sábado, 28 de novembro de 2009

Regressar

Regressei a Bartleby, uma vez mais diga-se, sem que saiba exactamente porquê. É uma pulsão que acho perfeitamente deliciosa.
Suponho que seja uma identificação com este homem que se torna uma fantasmagoria pela força da sua existência imóvel mas resistente.
Bartleby é como um pilar que se opõe ao mar. As ondas deveriam passar sem sequer se aperceberem dele. Mas a sua imobilidade acaba por se revelar incómoda, perturbadora para a força que se julga toda poderosa.
Na sua intrigante singularidade, Bartleby rasga com a normalidade que a sociedade espera ver cumprida.
Ele é um resistente silencioso e pacífico à obediência que deve ser norma. Ele opta quando devia apenas reagir ao que lhe é dito. Ele não confronta ninguém, apenas opta.
Por isso Bartleby será sempre uma personagem moderna, por isso ele será sempre a expressão do indivíduo que se confronta com a sua própria função no mundo e com expectativas com que a sociedade o pressiona.
Ainda não foi a última vez que regressei a Bartleby, disso tenho a certeza.


















Bartleby (Herman Melville)
Assírio e Alvim
Sem indicação da edição - Abril de 1988
88 páginas

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um obra-prima

O prefácio deste livro abre dizendo que se trata de uma obra-prima, um peso desnecessário para o leitor que fica desconfiado de um elogio fácil ou da sua incapacidade de se aperceber da qualidade da obra.
Começando-se a ler o texto deparamo-nos com uma história que vive de uma simplicidade extrema, como se fosse uma história tão comum que se conta sem quase se dar conta. É uma pequena memória que ressurge pouco antes de uma missa por um defunto, missa essa que três pessoas diferentes querem pagar o que o padre vai recusando.
Mas quando finalmente se revela a verdadeira natureza do texto, descobre-se a grandeza que encerra.
Se a história é simples, história de homens numa terra pequena, história que se perderia na memória, aquilo que ela encerra é grandioso: o retrato de um país, o retrato de uma guerra, o retrato de um povo dividido em classes, o retrato de uma evolução, o retrato das relações dos vários poderes.
Por via do pequeno e fechado relato de uma qualquer aldeia espanhola percebemos as dinâmicas e os infortúnios que definiram a Guerra Civil e que levaram à revelação daquilo de que os homens são capazes.
Nesse aspecto há aqui muito daquilo que também surge em O Relatório de Brodeck, homens a tentarem lavar a culpa dos actos que cometeram quando se viram rendidos a uma dose de medo e outra tanta de raiva.
Aqui, no entanto, não há inocentes, quanto muito há tolos, crédulos, falsos puritanos.
E todos estão obrigados a sentir o peso do vazio que substituiu a humanidade quando uma mula é a única presença na missa que se vai rezar.
Sinal de que o mundo está despedaçado e louco e de que os homens devem esvaziar-se ainda mais para conseguirem ignorar tal tormento.
Em pouquíssimas páginas, com um estilo tão recatado mas ainda mais duradouro, Sender conta-nos muito mais do que um mero país, conta-nos a lição que demasiadas vezes esquecemos, pois só os que não recordam o passado estão condenados a repeti-lo.
E afinal Requiem por um camponês espanhol sempre é uma obra-prima, nem era preciso anunciá-lo.


















Requiem por um camponês espanhol (Ramón J. Sender)
Campo das Letras
1ª Edição - Agosto de 2007

