e alguns desses pertencendo também ao grupo anterior - confundem essencialidade da linguagem com o rebuscamento dos termos usados.
Não que haja um padrão para os contos que deixam por cumprir a noção que Miguel Almeida tem para o que eles devem ser - ou, pelo menos, a que devem aspirar - mas também não há um padrão para a recolha senão a liberdade dos próprios autores.
Portanto deixarei as noções acima para futuros leitores do livro aceitarem ou recusarem conto a conto, passando agora aos destaques que tentei que não fossem influenciados pela vontade de encontrar um oásis literário a cada sequência de páginas áridas.
Em Ana Fonseca da Luz destaca-se o humor com que cria os seus dois pequenos enredos de amor ou amizade que dão uma imagem de infracção das regras do quotidiano triste.
Carlos Vilela escreveu uma narrativa histórica com verdadeira essencialidade da linguagem, correcta e inventiva sem se dar a excessos. Ainda para mais com um ponto de vista original sobre o Conhecimento que enchia o mundo antes dos Descobrimentos. Numa descrição de um paraíso possível, fica uma crítica ao papel dos Descobrimentos que tende a ser esquecido nos elogios que a História ensina.
Há uma beleza da simplicidade na vida criada por Cristina Correia. Trata-se de um homem que se torna extraordinário por ser ele próprio e nada mais. Um conto que usa a realidade reconhecível sem nomear Espaço ou Tempo e que se foca na personagem para que ele cresça e seja o foco da narrativa e não um mero utensílio de reflexões da autora - seja o leitor a retirá-las de uma vida inteira ali escrita.
Um dos mais inventivos contos do livro pertence a Emílio Miranda, com a sua descrição da normalidade laboral mas protagonizada por seres celestiais. Entre o humor de The Office e uma revisão contemporânea da mentalidade de Deus/do patrão, ficamos com uma construção cheia de força que permanece até com o leitor menos atento.
Os contos curtos em que João Carlos Silva arrisca um esplendor de imaginação para falar da actual condição humana são uma verdadeira delícia. Facilmente poderiam ter-se tornado em sketches a tentarem atingir algum surrealismo, mas têm uma magnífica dignidade até no falhanço (interno, das personagens).
Vítor Fernandes fecha o livro e com esse posicionamento quase consegue compensar o grande número de páginas que estão entre ele e João Carlos Silva. Os seus contos breves têm uma maturidade que poucos outros mostram, chegando mesmo a evocar memórias de Mário de Carvalho ou Dinis Machado. Ele sim une fulgor narrativo e essencialidade da linguagem, fisgando o leitor com um magnífico domínio da Língua para que sofra uma manipulação de desfecho fulgurante e sempre inesperado.
São estes os autores - e como se percebe, mesmo assim alguns em patamares acima de outros - que merecem atenção entre os Contos do Nosso Tempo (julgo que ficaria melhor que o título referisse Contistas). Parecem-me muito poucos para um volume de quase quatrocentas páginas.


Contos do Nosso Tempo (Vários)
Esfera do Caos
1ª edição - Junho de 2012
384 páginas

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Onde está a piada?

Christopher Moore teve um período fértil no mercado nacional para desaparecer por completo logo de seguida (apesar do muito que havia ainda para traduzir).
Tendo lido dois dos seus livros percebo facilmente esse efeito, de motivação imediata para continuar embrenhado no seu humor mas cuja eficácia (e memória) se desvanece com o tempo que passa.
Isso e, claro, um esquecimento do autor assumido conscientemente perante escritores mais relevantes que há que ler sem falta.
A possibilidade de voltar à escrita de Moore através de uma novela gráfica pareceu-me boa.
O autor nunca foi muito dado à descrição mas que usava a acção para criar situações adequadas às suas piadas, que não poucas vezes dependiam de personagens estabelecidas em poucos traços.
Portanto adicionar desenhos a esta forma de escrever seria estabelecer um contexto e acelerar ainda mais os momentos certos para o humor.
Aqui ele montou um grupo muito ao estilo do que há pouco tempo se viu em Zombieland, mas a sua paródia ao género dos sobreviventes em cenário pós-apocalíptico não acerta com o humor tantas vezes quanto se esperava.
A história rende-se depois à norma, com inclusão de cenas de acção, de romance e de desenlaces atempados de personagens que se sacrificam ou sobrevivem.
Mesmo com o final não tão feliz assim - o último painel não é a versão esperada do casal olhando o pôr-do-sol - parece que a convencionalidade narrativa foi levada longe demais para a punchline irónica assim executada.
Tudo isto seria menos importante se, como nos romances de Moore, o background fosse insignificante para a fantasia (Ficção Científica neste caso) e só interessassem as personagens, mesmo quando estas são uma parte significativa dessa própria fantasia.
Neste caso há uma separação clara entre as personagens em acção e a ocorrência dos fenómenos extraordinários, reagindo as primeiras aos segundos.
Isto faz com que existam várias boas ideias para conseguir conjugar Extra-Terrestres e dragões numa única história, mas que haja muito menos ideias de humor.
Como a resolução demora demasiado, seria mesmo preferível que não existisse de todo, deixando as personagens à deriva (e não apenas sob a ameaça da deriva) no acaso de um mundo devastado.
Christopher Moore estaria mais confortável e com mais material de inspiração se escrevesse sobre a repopulação do planeta (quem sabe se com uns ETs esquecidos à mistura) e não esta buddy story de acção.
Este é um bom esboço para um blockbuster (se aceitarmos a maneira como eles são feitos por estes dias) mas é uma má história de Moore em comparação com aquelas que conheço.
Provavelmente a melhor piada que Christopher Moore ainda conseguirá com esta novela gráfica é que ela seja adaptada ao cinema... depois de ter sido um argumento rejeitado que viu a luz do dia nesta versão impressa.
Terminarei falando sobre o desenho de forma breve, visto que é um elemento que não ajuda em nada. Há páginas feitas com muito cuidado - maioritariamente cenas de página inteira com um papel chamativo - mas a maioria é mal desenhada e pouco ousada na composição - além de levarem com uma má colorização digital por cima -, tornando a leitura ainda mais aborrecida do que já era sem humor.


The Griff (Christopher Moore, Ian Corson, Jennyson Rosero)
HarperCollins Publishers
1ª edição - 2011
160 páginas