sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Palavras que cantam

O livro já estava lido e à espera da crítica há algum tempo, mas com o concerto do autor no Pavilhão Atlântico a forma inicial do texto altera-se, apenas em parte involuntariamente.
Torna-se difícil não encontrar pontos comuns entre o intérprete e o escritor quando os encontros com cada uma das encarnações estão tão próximos, mesmo se elas distam quase cinquenta anos entre si.
Ver Leonard Cohen ajoelhado no palco é percepcionar uma forma de comunicação com o divino, não numa oração mas na protecção das suas palavras para que Deus se debruce para melhor o ouvir.
Uma abordagem à religião onde obriga Deus a religar-se ao que os humanos têm de extraordinário, a aproximar-se do nosso domínio.
O mesmo que faz em Vencidos da vida onde faz com que a concepção do divino e o mais primordial - mas também o mais complexo - dos desejos humanos se cruzem.
Desejo esse que é sexual mas, inevitavelmente, também afectivo. Por isso a complexidade das relações que se estabelecem entre três pessoas, três amigos, três amantes.
Relações que os satisfazem enquanto os encaminham para uma crescente perda, uma crescente miséria e uma crescente destruição. E, eventualmente, uma breve salvação final talvez incompreensível.
Mas Leonard Cohen em palco não é apenas uma lenda curvando-se para melhor se expandir para o público. É, também (e ainda), um energético duende, saltitando pelo palco como que distribuindo uma alegria que falta ao público bem mais novo. Um duende cujo mágico tesouro guarda em si mesmo.
Cohen não se esquiva a usar no palco todas as hipóteses que despertem o espectáculo e o mesmo faz com o livro.
Ele chamou-lhe um delírio, quem o analisou chamou-lhe experimental, mas no fundo trata-se da forma que um escritor tem de concluir a tal ligação entre divino e terreno/sexual/animal, que é tentar ligar todos os pontos do universo que estão entre um e outro ponto: tocar todos os destinos e falhar todas as hipóteses, ir a todo o lado sem sair do limite da página em branco.
É por isso que a par do triângulo amoroso, uma outra história se cruza neste romance, a de uma índia Mohawk que se tornou santa no século XVII de nome Kateri Tekakwitha.
É por isso que todos os estilos literários e todos os géneros narrativos se espraiam pelas páginas sem que haja regras que os limitem.
Tudo cabe nestas páginas porque as frases ganham liberdade para se elevarem acima da sua condição de palavras sequenciadas.
Podem assumir a forma que quiserem porque quem as molda as criou como se elas não tivessem existido já antes dele. E por mais formas retorcidas, todas as frases reconhecem-se como pertencendo ao mesmo autor.
Com os novos arranjos, todas as músicas de Leonard Cohen parecem fazer parte de um único corpo, pleno de classe e classicismo.
Se nem todas são obras-primas inesquecíveis, não se pode deixar de as ouvir a todas para melhor compreender a forma como de entre o bom se destaca o excelente.
O mesmo se conclui do livro. Nem sempre nos arrebata, mas para ler frases como A noite é a gasolina dos meus sonhos desperançados., todas as páginas merecem a nossa atenção.
Assim é quer com a música, quer com as palavras escritas. Assim é com Leonard Cohen, um criador acima de todos os outros e tão igual a nós.


Vencidos da vida (Leonard Cohen)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Julho de 2011
296 páginas