88 páginas

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Escrever pela humanidade

Os homens quando se vêem a nú diante de si mesmos sentem o maior dos repúdios e a maior das vontades de destruirem essa consciência.
Mas sendo impraticável - impossível não, mas certamente difícil de o fazer a toda uma aldeia - destruirem-se a si mesmos, destroem aquilo que os confronta consigo próprios, sejam meros desenhos ou um estrangeiro que olha para a aldeia de uma nova forma.
Um homem justo é o espelho em que a monstruosidade dos restantes se reflecte e, conscientes de si mesmos, estes homens sentem uma raiva perante de si que não conseguem tolerar.
A raiva e o medo são dois das mais fortes motivações do homem, a primeira servindo geralmente para dominar a segunda. Já quando as duas se combinam, com os homens enraivecidos e assustados consigo mesmos, o resultado é muito mais violento, capaz de os levar ainda mais para lá da brutalidade desumana que já haviam revelado.
Os homens não pretendem senão apagar a memória de si mesmos, dos seus actos, dos seus pecados, da sua ignomínia.
Brodeck escreve contra o esquecimento, contra o silenciar da realidade, contra o apagar do passado.
Mas é ele que carrega esse fardo da memória, ele que tem de penitenciar toda a sua aldeia.
Ele e a família que o acompanha, como a mulher que carrega no ventre o texto que Brodeck escreve para si mesmo, o mesmo ventre de onde nasceu a filha que ele adora, a filha de mais um crime que os homens da aldeia cometeram.
Brodeck será o último homem justo, que quer apenas que todos saibam que é inocente, que não procura a vingança que facilmente poderia ter.
Ele sobreviveu a tudo para reencontrar a sua mulher, embora isso se tenha relevado impossível, porque nenhum homem justo é recompensado neste mundo. Pelo contrário, é castigado vezes e vezes sem conta.
Brodeck escreve o relatório sabendo que com ele pretendem os restantes limpar as suas consciência. Brodeck escreve o seu próprio texto sabendo que ele não pode permitir que as consciências se percam assim.
Não há mais espaço para ele, homem justo, naquela aldeia ou sequer neste mundo. Mas se ele se submete não se rende.
Submeteu-se a ser um cão mas sobreviveu. Submeteu-se a branquear o que os outros haviam feito mas revelou as suas verdadeiras feições.
Terá de bastar que seja apenas ele a sabê-lo, mas Brodeck não se deixou conspurcar, ele escreveu como hipótese de permanecer o homem que pretende, mesmo que nunca consiga voltar a ser o homem que fora.
Ele escreveu para fazer sobreviver a sua humanidade, para nos revelar até que ponto estamos dispostos a perder a nossa.
Estamos mais do que confrontados com nós próprios quando nos vemos no espelho que é Brodeck, reflexos dos homens daquela aldeia.


















O Relatório de Brodeck (Philippe Claudel)
Edições Asa
1ª Edição - Setembro de 2009
256 páginas

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Popular sabedoria

Três cavalos é como um móvel feito para ser sólido mas cuja beleza se revela pelo passar do Tempo.
Tem a desenvoltura manual e tem também a beleza artesanal, tem a solidez suavizada pelo detalhe, o peso do ouro temperado pelo trabalho de filigrana.
Três cavalos está repleto daquela sabedoria que não se escreve, que apenas se vive, de alguém que mete as mãos na terra e lê velhos livros à mesa do almoço.
De quem é refém de uma guerra que não foi sua. De alguém que não taxa o valor da amizade, independentemente de como ela é desniveladamente retribuída de parte a parte. De alguém que se convence não conseguir voltar a amar mas que ainda assim o faz.
Três cavalos tem a serendipidade de encontros que são como renascimentos e redescobertas de si mesmo.
Tem a memória acabada da vida que se levou e a esperança infinita da vida que está por vir.
Três cavalos é uma obra que se dá ao leitor pela sua escrita que é quase como um discurso de natureza popular, mas que dá ainda mais ao leitor por toda a sabedoria que só um discurso assim pode acalentar em nós.


















Três Cavalos (Erri De Luca)
Ambar
1ª Edição - Junho de 2004

120 páginas

domingo, 15 de novembro de 2009

Toda a literatura

Este é um épico sobre um mundo extraordinário que nos deixa bem presente na mente as infinitas possibilidades da Manha e do Talento, magias extravagantes e originais que nos fascinam pela libertação da imaginação mais livre e inocente que possuímos.
Este é um épico sobre uma personagem a braços com os dilemas mais pungentes que o ser humano enfrenta até hoje, com as expectativas combatendo as emoções, com a crença combatendo a sabedoria, com o mundo combatendo o próprio homem.
Fitz nasceu para uma vida que não lhe pertence, para um destino que deveria ser escrito por todos menos por ele.
No entanto a sua própria existência é fonte de alterações nos destinos de todo um reino e vezes sem contas ele é chamado a tomar decisões que determinam os destinos das próprias pessoas a quem a vida dele deveria pertencer.
Fitz é chamado a muito mais do que desejaria e a muito mais do que deveria, mas isso não um torna um herói, apenas num rapaz a lutar pela sua própria consciência, pela sua própria individualidade, pela sua própria coerência e pela sua própria existência.
Fitz é um personagem da mais rica literatura que, neste caso, pertence a um género muito específico.
Mas um género de pouco serve se não for tratado com o mais capaz talento, um talento para lá de qualquer classificação genérica.
Refraseando George R. Martin, toda a literatura deveria ser assim.


