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Portugal que merecíamos

A antologia de pulp fiction portuguesa é um livro revelador. Quer em termos literários quer em termos históricos.
Descobrem-se no meio destes contos ideias que, ainda hoje, são vendidas como novidades em meios tão distintos como o cinema, seja série Z ou produções de grandes meios.
Isso é um atestado da originalidade e da bravura com que estes escritores se atiravam à conquista do público pois é desse trabalho que nos fala este livro, o de atrair semana após semana os espíritos mais ousados e insaciáveis de Portugal.
Os leitores que exigiam que os enchessem de adrenalina a cada nova página não admitiam que lhes impingissem um qualquer produto, reconhecendo os méritos de um autor contra a produção em massa de uns assalariados.
Quem agora os lê constata o quanto pode aprender destes autores relegados da memória colectiva.
Apesar dos géneros em que escreviam, para serem autores vendáveis tinham, primeiro, que dominar a linguagem de forma exímia. Depois, iam mais longe e tornavam-se em exímios minimalistas, purgando o texto do desnecessário aos efeitos - acção, terror, suspense... - que pretendiam alcançar.
Neste seu conhecimento da Língua e na sua tentativa de serem o mais eficazes possíveis, acabavam por usar o Português de maneira sugestiva e mais criativa do que em textos que costumam ser colocados no cânone.
Quem quiser escrever deverá começar por saber moldar-se a qualquer género e saber narrar ousadamente através dos mínimos recursos. Sobre isso poderá fazer crescer um estilo opíparo se assim o desejar.
A revelação história sobre o que enfrentava esta literatura num país dominado por figuras que se ortougavam   decisões sobre o que se poderia saber e escrever até mesmo nas revistas de baixa circulação que a própria sociedade de bons costumes (na sua maioria) rejeitaria.
O ensinamento de como pensavam os censores é o mais importante deste livro, com a publicação das notas a lápis azul (há que imaginar a cor) feitas a "A Noite do Sexo Fraco".
A lentidão de reacção e a fúria do censor mostra que nem eram assim tão limitados nem assim tão inteligentes. Gente normal com mais ou menos sensibilidade (como quem hoje classifica os filmes a sair de Hollywood, por exemplo) e que tentava o seu melhor.
E, em paralelo, aprendemos o grau de versatilidade e esperteza que os autores tinham de alcançar para passar pela censura sem perderem a própria história no processo, visto que os cortes assinalados não permitem que a história se recupere.
Esta é a edição portuguesa mais importante deste ainda imberbe século XXI, um alerta contra o esquecimento e uma revelação das outras formas que pôde e pode assumir a criação literária por cá.
Mais do que isso, este é o livro que vem a tempo de lançar uns poucos novos leitores na demanda pelas revistas da época que ainda escapem aos coleccionadores.
Quem terminar este livro sem vontade de reencontrar tanto os melhores como os piores destes personagens nas suas restantes aventuras será um leitor a quem falhou o sentido de fascínio e escapismo que os livros proporcionam e que levam à solitária forma de sentir-se completo.

Mas não partam já à procura dos alfarrabistas mais remotos!

Tudo isto é uma crítica verídica a um livro inventado, que fascina por completo porque se crê que partiu de  publicações reais.
É a mais brilhante encenação literária portuguesa, o embuste em que tem de se cair porque se tornou real, com a criação de vários fac-simile credíveis (pelas suas imperfeições, inclusivé) até mesmo nos anúncios, de várias biografias sérias na dúvida levantada ou de vários contos que ninguém sonharia publicar nestes tempos de Literatura com a inicial bem elevada.
A verdade é que se criou um Portugal novo e atraente. Entre as biografias inventadas que criam um retrato de um nicho da sociedade que é uma história de méritos próprios - com identidades desconhecidas, traições em cima da publicação, casos amorosos e rivalidades ferozes - e os próprios contos de estilos tão diversos e precisos que criaram cinco décadas de literatura alternativa com coragem num país de brandos costumes, há uma realidade mais atraente por detrás destas ficções.
Deve-se, por isso, crer que os verdadeiros autores dos contos - quem me dera poder dizer que os identifiquei - são ainda mais brilhantes do que parecia à partida.
Não só porque criaram um estilo diferente do seu (acredito que tal seja inevitável) sem deixarem de lado a atracção dos leitores por aventuras impossíveis.
Não só porque se capacitaram para o uso de ferramentas literárias tão ousadas quanto a censura ou as notas de rodapé que assim complementam o texto (e com isso fazendo a crítica do período histórico em que situaram o conto).
Mas, acima de tudo, porque "inventaram" para o nosso país uma rara linha paralela de especulação histórica da literatura, cujas narrativas poderão criar uma série de fiéis que continuarão a criação de heróis, de publicações e de autores.
De tal maneira que, um dia, a pulp fiction que nunca existiu no nosso país passe a ter existido e a História confunda em definitivo o que se criou a partir daqui com o que poderia ter sido criado até ao "Ano Negro".
Nunca houve material mais apropriado para lançar os leitores na forte loucura da escrita de fan fiction, recriando o Portugal que quer agora ler.
Se estes contos tivessem existido nas décadas que lhes eram atribuídas, teríamos hoje muitos autores inspirados por elas, arriscando no seio da seriedade dos grandes nomes. Espera-se que agora ainda vão a tempo de inspirar muitos autores novos a começar pelas aventuras irresponsáveis antes de se quererem afirmar entre aqueles que discutem os prémios literários.


Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa (Luís Filipe Silva - Organização)
Saída de Emergência
1ª edição - Outubro de 2011
416 páginas

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ta(o)nta felicidade

Este é um romance notoriamente pós-Le fabuleux destin d'Amélie Poulain.
Um romance que não se fica só pela linearidade da sua história mas passeia-se por um mundo de detalhes que surpreendem pelo encanto ou pela estranheza.
Os capítulos que são apenas uma lista, uma definição de dicionário ou a letra de uma canção intrometem-se na narrativa como indicações de contexto popular que o próprio narrador não daria mas que o leitor apreciaria.
O encanto de tais interrupções não é permanente, funcionando melhor se há mais relevância no que surge de fora ou se faz eco na própria narrativa.
O resto do tempo, a interrupção é indesejada mesmo se curta, porque não tem a função que tinha no filme, de escapatória para a personagem central que acabava por definir a sua embaraçada acção exterior.
As informações intercaladas são responsabilidade única do autor sem que a sua inevitabilidade esteja provada.
Isso talvez seja assunto de somenos num livro de leitura leve, um pequeno romance de modestas intenções.
Um romance assente na delicadeza das personalidades que constroem um amor poderoso com base na inoperância emocional que causa, a ele e a ela, acidentais tribulações que acabam por provocar no outro reacções vibrantes (e assolapadas?).
Um amor franco-sueco pode nascer de uma entrada a destempo num escritório onde um beijo de celebração (e sem segundas intenções) o apanha de surpresa. E pode crescer com a recusa dele em continuar com os jantares que não avançam para o amor que ele sente, o que acaba por o tornar misterioso aos olhos dela.
Se o amor floresce pelo acaso, já não é só pelo acaso que as pessoas florescem no amor.
Antes apagados na sua pequena comunidade, afirmam-se como as mais interessantes das personagens, primeiro pela imaginação alheia e, no final, pela sua própria determinação.
Não é o tipo de livro que conheça bem, mas entendo que esta é uma história esperançada, própria para ser lida nos tempos melhores de cada um ou passará por uma cruel exibição de felicidade.


A Delicadeza (David Foenkinos)
Editorial Presença
1ª edição - Agosto de 2011
323 páginas

domingo, 16 de setembro de 2012

O que se passa nos ecrãs

Popcorn é uma leitura interessante para aqueles que gostam de cinema e, em particular, que gostam de Reservoir Dogs, de Natural Born Killers, de Scarface ou até de Bonnie and Clyde.
Todos filmes que tornam a violência num espectáculo sedutor. E todos filmes que levantam questões sobre a legitimidade de fazer dinheiro, ganhar fama ou construir uma carreira à base da glamourização e da exploração dessa violência.
As consequências que esses filmes têm nas mentes mais influenciáveis é a discussão que o livro segue no momento da coincidência de um desses filmes valer o Oscar de Melhor Realizador a um jovem cineasta e um casal de assassinos que atravessam os Estados Unidos da América deleitando-se com sádico prazer.
As trajectórias acabarão por ter um ponto de intersecção num rapto do casal ao realizador (e família e convidados...) em que Ben Elton, argumentista primeiro e agora escritor, leva o debate directamente "aos lares americanos" colocando o rapto e a violência, sobrando a verdadeira decisão sobre se é aquilo que a América quer ver ou condenar nas mãos dos produtores de televisão e dos espectadores.
A situação criada seria um alerta às consciências se não estivessem todos demasiado entretidos para perceber que há algo real para lá do ecrã, nem que sejam as suas próprias vidas daí para a frente.
São variados os detalhes vistos de forma crítica pelo autor, do desejo de censura da sociedade americana à relação diferenciada que os dois lados do Atlântico têm com os realizadores que a moral vigente faz cair em desgraça.
Fá-lo num estilo solto e muito mais cinematográfico do que literário em que a escrita surge contaminada pela própria forma dos argumentos.
O recurso a essa técnica é facilmente aceite quando a realidade passa pelo filtro do realizador com um desejo de controlo que a vida não proporciona como a película.
Ao que parece, é um estilo que vem deixando descendência (veja-se Selvagens, exemplo recente no mundo editorial português).
Um estilo que torna a leitura rápida mesmo se não contribuir para solidificar uma verdadeira personalidade de escritor que se diferencie da de argumentista.
Garante, sim, curiosidade para os leitores com igual gosto pelo cinema.