A Corte dos Traidores (Robin Hobb)
Saída de Emergência
1ª Edição - Outubro de 2009
368 páginas

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Uma personagem a sós

http://www.uwo.ca/french/films/Film%20Images%202007-2008/La_pianiste_2.jpg
Isabelle Huppert como Erika Kohut

Senti-me atraído para A Pianista por ter visto e admirado o filme que Michael Haneke fez dele.
Por Michael Haneke ter arrancado a Isabelle Huppert uma interpretação tão surpreendente quanto intensa, o ressurgimento do título A Pianista na minha mente foi como um foco apontado à leitura.
Há em A Pianista uma personagem extraordinária, Erika Kohut, que não era afinal apenas fruto de uma inspirada actriz.
Ela é a essência de subjugação voluntária para que se lhe activem os sentidos, para que se sinta viva por entre a dormência da sua vida, embora nunca liberta da rendição a que se acostumou ao morar com a mãe.
Mas uma personagem assim, mesmo que fique na memória, não consegue verdadeiramente viver sozinha.
E com isto quero dizer que a escrita de Elfriede Jelinek teria de a suportar, teria de a espicaçar, teria de a acariciar.
Não o faz. A escrita de Elfriede Jelinek tem a eloquência fria de um relatório, um atestado analítico à psique de uma personagem.
Uma frieza que assenta mal, que obriga a uma disputa entre a paciência e o prazer do leitor.
Elfriede Jelinek parece capaz de analisar de forma distante a sua personagem, mas com isso afasta também os seus leitores.
Há aqui uma personagem radical mas que precisava de um outro tratamento para que a acompanhássemos com mais intensidade.


















A Pianista (Elfriede Jelinek)
Edições Asa
2ª Edição - Outubro de 2004
336páginas

domingo, 8 de novembro de 2009

Contar o que não se deve

Augusten Burroughs é um desbocado capaz de listar os "broches sagrados" - que lhe foram proporcionados por padres -, tentar seduzir um operador de telemarketing para que a empresa dele nunca mais lhe ligue ou insinuar que o marido da sua colega de trabalho anda a fazer sexo com a própria filha como retribuição por ela ter gritado com ele sem razão alguma.
Mas nada disto parece uma exploração saída de uma imprensa cor-de-rosa sedenta de escândalo e choque.
Augusten Burroughs parece muito mais uma versão sem restrições nem limites da nossa vida quotidiana, de quem faz aquilo que bem entende perante as situações quase banais, tornando-as assim em motivo notável para a escrita.
Ele não tem vergonha, não porque pretenda fazer-nos abrir a boca de espanto mas porque aceita verdadeiramente a sua concepção diferente da vida e acha que partilhá-la será catártico para... o leitor, claro!
Se não fosse ele a escrever assim, seria impossível para aquela velhota confessar-lhe que a mãe lhe dava clísteres de Dr. Pepper e depois a obrigava a beber o líquido que saía.
A nossa própria vida ganhar contornos aceitáveis e partilháveis quando encontramos alguém igualmente para lá da "normalidade" - as aspas são para que tentem definir o que é, afinal, esse conceito.
Fácil é rir alto e bom som de tantos pormenores deliciosos que se soltam destas crónicas. Fácil é dizer "Só mesmo a um tipo assim!".
Difícil é depois ter de perceber que a nossa vida, tirando as notas mais extravagantes, não é tão diferente desta, mas que no nosso caso estamos um pouco mais constrangidos a ser boas pessoas e aturar o que se passa.
Augusten Burroughs coloca-se a jeito para que qualquer pessoa o ache seu companheiro, porque não se contam histórias assim na praça pública, não se é neurótico para uma audiência de desconhecidos porque isso atrai uma avalanche de bizarrias de volta.
Só que ele tem um certo sadismo apontado ao mundo, disposto como uma bofetada ou uma chamada de despertar. Cada um tem as suas próprias histórias negras a precisarem de catárse, de serem contadas em voz alta com histerismo e gargalhadas.
Augusten Burroughs apenas colocou as dele cá fora primeiro para dar o exemplo.


