Popcorn (Ben Elton)
Livros do Brasil
Sem indicação da edição - Janeiro de 2000
256 páginas

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Envolvido com um tema alheio

A conclusão pode ser precipitada ao fim de uma segundo livro lido, mas Stephen Booth gosta de tratar de temas que falem directamente à identidade britânica, sublinhando o confronto da tradição com a mais recente orientação social.
Se no livro anterior era a maneira como o papel do polícia era encarado pela população, aqui é a reacção moderna ao tipo de relação que o país mantem com os animais falando simultanea e harmoniosamente sobre as restrições à caça de raposas e o novo mercado gastronómico que se forma para a carne de cavalo.
Podem parecer temas difíceis de interessar facilmente o leitor português, mas usadas como são tornam a leitura surpreendente e eficaz seja para quem for.
Durante cerca de metade do livro, as considerações sobre estes temas e como eles terão sido causa do homicídio investigado não deixa notar o quanto a investigação está estagnada.
Estamos embrenhados em suspeitas, preconceitos ideológicos que a própria detective Diane Fry expressa e que nos levam a desconfiar das intenções dos mais variados envolvidos apesar de Ben Cooper vir em defesa argumentativa da elevação do comportamente da classe envolvida na caça à raposa.
Não quer isto dizer que o carácter de todos os envolvidos seja impoluto, nem mesmo do lado dos que se opõem às caçadas.
Isso só leva a que as investigações devam ser mais abrangentes, mas as próprias condições do trabalho de polícia - limitado pelos meios e pelas ideias - é que as afunilam.
Se o leitor é levado a focar-se num único aspecto ou numa única hipótese, é porque é assim que vai a investigação.
Ninguém consegue escapar às suas próprias crenças sobre a realidade que o rodeia nem à maneira mais clássica de interpretar os dados disponíveis, que é correlacioná-los.
Afinal de contas, certamente que na maioria das vezes a resposta mais óbvia é a correcta. No entanto qual a resposta mais óbvia é que o pode estar em causa.
As coincidências também acontecem e os elementos presentes no local do crime só circunstancialmente apontam em exclusivo para os caçadores que por ali perto se encontravam.
A pressão dos resultados afecta a própria polícia de uma forma que, apesar de tudo não leva a consequência gravosas como a condenação de inocentes, mas atrasa a concretização da justiça.
Stephen Booth só cometeu um erro nesta sua estratégia, a inclusão de vários capítulos de um diário de 1968 que teimam em fazer o leitor desconfiar das respostas que se buscam no presente.
Ainda assim, a maneira como a verdade sobre o crime original e as suas consequências surge surpreende os próprios detectives e, ligados a eles, os leitores.
O que eles tiveram de conseguir foi compreender a importância dos detalhes e pensar "fora da caixa" para conseguirem voltar à base estrutural de uma investigação que a torna única e independente dos sinais excessivos que contaminam as provas.
O policial está construído de forma muito sólida de forma a manipular o leitor e depois a servir-lhe um classicismo detectivesco que é sempre um prazer de acompanhar.
Tudo isto em torno de um tema que não diz nada (pelo menos na forma muito particularizada como se apresenta) aos portugueses mas que os envolve mesmo assim.


O Toque da Morte (Stephen Booth)
Publicações Europa-América
Sem indicação da edição - Agosto de 2010
356 páginas