Pensamento Mágico (Augusten Burroughs)
Contraponto
1ª edição - Julho de 2009
292 páginas

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais tréguas como esta

Se disser muito simplesmente que A Trégua é uma lição sobre o Amor, chegarão a um lugar-comum de imaginarem um qualquer romance lamechas com pretensões de psicologia barata.
Se disser, pelo contrário, que A Trégua é o retrato de como a vida se espraia para a eternidade mesmo nos momentos mais ténues, julgarão que se trata de um romance sobrecarregado de intelectualidade.
A Trégua, muito provavelmente, é tudo o que existe pelo meio de ambos os pontos e que os une ou separa.
A Trégua é um diário (literalmente) de um homem a caminho da reforma que se atormenta com o que poderia ter sido, com o tempo vazio que terá de ocupar, com as memórias que ressurgem ou se perdem.
Um homem que tem, ao fim de vinte anos de imaculada viuvez, o encontro com uma jovem que o arrebata.
Ele, julgando-se perto demais do fim - da vida, das possibilidades, do merecimento - não é capaz de se entregar ao que verdadeiramente sente. Demora demais até aceitar que poderá estar perante algo que merece mais do que a sua desconfiança.
Crente no inevitável fim daquilo que vive naquele momento, ele não encarará esta porção da sua vida senão como encara a própria vida, um tempo a ter de ser ocupado, um ócio sem justificações.
Por isso esconde, até de si mesmo, a felicidade conjunta que encontrou e que vive. Quando a deixa despontar não é ainda tarde demais, mas há uma dramática lição para aquele homem que tanto atormentava a própria alma.
A trégua do título é o tempo que Deus lhe concede de alívio das dúvidas mundanas, um alívio que será por natureza breve e que confundirá aquele que o sente por se parecer demais com a verdadeira salvação, a eternidade feliz concedida antecipadamente.
A trégua não é a disponibilidade de tempo para aquilo que ele quiser. A trégua é o esquecimento da inexorável passagem desse tempo e das tragédias que se encontram na revisão do tempo que ficou para trás.
A Trégua é um livro absoluto, uma Alma traduzida em palavras e um pedaço de literatura brilhante.


















A Trégua (Mario Benedetti)
Cavalo de Ferro
1ª edição - Abril de 2007
168 páginas

domingo, 1 de novembro de 2009

Ficar aborrecido

Lê-se O Perito e sente-se que estamos a braços com um autor cheio de ideias e perfeitamente capaz que é vitíma das circunstâncias editoriais.
Não digo que Robert Finn não tenha escrito o livro que pretendia, mas parece ter-se resignado às convenções de um género porque é aquele que, neste momento, está em voga.
No fundo O Perito tem dois livros dentro de si.
O primeiro é um policial simples que está enriquecido por uma dupla protagonista que são como pólos atraídos um para o outro, mas igualmente repelidos.
Um casal a trocar picardias, ele um inglês estranhamente impetuoso e ela uma americana estranhamente resguardada.
São, com as devidas distâncias, um Boogie & Bacall para os tempos actuais - sendo que tenho consciência que a este comentário não seré estranha a leitura recente de À Beira do Abismo.
O segundo é um livro de fantasia onde velhos textos sobre magia podem ser manuais eficazes, que podem trazer ao mundo moderno de poderes que rivalizam com a ciência mais avançada ao mesmo tempo que o impregna do classicismo que só os combates de florete podem ter.
Separados dariam dois livros muito apetecíveis e certamente com muito mais páginas para cada um se desenvolver e respirar.
Juntos dão, ainda assim, um agradável e eficaz livro que, apesar de tudo, escapa à repetição da fórmula que parece condenado a repetir.
É caso para ficar aborrecido com Dan Brown e o seu sucesso que obriga a uma formatação da imaginação - ou, pelo menos, da expressão dessa imaginação.


















O Perito (Robert Finn)
Publicações Europa-América
1ª edição - Julho de 2009
392 páginas